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14 de Março de 2014 - 06:00

Fotografias divulgadas em rede social mostram pacientes dormindo em corredores e no chão; Secretaria de Saúde nega falta de leitos

Por Renata Brum

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Paciente dorme no chão, sem cobertor, embaixo de outra cama
Paciente dorme no chão, sem cobertor, embaixo de outra cama
Usuários do HPS são atendidos em camas enfileiradas em corredor
Usuários do HPS são atendidos em camas enfileiradas em corredor
Atendimento é feito em corredor, onde outros pacientes estão deitados até mesmo em maca sem lençol
Atendimento é feito em corredor, onde outros pacientes estão deitados até mesmo em maca sem lençol
Usuário da unidade de saúde flagra atendimento nos corredores
Usuário da unidade de saúde flagra atendimento nos corredores

A Secretaria de Saúde instaurou sindicância para apurar denúncias de falta de medicamentos, médicos e leitos no Hospital de Pronto Socorro (HPS). A iniciativa foi tomada após a divulgação de imagens da situação da unidade na rede social. O problema é recorrente. No início do mês passado, o presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), Geraldo Ferreira, visitou a instituição acompanhado de representantes de sindicatos médicos de vários estados brasileiros e do representante local da categoria, Gilson Salomão, e confirmou a falta de estrutura. Entre os gargalos, o sindicalista destacou a falta de profissionais, além de considerar o número de leitos disponibilizados como insuficiente para atender à demanda dos usuários locais. A situação não foi diferente da encontrada pelo professor Ramon Gomes, 35 anos. Internado no HPS para aguardar cirurgia após um acidente de trânsito, entre os dias 17 e 20 de fevereiro, ele fez registros de outros pacientes dormindo pelos corredores e até no chão da ala de observação masculina.

Com fratura no cotovelo e esmagamento do rádio, ele ficou quatro dias na unidade sem atendimento de traumatologista. "Cheguei urrando de dor, com fraturas e machucados, e me encaminharam para a observação masculina. Me deixaram em uma maca no meio do corredor, me deram apenas analgésico na veia e sequer limparam minhas escoriações. No segundo dia, dormi no chão. Um outro paciente com pneumonia também dormiu no chão, e nem cobertor para se cobrir havia. É absurdo o descaso com a saúde. Tinha gente lá aguardando transferência há dez dias", relatou.

Subsecretária de urgência e emergência, Adriana Fagundes informou que foi instaurada sindicância para que o grupo gestor multidisciplinar que atua no hospital apure as denúncias, mas negou a falta de leitos. "A observação é um setor mais dinâmico, onde há também atendimento em cadeiras e poltronas, mas não há falta de macas e camas. Dispomos de acomodação para todos. De qualquer forma, vamos apurar se houve descaso de algum funcionário. E, se houve, vamos tomar as medidas enérgicas necessárias."

 

Repercussão

As imagens feitas pelo professor repercutiram na internet e incentivaram novas denúncias, que levaram também representantes do Legislativo a conferir a situação no hospital. "Por ser uma unidade de urgência e emergência, o fluxo é bem variável e, no dia em que cheguei, já não havia pacientes no chão, mas muitos estavam em macas e colchões sem lençol. Não só lá, mas em outras unidades, há problemas estruturais, como paredes mofadas ou doentes colocados próximo a banheiros. Outra questão é a insuficiência de médicos e a escassez de profissionais de limpeza", elencou o vereador Noraldino Júnior (PSC), que esteve no HPS após visualizar as denúncias na rede social.

No início do ano, os vereadores Wanderson Castelar (PT), José Fiorilo (PDT) e Antônio Aguar (PMDB), que integram a Comissão de Saúde da Câmara Municipal, também visitaram a unidade para enumerar as falhas. Entre as principais estavam a demora no tempo de espera por transferências, a ausência de especialistas, sobretudo de traumatologistas, e a lotação da ala psiquiátrica. Na época, a subsecretária de Saúde explicou que os casos mais graves estavam sendo priorizados e que a expectativa era de melhoria da qualidade e da agilidade no atendimento com a implantação da rede de urgência e emergência.

Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde, isso vem acontecendo desde 16 de fevereiro, quando mais três hospitais credenciados à rede de urgência e emergência iniciaram suas atividades em parceria com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Desde então, pacientes encaminhados e regulados pelo Samu que, após atendidos, permaneceriam sob os cuidados do HPS aguardando vagas em outros hospitais, agora são levados diretamente às unidades especializadas, de acordo com as especificidades de seu quadro clínico. Os casos de politraumatismo estão sendo direcionados ao Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, urgências e emergências em cardiologia, à Santa Casa de Misericórdia e pacientes para especialidades de cardiologia e neurologia são encaminhados ao Hospital Doutor João Felício. De acordo com a assessoria, houve uma redução de mais de 53% dos casos direcionados ao HPS considerando a regulação do Samu na primeira semana de funcionamento da rede. Ainda conforme a Secretaria de Saúde, todas as dificuldades serão sanadas de forma efetiva com a inauguração do Hospital Regional, prevista para o ano que vem. A unidade terá 240 leitos, o dobro do disponibilizado atualmente pelo HPS.

 

 

Regularização de medicamentos ainda sem data

A falta de medicamentos na unidades é outro problema persistente. A expectativa era de que até este mês a situação estivesse sob controle, mas um novo impasse na licitação deve emperrar o prazo. "Tivemos uma reunião com o secretário de Saúde, que nos pediu um prazo máximo de 45 dias para o fornecimento ser regularizado em toda a rede. A situação é tão grave que estava havendo desperdício do dinheiro público. Os pacientes que precisam tomar soro usam um instrumento conhecido como dupla via, que tem preço médio de R$ 5, mas, pela falta do equipamento, estavam usando outro que tem preço médio de R$ 200. Soro e água destilada também estavam sendo desperdiçados, pois, como só havia em litros, era preciso abrir uma unidade para tirar a quantidade necessária - 100 ou 200 mililitros - e descartavam o resto", denunciou o vereador Noraldino Júnior (PSC).

O secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, reconhece a falha na distribuição de medicamentos e insumos. "Realmente isso vem acontecendo. É o que chamamos de compra desbalanceada. É um problema de falta de instrumento gerencial. Não temos ainda um software, um programa que permita a gestão de 100% do nosso estoque. Além disso, quando determinado funcionário do hospital, por exemplo, sai de férias, aquele que assume, às vezes, não sabe que tem que informar a falta de tal insumo ou medicamento, e isso atrasa o pedido de compra, e prolonga a entrega. Muitas vezes, tivemos que abrir o soro de um litro, pois não havia dose de 100 mililitros. Com a nova empresa, teremos esse controle, pois todo o estoque, todas as doses, até mesmo as individualizadas, serão identificadas e controladas por código de barras."

José Laerte explicou que a previsão era de que, até meados deste mês, o problema estivesse solucionado com o fim da licitação e a contratação da nova empresa responsável pelo fornecimento e distribuição dos medicamentos, mas que agora não há previsão. "Temos que aguardar porque a atual empresa entrou na Justiça questionando a licitação, e, com isso, não conseguimos contratar a vencedora que tem o software. Só conseguiremos dar um posicionamento sobre o gerenciamento após o fim desse processo. De qualquer forma, o abastecimento deve ser praticamente normalizado já que mais de 80% dos medicamentos já estão empenhados e esperando só a distribuição."

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