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08 de Junho de 2014 - 06:00

Ao longo de 29 dias, Tribuna viajou por 20 linhas urbanas e sentiu de perto as maiores dificuldades dos usuários, que enfrentam desde atrasos até superlotação e falhas mecânicas

Por Eduardo Valente

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"Um passinho atrás, por favor", o pedido insistente dos cobradores de ônibus é ouvido por passageiros que circulam em coletivos superlotados, principalmente nos horários do rush, quando milhares de juiz-foranos dependem do transporte coletivo para se locomover. Muitos se espremem e tentam fazer mágica, quase quebrando a lógica de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Antes de enfrentar o aperto nas viagens, é comum os usuários terem que passar por longo tempo de espera nos pontos.

Superlotação e atraso nas linhas foram os principais problemas constatados pela Tribuna, que, ao longo de 29 dias, viajou por 20 linhas urbanas de todas as regiões do município e sentiu de perto as dificuldades enfrentadas pelas pessoas. Em 18 viagens, havia passageiros em pé. Em pelo menos dez carros, a equipe circulou em veículos superlotados, com cidadãos tendo que se deslocar sem a menor segurança nas escadas das portas centrais e traseiras. Os piores casos constatados foram nas linhas 722 (Santa Cruz), 306 (Retiro), 107 (Vila Montanhesa) 755 (Zona Norte/UFJF), 525 (Universidade), 436 (Linhares) e 519 (Torreões). Outros problemas graves também foram encontrados, como pontos de ônibus inapropriados, coletivos mal conservados e com falhas de manutenção, o que aumenta o risco de quebra do veículo, prejudicando ainda mais a rotina dos passageiros.

O sistema público de transporte no município reúne 262 linhas, de sete empresas, responsáveis por transportar mais de nove milhões de passageiros a cada mês. Para realizar este raio X do transporte coletivo urbano de Juiz de Fora, a Tribuna permaneceu 13 horas e 37 minutos nos ônibus. Ao longo do levantamento, feito sempre das 6h às 7h e das 17h às 19h, 45 histórias foram ouvidas, de homens e mulheres entre 16 e 65 anos que diariamente tentam superar os obstáculos do transporte. Se acordar mais cedo é a realidade dos trabalhadores e estudantes que moram nos bairros e tentam ao menos seguir até o Centro sentados, o cansaço é o obstáculo daqueles que voltam para casa no fim do dia e ainda precisam ter uma dose extra de paciência. Nos pontos da região central, subir nos coletivos já pode ser apontado como um trunfo, mesmo que para isso a lei da selva tenha que se mostrar presente.

Horário

Das 20 linhas percorridas (cuja escolha obedeceu a um critério - ver quadro), a metade das viagens ocorreu pela manhã e o restante, no final da tarde. O que já era uma constante para os passageiros também foi visto de perto pela reportagem. Ou seja, das dez linhas vespertinas percorridas, somente uma chegou ao ponto no horário previsto, a 436 (Linhares). Alguns atrasos mostraram que, há dias, em que aguardar um coletivo se transforma em um calvário. Como em 5 de maio, uma segunda-feira, quando os usuários da linha 145-Centenário/Santa Efigênia amargaram uma hora e cinco minutos a mais no ponto. O veículo que deveria passar às 17h55 só chegou às 19h. Também quem esperava a linha 135 - Sagrado Coração de Jesus/Parque Guarani, no dia 15 de abril, terça-feira, precisou esperar. A reportagem chegou às 17h25, mas o coletivo que deveria circular às 17h35 e 17h50 apareceu apenas às 18h20. Já pela manhã, a equipe teve mais sorte, com oito viagens sendo iniciadas no tempo esperado.

O levantamento realizado pela Tribuna é publicado um ano após as manifestações populares ocorridas no país em junho de 2013. Em Juiz de Fora, uma das demandas das ruas naquela época era justamente cobrar mudanças no transporte público. A exigência era por um serviço com mais qualidade, preço justo, passando pela revisão do sistema e novo processo licitatório. O secretário de Trânsito do município, Rodrigo Tortoriello, foi ouvido sobre esta reportagem na última quinta-feira. Segundo ele, alguns processos já foram iniciados, embora reconheça que este trabalho não ocorrerá da noite para o dia. Ele citou como ações em andamento a instalação do GPS (que permitirá ao usuário saber em tempo real se o ônibus está próximo do ponto) e a pesquisa de origem e destino realizada por meio de entrevistas com os passageiros em todas as linhas. Conforme Tortoriello, o GPS deverá entrar em funcionamento até o mês que vem, enquanto mudanças estruturais, em curto prazo, começam a ser efetivadas entre agosto e os próximos 12 meses.

