Publicidade

08 de Março de 2014 - 06:00

Das 34 mortes violentas deste ano, 12 foram na Zona Norte, que também concentrou 33,8% dos homicídios em 2013. Situação altera cotidiano de bairros, onde ainda há assaltos frequentes

Por Marcos Araújo

Compartilhar
 
Vista do Jardim Natal e Jóquei Clube, onde moradores afirmam que a violência está fora de controle
Vista do Jardim Natal e Jóquei Clube, onde moradores afirmam que a violência está fora de controle

Com cerca de 150 mil habitantes divididos em mais de 70 bairros, a Zona Norte de Juiz de Fora tem porte de uma cidade. Sua população chega a ser maior do que muitos municípios brasileiros, assim como seus problemas na área de segurança pública. A região está entre as mais violentas de Juiz de Fora, acumulando alto índice de homicídios. Dos 139 registros de mortes violentas em 2013, conforme levantamento da Tribuna, 47 foram na Zona Norte, ou seja, 33,8% dos casos. Só este ano, dos 34 registrados até agora, 12 aconteceram na área, um índice de 35%, que já indica tendência de aumento de crimes na região. A área também tem uma concentração significativa de roubos a estabelecimentos comerciais, a residências, ao transporte coletivo e a transeuntes. Nesta última modalidade, de acordo com dados do jornal, levantados com base nas ocorrências divulgadas pela Polícia Militar em 2013, depois da região central, a Zona Norte aparece em segundo lugar, com 23% das notificações. Outra questão que agrava o cenário de violência é a hostilidade entre gangues rivais, que resulta em mortes e tentativas de assassinatos. O medo interfere na vida da comunidade de tal forma que levou os organizadores do "CarnaBenfica", evento carnavalesco tradicional em Benfica, a ser cancelado este ano. A decisão foi tomada pela Associação de Moradores e representantes de comunidades vizinhas, já que temiam o pior, pois, dos 12 homicídios registrados na Zona Norte, seis aconteceram nos bairros adjacentes a Benfica.

Na área vizinha aos bairros Jardim Natal, Milho Branco e Jóquei Clube, moradores afirmam que a violência está fora de controle. Num intervalo de quatro dias, dois crimes chocaram os moradores destas comunidades. No primeiro, um homem foi assassinado com quatro tiros dentro de um carro parado em uma área de estacionamento, na Avenida JK, na altura do Jardim Natal, em 31 de janeiro. O outro refere-se a uma tentativa de roubo ao Bahamas, na mesma via, no Francisco Bernardino. O mercado foi alvo de um assalto à mão armada logo depois de abrir as portas, no dia 28. Um trio de adolescentes ameaçou as pessoas com um revólver e ainda atirou contra uma caixa registradora. A duas situações elevaram a sensação de insegurança nas localidades. Um residente do Jardim Natal de 34 anos, que preferiu manter o nome em sigilo, comentou: "Quando era adolescente, era seguro morar aqui. Lembro-me que frequentava as festas do bairro, os bares, e podíamos voltar a pé para casa com toda a segurança. Hoje isso é impossível. Os casos de assaltos nas ruas cresceram assustadoramente, sem falar das casas invadidas para pequenos furtos." Ainda na região do Jardim Natal, no último dia 21, a PM foi surpreendida com paus, pedras e tiros, sendo necessário o uso de bomba de efeito moral, munições de borracha e bastões para conter a agressividade na Vila Bejani. O confronto deixou dois policiais feridos e duas viaturas danificadas. Já na região do Milho Branco, um morador comentou: "Tornou-se comum entrar no ônibus e se deparar com discussões. Às vezes, tem galera dentro do coletivo que briga com outra que ainda está no ponto", lamentou o mecânico, 33, que pediu o sigilo do nome. A evidência de que as comunidades estão acuadas ficou provada no dia 24 de janeiro, quando a PM apreendeu simulacros de armas fabricadas com tubos de PVC e outros materiais, no Bairro Amazônia, vizinho ao Milho Branco. Os simulacros eram usados para amedrontar a vizinhança.

