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25 de Maio de 2014 - 06:00

Tribuna foi atrás dos primeiros cotistas que entraram na universidade em 2006 e, apesar de detectar distorções, encontrou histórias de superação

Por DANIELA ARBEX

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Argemiro entrou na Faculdade de Administração da UFJF pelas cotas em 2006 e conseguiu se formar, sendo o orgulho da mãe, que exibe seu diploma e o capelo, e também dos colegas
Argemiro entrou na Faculdade de Administração da UFJF pelas cotas em 2006 e conseguiu se formar, sendo o orgulho da mãe, que exibe seu diploma e o capelo, e também dos colegas

Dez anos depois do início das discussões sobre a implantação das cotas para negros e oriundos de escolas públicas na UFJF, a Tribuna resolveu investigar o destino dos alunos que integraram o primeiro grupo de cotistas da instituição. Dos 87 aprovados no vestibular de 2006, mais da metade conseguiu se formar, totalizando 47 pessoas, o equivalente a 54%. Outros 12 continuam tentando concluir suas faculdades oito anos após o ingresso no ensino superior. Dos 28 restantes, nove não se matricularam, 13 evadiram, três trancaram seus cursos, um pediu transferência e outro está com a situação a ser especificada. Durante 30 dias, o jornal entrevistou estes alunos e ex-alunos, acessou dados quantitativos e qualitativos sobre a eficácia desta política pública, além de ouvir especialistas favoráveis e contrários ao sistema. Ao radiografar a última década de uma universidade que, em 2004, era composta por 80% de estudantes brancos - apesar de o percentual da população negra no estado chegar a 45,4% -, e por quase 60% de alunos egressos de escolas particulares, foi possível perceber que, independentemente de gráficos e estatísticas, aqueles que alcançaram uma oportunidade, superando a rejeição e os obstáculos dessa trajetória, conquistaram mais do que o diploma: aprenderam a sonhar.

Argemiro Silva Pires, 26 anos, é um dos 87 cotistas que ingressaram na UFJF em 2006. Negro e pobre, foi criado dos 13 aos 18 anos com a ajuda do Instituto Jesus, instituição filantrópica da cidade. Nunca tinha pisado no campus da universidade até o primeiro dia de aula na Faculdade de Administração. Aliás, o morador do Bairro Santo Antônio nem sabia que existia um. Aluno de escola pública municipal e estadual, ele só ouviu falar sobre o vestibular na entidade que abriu suas portas para ensiná-lo jardinagem, marcenaria, oficina de padaria e também onde teve acesso a aulas de futebol e lazer. Por causa do bom desempenho de Argemiro, o Instituto Jesus ofereceu-lhe um ano de cursinho no Pré-Universitário. Aprovado na federal, ele experimentou a esperança pela primeira vez. No primeiro dia de aula na UFJF, no entanto, o calouro sentiu na pele o peso da nova etapa de vida. Era um dos poucos negros da faculdade. Sem dinheiro para pegar ônibus, ele fazia a pé o trajeto de casa até a faculdade, gastando quatro horas por dia para chegar no local de estudo. Pensou em desistir, mas encontrou no apoio de servidores da Coordenadoria de Assuntos e Registros Acadêmicos (Cdara), onde foi bolsista e onde ainda trabalha, forças para continuar. Com medo da rejeição dos colegas de classe, isolou-se no período inicial do curso. Tinha vergonha da sua condição social e de estar em um mundo no qual ele não encontrava um lugar seu. "Eu pensava que não podia frequentar o mundo deles, que havia um lugar reservado na sociedade para cada um: pobres e ricos. Não questionava isso, até começar a ter um pensamento crítico e perceber a importância de eu estar na universidade. Aí comecei a discutir as questões sociais e a usar o meu próprio exemplo."

