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26 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Casos na Vila Bejani e Vila Esperança II chamam a atenção pela violência em abordagens rotineiras

Por Marcos Araujo, Michele Meireles e Sandra Zanella

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Três dias depois de a Polícia Militar ser surpreendida com paus, pedras e tiros e precisar usar bomba de efeito moral, munições de borracha e bastões para conter a investida de moradores da Vila Bejani, no Jardim Natal, Zona Norte, o clima de hostilidade contra a corporação se repetiu na noite de segunda-feira, desta vez na Vila Esperança II, na mesma região. Dois acessos ao bairro foram fechados com pneus, sofás e madeira queimados. 

Segundo o assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, capitão Jean Michel Amaral, as barreiras seriam uma forma de protestar pelo fato de um morador, 19 anos, ter sido ferido pela PM com um tiro de borracha após desobedecer ordem de revista e tentar atacar os policiais com socos, chutes e pedradas. Os casos ocorridos em um período de 72 horas chamaram a atenção pela violência com que os militares foram recebidos em duas comunidades durante abordagens rotineiras. Na Vila Bejani, o confronto envolveu cerca de 40 populares e deixou dois dos 36 policiais feridos, além de duas viaturas danificadas.

De acordo com o tenente da Rotam, que participou da ocorrência na Vila Esperança II, Carlos Vilaça, quando a PM se deslocava para as ruas que haviam sido fechadas, os policiais receberam a informação de que alguns infratores teriam se infiltrado em meio à população. Os criminosos teriam dito que iriam efetuar disparos contra as viaturas e usariam a comunidade como escudo. Na manifestação estariam diversas mulheres e crianças. "Com o intuito exclusivo de preservar vidas de inocentes, a PM resolveu usar a técnica de negociação para resolução pacífica da manifestação, enquanto o helicóptero Pegásus foi acionado para sobrevoar a área." Segundo o tenente Vilaça, a polícia conseguiu convencer a população, e os próprios moradores apagaram o fogo e desobstruíram as vias. 

O assessor organizacional do 27º Batalhão, capitão Jean Michel do Amaral, acrescentou que "como não houve solicitação de moradores possivelmente impedidos de passar pelos locais e não havia grande aglomeração, as viaturas decidiram não intervir ou fazer frente a essas ameaças".

Sobre a ousadia de populares em impedir a passagem de militares, o capitão ponderou: "O bairro não chegou a ficar fechado, havia outros acessos." 

 

Gravidade 

Para o capitão, a ocorrência mais grave foi a de sexta-feira na Vila Bejani. De acordo com informações do boletim de ocorrência da PM, policiais seguiram para a Rua Geraldo Vilella, por volta das 21h, a partir da informação de que um rapaz, 25 anos, suspeito de envolvimento em crimes, estaria armado no local. Durante patrulhamento, a equipe viu pessoas em atitude suspeita e deu ordens a todas para ficarem em posição de busca. No entanto, um homem, 26, não obedeceu e, mesmo sendo alertado sobre o fato de estar incorrendo em crime de desobediência, continuou desacatando a determinação até receber voz de prisão. Em seguida, cerca de 40 moradores investiram contra os militares, usando paus e pedras. 

A PM pediu reforço e revidou as agressões com uso de bastões e munições de borracha. O homem preso agrediu um sargento com chutes e socos, causando ferimento em sua mão direita, enquanto o suspeito de estar armado desferiu um golpe com garrafa contra um soldado, lesionado na mão esquerda. 

Enquanto isso, pedras continuavam sendo arremessadas contra os policiais, e o rapaz que portava arma fez quatro disparos na direção dos militares. Diante da situação, a equipe decidiu recuar até um ponto menos vulnerável, enquanto era aguardada a chegada de apoio para ultrapassar a barricada montada no acesso e efetuar a prisão e apreensão dos envolvidos. Mesmo diante do reforço e uso do helicóptero, a PM continuou sendo alvo de pedras e realizou novos disparos com munição não letal e o lançamento de uma bomba de efeito moral. Cinco envolvidos, incluindo uma mulher e dois adolescentes, foram detidos, alguns deles em cima de lajes. Eles foram encaminhados para a 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil. O homem que estava armado, no entanto, não foi localizado. Uma viatura teve o para-brisas quebrado, e outra, a porta traseira amassada a pedradas. 

 

 

Suspeito de participação é apreendido

O caso da investida contra a Polícia Militar na Vila Bejani foi registrado como homicídio tentado, por este motivo, a investigação do episódio ficou a cargo da Delegacia Especializada de Homicídios e Antidrogas. Na tarde de segunda-feira, uma equipe da especializada, em parceria com a Delegacia de Repressão a Roubos, cumpriu mandado de busca e apreensão no Jardim Natal, na residência do suspeito de ter atirado contra os militares. Ele não estava em casa, porém, seu irmão, 16, que também teria participado do ataque, estava no imóvel e foi apreendido. 

Na delegacia, ele acabou confessando ser o autor do assassinato de Jeferson Guerra de Oliveira, 18, morto em 11 de dezembro, dentro de uma loja de escapamentos de veículos, na Rua Bernardo Mascarenhas, Bairro Fábrica. O adolescente também é suspeito de participar de um roubo em um supermercado no Bairro Francisco Bernardino, no dia 31 de janeiro, onde houve disparo de arma de fogo, e de dois assaltos a caminhões de bebida. Ele foi ouvido e enviado à Vara da Infância e da Juventude, que decidiu pelo seu acautelamento. Na mesma manobra, outro adolescente, 17, suspeito de participar dos mesmos assaltos, foi apreendido. 

 

 

Plano de criminosos contra corporação 

O confronto entre policiais militares e moradores da Vila Bejani, no Bairro Jardim Natal, Zona Norte, na sexta-feira, teria ocorrido após um plano de criminosos para atacar a corporação, atesta o assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, capitão Jean Michel Amaral. "Acreditamos que foi uma armação porque, momentos antes, recebemos uma ligação informando que um traficante estaria andando armado lá. Quando fizemos a abordagem no bar onde ele estaria, surgiram as pessoas, as pedradas e os disparos vindos de cima de lajes. Parecia que já estavam estrategicamente posicionadas." Segundo o assessor, a polícia não era recebida de forma hostil naquela região."

Para o professor da PUC Minas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Robson Sávio, em territórios onde o tráfico está organizado e, de certa forma, realiza funções sociais, em razão de um vácuo deixado pelo Poder Público, as populações tendem a se voltar contra as instituições. Segundo ele, há exemplos de situações ocorridas em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, nas quais as comunidades reagem a uma ação violenta cometida pela própria Polícia Militar. "Não estou dizendo que é isso que ocorreu em Juiz de Fora, mas, segundo estudos nessa área, a revolta da periferia está ligada a ações onde há excesso de poder e atitudes arbitrárias", afirma o especialista, que não despreza também a possibilidade de as comunidades estarem agindo de forma planejada, atendendo ao anseio de criminosos.

O diretor do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, Paulo Fraga, também considera que grupos organizados possam incitar a população contra a polícia, mas afirma que o problema é complexo e precisa ser investigado. Ele não descarta que a ação dos moradores possa estar ligada a possíveis abusos que teriam ocorrido ao longo do tempo. "Nessa situação, inclusive, grupos podem aproveitar para motivar reações da população contra a polícia."   

Segundo Fraga, nestes momentos, as forças policiais devem ter cautela na maneira de agir, evitando acirrar ainda mais o confronto. "É fundamental que essas áreas recebam investimentos, programas voltados aos jovens. A ausência do Poder Público contribui para o aumento da criminalidade", argumenta Fraga.  

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