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26 de Junho de 2014 - 06:00

Tribuna teve acesso com exclusividade ao inquérito da Operação 'Athos' que embasou pedidos de prisão de empresários, advogada e traficantes

Por DANIELA ARBEX E MICHELE MEIRELES

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A organização criminosa desmantelada na Operação "Athos", da Polícia Federal, abastecia o tráfico na maior favela do Brasil: a Rocinha. Outros morros cariocas também recebiam fornecimento de drogas enviadas de Juiz de Fora. Essa é uma das principais revelações do inquérito obtido com exclusividade pela Tribuna, que serviu de base para a prisão, este mês, de 13 pessoas da cidade, entre elas, o juiz Amaury de Lima e Souza, suspeito de assinar sentenças que beneficiavam traficantes. O documento reforça o papel fundamental do município no tráfico internacional de drogas, cuja movimentação aérea indica existência de rotas na Bolívia e Paraguai. Também há citação de abastecimento do mercado europeu. Por terra, a distribuição ocorria pelo Triângulo Mineiro e pelo interior de São Paulo até a mercadoria chegar na cidade e ser redistribuída no Rio de Janeiro. A investigação também trouxe à tona o estreito relacionamento da organização com integrantes da facção criminosa conhecida como Primeiro Comando da Capital (PCC). Além de drogas, principalmente maconha, cocaína e pasta base da substância, os suspeitos são investigados pela compra e venda de armas de grosso calibre, como o fuzil AK-47.

No inquérito da Polícia Federal, há várias indicações da negociata entre traficante de Juiz de Fora e as lideranças de facções criminosas das favelas do Rio. Em uma das conversas interceptadas pela polícia, um dos suspeitos de integrar o PCC discute com o juiz-forano o atraso no envio de droga da Bolívia, em função das chuvas e enchentes naquele país e a necessidade de fazer chegar o material ao Rio. Em outra conversa, no dia 18 de fevereiro deste ano, um dos integrantes da organização diz para o traficante de Juiz de Fora manter a liderança da quadrilha. "Para o povo daqui, quem controla a Rocinha é você", afirma. Já em março deste ano, o mesmo traficante da cidade orienta seu comparsa a chegar na favela carioca Morro do 18 e avisa que ele não se preocupe com os homens fortemente armados que encontrará pelo caminho. "Pede para bater o rádio a qualquer um que você vir armado. Pode ficar tranquilo que lá é tudo nosso." O homem foi ao Morro do 18 buscar dinheiro para pagamento de novas cargas de cocaína que seriam entregues ao núcleo de Juiz de Fora que, por sua vez, entregaria parte da mercadoria a outros traficantes do Rio. No mesmo mês, o suspeito preso em Juiz de Fora, apontado como um dos principais fornecedores do homem que abastece o Alemão, Favela da Maré, Serrinha e Acari, reclama do prejuízo estimado em R$ 2 milhões após operação policial no Complexo do Alemão.

 

 

Investigação confirma poder financeiro

A investigação da Polícia Federal aponta, ainda, o poder financeiro da organização criminosa da cidade que, mesmo tendo diversos carregamentos interceptados (ver quadro), continuava a fechar negócios milionários até a véspera das prisões, ocorrida no dia 10 de junho. Em uma das intervenções, R$ 1 milhão em espécie foi apreendido no dia 13 de dezembro de 2013, após a Federal descobrir que o dinheiro seria entregue como pagamento de um carregamento de drogas que partiu da Bolívia, com destino ao Triângulo Mineiro e a Juiz de Fora.

Em mensagem interceptada pelos agentes, o traficante da cidade queixa-se do prejuízo causado pela localização do dinheiro (ver quadro). No entanto, dois dias depois, ele já havia levantado mais R$ 840 mil para pagamento de droga. Oito dias depois, em uma nova conversa, o traficante de Juiz de Fora combina a chegada de 400kg de droga para a cidade, mercadoria negociada por R$ 757 mil. Na mesma mensagem, ele é convidado a conhecer o local onde o entorpecente é enviado da Bolívia. O domínio da organização é novamente confirmado quando um traficante do Ceará, transferido para Juiz de Fora em sentença assinada pelo juiz afastado Amaury de Lima e Souza, da Vara de Execuções de Juiz de Fora, empresta o seu avião particular, chamado de nave pelos traficantes, a um comparsa mineiro para o transporte de entorpecentes (ver quadro).

Também chama a atenção a quantidade de empresas de fachada abertas e a movimentação financeira em contas de "laranjas", no intuito de despistar a prática ilícita do financiamento ao tráfico de drogas. Outro objetivo era dar "ar de legalidade" às transações criminosas. Uma casa na cidade, no valor de R$ 1,2 milhão, foi negociada e paga com droga pelo traficante transferido do Ceará para Juiz de Fora, segundo o inquérito. Outro dado importante é o acesso da quadrilha a gerentes de banco. Em abril deste ano, após membros da quadrilha perderem R$ 70 mil dos R$ 120 mil guardados no interior de um pneu de carro, os suspeitos ligam para uma agência bancária da cidade e solicitam ao gerente a troca das notas queimadas em função de o pneu ter estourado durante uma viagem de São Paulo a Juiz de Fora. O pedido é atendido pelo funcionário que, além de não questionar a história, não se negou a receber vantagem financeira pelo favor prestado ao bando.

 

Poder de fogo

No mesmo relatório, que serviu para a Justiça embasar os pedidos de prisão preventiva dos suspeitos, é detectada a negociação de armas de grande potencial ofensivo. Em uma das mensagens interceptadas pela Polícia Federal, o traficante de Juiz de Fora oferece fuzis aos comparsas do Rio. Um deles, ofertado a R$ 45 mil, é negociado para o "patrão" da favela de Acari. Na mesma conversa, são oferecidos dez mil quilos de maconha a R$ 500 o quilo, totalizando R$ 5 milhões. Aliás, o intermediário do morro carioca hospeda o traficante mineiro em Ipanema, bairro nobre da Zona Sul do Rio. Em fevereiro deste ano, outros três fuzis calibre 5.56 com mira a laser são negociados pela quadrilha a R$ 40 mil cada.

Das 13 pessoas de Juiz de Fora que estão detidas, 11 continuam na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Já o juiz da Vara de Execuções está sendo mantido na sala do Estado Maior do 39º Batalhão da Polícia Militar, também em Contagem. Ele poderá ser transferido a qualquer momento para o 2º Batalhão de Juiz de Fora, onde também está preso um sargento da PM. A advogada presa na operação está detida em Curitiba (PR).

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