O cotista levou três anos a mais do que a sua turma para concluir a faculdade, no ano passado. Diz que precisou se adaptar à nova realidade, vencer os desafios da pouca bagagem escolar e até mudar a forma de falar, abandonando as gírias com as quais estava acostumado. "Passei a ser referência no meu bairro e a ter o ideal de ajudar a minha comunidade. A mudança que a universidade fez em mim e nas minhas atitudes foi muito forte. Antes, eu era muito desmotivado. Agora, percebi que posso. Por isso, defendo as cotas através do critério da comprovação de baixa renda. Sem ela, eu não teria chance e seria difícil responder qualquer coisa sobre o meu futuro. Em toda a minha vida como aluno, foi a primeira vez que estudei em um lugar onde tinha aula todo dia. Ao vestir a beca para a formatura, senti alívio. No dia da colação, eu e minha família choramos. Quando fui aplaudido, me senti o cara", diz, soltando uma gargalhada.

 

A caminho do doutorado

Otávio Fabrício Lemos Corrêa Maia, 34, é graduado em ciências sociais pela UFJF e mestre em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz, no Rio. Professor de sociologia e egresso da Escola Estadual Sebastião Patrus de Souza, ele aderiu às cotas, pelo grupo de negros, no mesmo ano que Argemiro. Preparou-se para o vestibular no cursinho popular oferecido pela Prefeitura. Mesmo tendo assumido sua condição de cotista, Otávio concorrerá, em 2014, a uma vaga no doutorado de antropologia social do Museu Nacional pelo grupo dos não cotistas. "Naquele momento, as cotas tiveram o papel de me mostrar que o meu lugar era na universidade. Apesar de eu ser a favor do sistema que cria mecanismos de ajustes em relação ao desequilíbrio social, quero vencer esse desafio. A minha escolha atual não nega minha história. Estou estudando para alcançar os sete pontos exigidos para a aprovação no doutorado pelo grupo de não cotistas. Quando olho de onde saí e contabilizo quantos amigos perdi de forma brutal, percebo que pude construir uma trajetória diferente e que meus filhos vão encontrar menos barreiras do que eu."

 

 

Pesquisa revela que ainda há distorções

Desde a implantação do sistema de cotas, mais de sete mil alunos ingressaram na UFJF por meio dessa política pública, considerada por alguns como compensatória e, por outros, como ação afirmativa. Pesquisa do professor do Departamento de Estatística da UFJF, Antônio Fernando de Castro Alves Beraldo, aponta que, entre 2006 e 2012, cerca de 5.300 alunos aprovados pelas cotas eram oriundos de escolas públicas (cotistas B) e 1.600 eram negros (cotistas A), correspondendo respectivamente a 31% e 9,5% do percentual total de estudantes. De acordo com o levantamento, dos 5.300 estudantes do grupo B, 1.378 estavam matriculados em escolas públicas federais, ou seja, aquelas consideradas de alto rendimento, como Cefet/CTU, Colégio de Aplicação João XXIII (UFJF), Colégio Militar e Coluni (Universidade Federal de Viçosa).

De acordo com o pró-reitor de Graduação, Eduardo Magrone, os critérios adotados pela UFJF para o sistema de cotas foram muito amplos, o que levou a distorções da política. "No momento em que se define como escola pública aquelas sob a jurisdição dos governos municipal, estadual ou federal, abre-se a possibilidade dos oriundos de escolas federais, cujo perfil socioeconômico e até racial é bem diferente da população potencialmente beneficiada pelas cotas, ingressarem na universidade", considera. A pesquisa de Beraldo mostrou que, no curso de medicina, por exemplo, no período de 2006 a 2011, dos 279 ingressantes cotistas do grupo B (escolas públicas), metade, o equivalente a 138 alunos, era proveniente das escolas de alto rendimento. Em tese, esses alunos não atenderiam ao verdadeiro perfil de cotistas das escolas públicas municipais e estaduais, já que a maior parte deles teria cursado antes escolas particulares ou pertencia a classes socialmente privilegiadas. No entanto, durante as entrevistas realizadas pela Tribuna, foi possível constatar que muitos cotistas frequentaram instituições privadas em função da obtenção de bolsa integral ou parcial. E, apesar da provável distorção da política de cotas para os oriundos das escolas públicas de alto rendimento, 60% do total geral de cotistas, o equivalente a 4.140 alunos, estudaram em escolas públicas estaduais.