 

 

Região teve inchaço populacional

Com oito registros de mortes violentas durante o ano de 2013, a região do Bairro Monte Castelo aparece como um dos territórios dominados pelo medo na Zona Norte. A Tribuna passou uma tarde no local e percebeu que a lei do silêncio vigora entre os moradores. Sob pedido de anonimato, poucos concordaram em falar. Segundo eles, as brigas de grupos de jovens e a disputa por pontos de tráfico de drogas mudaram o perfil da comunidade. "Antes ficávamos até tarde da noite sentados na calçada, conversando com vizinhos. Hoje a cena é quase impossível. Depois das 19h, todo mundo já está dentro de casa", afirma um comerciante, 43. De acordo com as pessoas ouvidas pela reportagem, a história de violência no bairro começou a ser desenhada após o "boom" populacional da área nos últimos anos, com a implantação de novos bairros, como Jardim Cachoeira e Parque das Águas. Conforme levantamento do jornal, em 2013, cinco assassinatos aconteceram no Monte Castelo, enquanto dois foram no Parque das Torres e um no Jardim Cachoeira.

Uma moradora, 51, contou que existe rivalidade entre as três comunidades vizinhas, servindo de combustível para atos violentos. Ela conta que quem mora no Monte Castelo tem medo de utilizar a linha de ônibus que serve aos dois bairros adjacentes. "Os moradores estão sendo ameaçados dentro dos coletivos. Há casos de veículos que foram apedrejados." Em 19 de fevereiro, um ônibus da linha 636 (Jardim Cachoeira) foi alvo de pedradas, que teriam sido jogadas por um bando de adolescentes. O motorista do coletivo seguia pela Rua Nazira Mattar de Freitas, quando foi atacado. O veículo teve quebrados vidros, mas ninguém se feriu. "O bairro cresceu e, infelizmente, virou uma subestação do crime dentro da Zona Norte", avalia outra moradora, 38. O proprietário de uma mercearia, 45, dispara: "O bairro virou um covil de traficantes de drogas, e nossos filhos estão à mercê dessa situação."

Com muito receio de ser identificada, uma moradora relatou que testemunhou uma cena que a deixou aterrorizada. "Estávamos na calçada, quando, de repente, um veículo com dois ocupantes parou em frente. Eles começaram a proferir ameaças de morte a um rapaz que estava de bicicleta em um grupo próximo. O jovem, com medo de morrer, abandonou a bicicleta no chão e correu. Os homens desceram, apanharam a bicicleta e a colocaram no carro, fugindo em seguida." Uma comerciante, 41, afirma: "Sabemos que tem gente que sai do Complexo do Alemão, no Rio, e veio para cá. Eles estão influenciando a bandidagem no bairro. O negócio está tão feio que taxistas já estão se recusando a fazer viagem para cá."

 

 

'Cancelamento de festa é um pedido de socorro'

Em Benfica, o cancelamento da festa de carnaval deste ano, segundo a presidente da Associação de Moradores, Aline Junqueira, foi um pedido de socorro: "Até mesmo porque havia uma ideia, no senso comum, de que "está bom enquanto eles estão se matando. Por outro lado, moradores das áreas de conflito queixavam-se dos disparos constantes nas áreas em que moravam." Como há grande oferta de lojas comerciais e serviços em Benfica, o bairro tornou-se um polo atrativo para toda a Zona Norte, acumulando ônus e bônus em razão desse crescimento.

"Esse aumento era "ordenado", mas, a partir dos anos 1990, tem início um crescimento desordenado em toda a região, com ocupações populares. Novos moradores chegam em busca de melhores condições para viver e não encontram nada, e ainda moram nas áreas com acesso mais difícil. Os moradores mais antigos que tinham um serviço público precário ou custaram a conseguir alguma reivindicação (rede de esgoto, asfalto, transporte, escola, posto de saúde, etc.) precisam dividir com os novos vizinhos, e isso já gera uma certa rivalidade entre os territórios. Ou seja, as comunidades disputam porque não têm seus direitos assegurados e, ao invés de responsabilizarem o Poder Público e cobrá-lo por isso, acabam culpando seus novos vizinhos pelos problemas", avalia Aline, que é jornalista e mestre em comunicação e cultura pela UFRJ. Ela completa: "A rivalidade é histórica. Até mesmo porque o crescimento populacional e a falta de investimento social motivam essa divisão do território. Cada localidade, ao invés de lutar conjuntamente, disputa recursos e serviços públicos para si. Essa disputa aparece nos adolescentes, principalmente, porque eles se sentem protagonistas quando se agrupam e se mostram fortes naquela área (seja pelo poder aquisitivo, pela conquista das garotas ou pelo controle do espaço). A novidade recente é o acesso a armas de fogo. Isso não existia antes."