 

Superlotação: 'Não cabe mais, só se for um em cima do outro'

A primeira das 20 viagens realizadas pela Tribuna foi também a com mais passageiros a bordo do veículo. Na noite de 14 de abril, uma segunda-feira, foi possível contabilizar cerca de 50 pessoas em pé na linha 722, que atende à comunidade do Bairro Santa Cruz, na Zona Norte. A lotação já era esperada, principalmente porque este destino está na lista dos que mais registram passageiros na roleta. Apesar de o veículo ter saído da Avenida Getúlio Vargas às 17h58, com 33 minutos de atraso, com a capacidade acima do tolerável, o motorista parou em todos os pontos previstos no itinerário, recebendo mais pessoas até a altura do Bairro Santa Terezinha, na Zona Nordeste.

Nesta viagem, a solicitação "um passinho atrás, por favor" foi recebida com indignação. Depois de vários pedidos feitos pelo trocador, um usuário não resistiu: "Não cabe mais, só se for um em cima do outro. Vamos embora, por favor. Está muito quente", desabafou. Esta frase, aliás, não foi ouvida apenas nesta ocasião. Ao longo do levantamento realizado pela Tribuna, a situação se repetiu outras sete vezes, sendo mais quatro no sentido Centro/bairros (linhas 135 - Parque Guarani / Sagrado Coração de Jesus; 302 - Floresta; 525 - Universidade e 436 - Linhares), e três na direção bairros/Centro (712 -Dias Tavares; 306 -Retiro e 755 -Zona Norte /UFJF).

Ônibus direto

Para a gerente de vendas Rosilene Munck, 40 anos, moradora do São Judas Tadeu, bairro vizinho ao Santa Cruz, o ideal seria haver um veículo que seguisse do Centro diretamente para o bairro, sem parar pelo caminho. "Seria ótimo, e temos demanda para isso. O problema é que o 722 é usado por moradores de todos os outros bairros que antecedem o Santa Cruz, como o Jóquei Clube, Cidade do Sol e Barbosa Lage. Às vezes, prefiro até pegar o ônibus de Benfica e descer na Avenida JK, seguindo a pé para casa." Perguntada se isso não seria arriscado, ela afirmou que sim, acrescentando que "perigo existe a qualquer momento, até dentro dos coletivos".

Na Vila Montanhesa, Zona Nordeste, o problema é outro. Segundo os moradores, eles são intimidados para não entrar nos ônibus de outros bairros vizinhos, como o Filgueiras. "No Centro, ficam mandando o motorista arrancar, dizendo que já está cheio e nem moramos em Filgueiras. O problema é que temos poucos ônibus para nos atender", disse uma usuária, que pediu para não ser identificada. No sentido contrário, no início da manhã, a viagem também é tumultuada. O ponto final da linha 107, por exemplo, sequer é sinalizado, e só foi possível saber que aquele era um local de parada pela aglomeração de aproximadamente 20 pessoas identificadas no início da manhã do dia 29 de abril, uma terça-feira. Segundo a auxiliar administrativa Renata Botesine, 34, os passageiros se concentram naquele ponto para tentar seguir a viagem sentados.

Paciência

Não é fácil depender do sistema público de transporte em Juiz de Fora. Alguns usuários ouvidos pela reportagem, por exemplo, trabalham mais de 12 horas por dia e ainda precisam enfrentar pontos inadequados e veículos lotados na volta para casa, e esta rotina aumenta o cansaço e pode resultar em estresse. De acordo com o doutor em psicobiologia Ricardo Kamizaki, que também é professor da UFJF, este quadro se manifesta de forma distinta em cada pessoa, sendo que algumas são menos e outras mais sensíveis. Segundo ele, o corpo humano precisa de um tempo de descanso para se recuperar, nem que isso seja uma ida ao banheiro ou uma pausa para o café. Quando isso não é possível, as consequências passam a ser físicas, podendo até mesmo levar à morte. "Aquelas menos resistentes ao estresse podem apresentar pupila dilatada, sudorese e pressão alta. A impaciência também é um dos sintomas. A expectativa de vida do brasileiro é de 74 anos, mas quem passa 35 anos nesta rotina tem mais chance de morrer entre 60 ou 65 anos. E isso por fatores genéticos. Esta rotina pode até desencadear problemas cardíacos ou câncer, caso haja predisposição. Além disso, aqueles que realizam estressados trabalhos, que exigem atenção e foco, podem ter mais chance de falhas." No entanto, a maioria das pessoas se adequa a situações como essas, conforme o especialista. "O ser humano tem uma capacidade de habituação fantástica."

Próxima página: Problemas mecânicos que atrasam as viagens também foram constatados pela Tribuna.

 

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