Desde 2012, o Governo federal estabeleceu a adoção de cotas por nível socioeconômico, grupo racial e advindos de escola pública para todas as universidades federais do país.

 

 

Abandono é maior entre não cotistas

 

Ao contrário dos alunos matriculados nas escolas públicas de alto rendimento que entraram na universidade pelo sistema de cotas - nos cursos de alta procura como medicina e direito, estes cotistas seriam aprovados de qualquer forma -, os oriundos de escolas do estado ou do município apresentaram muita dificuldade nas disciplinas, principalmente na área de exatas, altos índices de reprovação e rendimento acadêmico, em geral, muito inferior ao dos demais, necessitando de apoio pedagógico da instituição para conseguirem se graduar. Na engenharia civil, por exemplo, se não houvesse o sistema de cotas, metade dos cotistas de escolas públicas e nenhum cotista do grupo de negros conseguiriam entrar na UFJF. Ainda de acordo com o levantamento do professor de estatística Antônio Fernando de Castro Alves Beraldo, para cada cem alunos em 2012, 32 cotistas estavam ativos.

Apesar da constatação de baixos rendimentos, o abandono de cursos entre os não cotistas é mais do que o dobro da evasão entre os beneficiados pelo sistema de cotas. A explicação pode estar no maior valor simbólico e concreto de um aluno cotista frequentar a UFJF do que o não cotista, fazendo com que ele se apegue à vaga conquistada, mesmo com todas as dificuldades de se manter na universidade. Para Beraldo, entretanto, em termos de eficiência - considerando eficiência como qualidade de formar alunos dentro do prazo previsto ou próximo a isto -, os resultados para os cotistas não são bons. "A inclusão foi feita, mas a artificialidade do sistema de cotas não consegue aproximar as minorias do ponto de partida dos socialmente privilegiados, porque esse ponto de partida não está à frente dos portões da universidade, mas bem antes no tempo, no percurso do ensino fundamental e médio", comenta o autor da pesquisa.

Rudá Ricci, consultor em políticas públicas, acredita não ser possível, por meio do que ele chama de política compensatória, oferecer ao final da carreira estudantil o que o aluno não teve durante uma vida inteira de discriminação. "Estamos tento algum tipo de política para o ensino fundamental e médio? Se a resposta for não, então essa é uma política oportunista, que não acaba com a desigualdade na educação. É extremamente positivo haver pessoas que tiveram melhoria nas suas condições de vida depois de ingressarem na universidade. Mas e os milhões que ficaram pelo caminho?"

Eduardo Magrone, que também participou da pesquisa da UFJF, concorda com os dilemas de uma política pública incapaz de sanar os problemas da base da pirâmide estudantil, mas defende a existência das cotas num país onde a disputa por mérito é quase uma utopia. "Num país no qual houvesse menos desigualdade de condições, essa política poderia ser perfeitamente dispensada. Na prática, porém, se não houver uma ação afirmativa, as vagas na universidade continuarão reservadas, como foram no passado, para uma população estudantil privilegiada. Se deixarmos tudo quietinho como sempre foi, faremos com que o neto continue a ter o mesmo lugar do avô. Sem mobilidade social, não há sociedade democrática. Romper com isso é fundamental para o Brasil se desenvolver. E a universidade tem o papel dela nisso. Eu só não sei se ela está cumprindo", afirma o pró-reitor. Segundo ele, oito anos depois do ingresso de cotistas, o corpo docente ainda não está preparado para um perfil heterogêneo de aluno. "Estamos acostumados a receber ao longo dos anos um alunado que, em sua grande maioria, pertence a um nível socioeconômico bom, frequentou uma escola de ensino básico boa, tem disponibilidade de tempo para estudar. É esse estudante que o professor tem a expectativa de receber em sua sala de aula. Pela maneira sumária como os cotistas são reprovados, percebe-se que os docentes estão despreparados para recebê-los. Se a médio e longo prazo não houver uma reversão disso, eu diria que a política de cotas vai acabar se esgotando, não pelo fato de haver distorções que podem ser corrigidas, mas de haver uma universidade cuja cultura acadêmica, institucional, resiste a esse perfil de aluno."

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