Na Vila Esperança II, vizinha a Benfica, PMs também encontraram clima de hostilidade, na noite de 24 de fevereiro. Dois acessos ao bairro foram fechados com barricadas feitas com pneus e madeira queimados, para protestar depois que um morador de 19 anos foi ferido pela PM com tiro de borracha após desobedecer e tentar atacar os policiais a socos e chutes.

 

 

Necessidade de choque de cidadania

Os crimes na Zona Norte são apurados pela 3ª Delegacia de Polícia Civil, cujo titular é o delegado Rodolfo Roli. Ele afirma que a área merece mais investimentos na infraestrutura e em programas sociais, que vão incidir de forma positiva para frear a criminalidade. Ele ainda aponta que a região tem uma população maior do que os municípios de Leopoldina, Ubá e Muriaé e conta com um efetivo reduzido de policiais para atuar nas investigações. "Atualmente a delegacia é formada por um delegado, dois escrivães e três policiais, sendo que um está de férias e outro de licença. Assim, é quase impossível dar conta da demanda, sendo necessário um quadro maior de profissionais." Como forma de sanar o déficit de policiais nas unidades que atendem o município, a Polícia Civil de Juiz de Fora criou a Especializada de Homicídios e Antidrogas e a Especializada de Repressão a Roubos.

O diretor do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, Paulo Fraga, observa que, se a Zona Norte fosse uma cidade, ela estaria entre as 50 maiores de Minas Gerais e que, por esse motivo, necessita de um choque de cidadania. "É preciso levar mais segurança pública para a área, mas não só a repressiva, mas garantir mesmo a segurança da população. É preciso uma maior presença de equipamentos públicos e investimento nas esferas municipal, estadual e federal, pois a ausência do Poder Público contribui para o aumento da criminalidade", argumenta o especialista, lembrando que a Zona Norte serve de estopim para tudo que reflete em toda Juiz de Fora.

O comandante da 269ª Companhia da Polícia Militar que também atua na Zona Norte, capitão Flávio Campos, afirma que muito do que acontece hoje na região tem ligação com o tráfico de drogas e, especificamente, com as rivalidades entre bairros vizinhos. "Isso aumenta as ocorrências, em função da disputa de território, de disputa de poder entre eles, criando um ambiente de violência", avalia o militar . Ele concorda que o progresso é importante, mas traz problemas. "Se o crescimento populacional não for bem estruturado, planejado, vai refletir na segurança pública, pois tudo aquilo que foge de planejamento, que não tem investimento na área social, reflete na segurança pública." Ele cita, por exemplo, a região do Monte Castelo, onde houve a implantação do Bairro Parque das Águas. "Lá se encontram 565 casas, com pessoas oriundas de várias partes da cidade. Pessoas que, muitas vezes, não têm sentimento de pertencimento e vindas de áreas com histórico de rivalidade. Até que isso se acomode, que se configure como um bairro dentro da normalidade, demanda um certo tempo", observa o capitão, acrescentando: "Hoje a PM já consegue realizar trabalhos preventivos na região do Parque das Águas. No início, isso não era possível, pois eram ações só repressivas, porque problemas afloravam constantemente. Além disso, no local, há deficiência de posto médico, escola e área de lazer. Isso contribui para que as pessoas reivindiquem melhorias e se sintam excluídas, o que reflete na segurança pública."

Na busca para frear os índices de criminalidade, conforme o comandante, a PM tem trabalhado com a comunidade, para desenvolver projetos e ações na área de segurança. Sobre a questão da demora para acionamento de viaturas apontada como um problema pelos moradores ouvidos pela Tribuna, o militar explica que todo o deslocamento de policiais é feito por meio do 190. "Se há dificuldade, é um fato que precisa ser investigado. Além disso, toda a cidade é atendida pelo 190, e há ainda a má utilização desse canal, com trotes e pessoas que ligam, ocupando a linha, para questões que não são de polícia. Assim, quem precisa, às vezes, não consegue falar. É necessário consciência, a fim de que se evitem os trotes; e sensibilidade para ocupar a linha só quando o assunto for pertinente à Polícia Militar."

Galeria de Imagens

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o Governo federal deve refinanciar as dívidas dos clubes de futebol?