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04 de Maio de 2014 - 06:00

Apesar da polêmica em torno do programa, população elogia atendimento e diz que diferença da língua não tem sido barreira

Por DANIELA ARBEX

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Maria Emília tem 11 anos de dedicação à medicina e afirma que não está no país para competir, mas para ajudar a população
Maria Emília tem 11 anos de dedicação à medicina e afirma que não está no país para competir, mas para ajudar a população
Yuleimy Cabrera diz que examina todos os pacientes, "porque um diagnóstico correto só pode ser feito com exame clínico completo"
Yuleimy Cabrera diz que examina todos os pacientes, "porque um diagnóstico correto só pode ser feito com exame clínico completo"

Ao subir os degraus do ônibus que a levaria da província de Holguim, em Cuba, ao Centro Nacional de Colaboração, na capital Havana, Maria Emília Giralt, 43 anos, sentiu uma pontada no peito. Do lado de fora do veículo, na calçada, estava o filho Abel, 9 anos, ao lado do pai e dos avós maternos. Inscrita no programa "Mais médicos", do Brasil, a especialista em medicina geral integral sabia que a viagem seria longa e que ficaria distante de seu país por quase um ano, tempo mínimo para rever sua família. Quando o motorista deu a partida, a cubana teve vontade de desistir. Através da janela, ela viu que Abel unia as mãos em forma de coração. A imagem do gesto do filho, congelada em sua memória, tem servido para anestesiar a dor da saudade no exílio voluntário em Juiz de Fora, onde ela está trabalhando desde fevereiro. Além de Maria Emília, outros 23 médicos, a maioria estrangeira, integra o programa na cidade que conta com intercambistas, cooperados e brasileiros. Alvo de críticas por parte de alguns setores no país, principalmente dos profissionais da saúde, o "Mais médicos" em Juiz de Fora também experimenta resistência por parte da classe médica, mas encontrou aprovação entre os usuários do SUS, os principais afetados pela falta de atendimento.

Na Zona Norte, na Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) do Bairro Industrial, onde Maria Emília e a colega cubana Yuleime Cabrera Hernández trabalham no Estratégia Saúde da Família, a presença das duas modificou a relação da comunidade com o posto de saúde. Antes, para conseguir consulta em uma das 36 vagas diárias, os moradores precisavam chegar na porta da unidade na noite anterior. Agora, às 7h, é possível ter atendimento no mesmo dia em uma das 72 consultas disponibilizadas pela manhã e à tarde para a população. Mais do que conseguir acesso inicial ao complexo sistema público de saúde, os beneficiados sentiram-se acolhidos. Ao sair da consulta com Yuleime, que durou quase 20 minutos, três vezes mais do que a média, a dona de casa Mariléa Luiza da Silva Pereira, 43 anos, mostrou-se surpresa. "Esta semana, fui na UPA de Benfica e quem me atendeu nem me olhou. Já aqui, na Uaps, a médica me examinou de verdade, tocou em mim, fez perguntas. Foi a melhor coisa que me aconteceu", disse. E quanto à diferença da língua? "Não senti dificuldade para entender. É até bonito", disse, rindo. O menino Rian, 5 anos, também foi atendido pela médica. "Ela fala inglês", comentou, ao deixar a unidade.

 

Atenção

O aposentado Wilson Ary Molina Mattos, 64, disse que a grande diferença no atendimento oferecido pelos estrangeiros não está no idioma, mas na atenção. "Me consultei e percebi que elas são muito atenciosas. Isso faz a diferença, porque examinam mais. Têm médicos que nem deixam o paciente sentar. Isso é muito humilhante. Na última vez que aconteceu comigo, eu nem peguei a receita, pois o que ele poderia saber a meu respeito? A vinda dos estrangeiros foi muito positiva", disse. Lilian Visoná, 29, compartilha a boa impressão. "Não sinto desconfiança, pelo contrário. A gente precisa de médicos, e ter quem nos atenda é muito bom. Além disso, eles são formados e têm nos tratado bem", opinou. Também causou estranhamento nos usuários o fato de os pacientes serem novamente examinados até quando a demanda é para simples troca de receita ou consulta de controle. "Costumo examinar todos os meus pacientes mesmo nesses casos, porque um diagnóstico correto só pode ser feito com exame clínico completo. E, para pedir algum exame, eu preciso saber exatamente o que estou solicitando", explica Yuleimy.

Gerente da Uaps onde as médicas cubanas estão lotadas, Maria de Lourdes Oliveira Carvalho confirma a impressão da comunidade. "Os moradores têm elogiado a presença delas aqui. Melhorou muito o problema da demanda reprimida, e as pessoas não precisam mais chegar aqui de madrugada", diz, embora a capacidade plena de atendimento por profissional, 24 consultas por dia, ainda não esteja sendo alcançada, mas apenas a metade disso. "Como elas ainda estão em fase de adaptação, estamos dando um tempo para que se habituem à nossa língua, aos nossos medicamentos e possam utilizar o programa Siga Saúde, do SUS, para o qual as médicas estrangeiras ainda não têm senha de acesso. A gente acredita que, na próxima semana, elas já possam utilizar o computador e ampliar o número de pessoas consultadas", afirma a gerente. Para Maria de Lourdes, o maior problema da unidade, porém, está resolvido. "Tínhamos carência de clínicos. Agora, todos os dias, os moradores encontram vaga. Estamos no céu", garante.

 

 

CRM questiona qualidade da assistência

Apesar de a receptividade da população ao programa ser a mesma em outros bairros da cidade, o "Mais médicos" continua sendo alvo de críticas e desconfianças. Para o delegado regional do Conselho Regional de Medicina (CRM), José Nalon, a lei brasileira sustenta a manutenção da iniciativa, mas alimenta a existência de postos de trabalho para estrangeiros em condições que ele considera subumanas. Nalon diz, ainda, que a recusa de muitos médicos brasileiros em ocupar algumas dessas vagas está justamente na falta de condições de trabalho. "Isso veio sob forma de lei, mas nela não está a solução para o problema da saúde no país. O que será do povo quando acabar os três anos do programa? O problema está justamente na forma da gestão de saúde, nas más condições de trabalho no interior e na periferia das grandes cidades. A insegurança faz com que ninguém se interesse por essas vagas, além de os salários serem insuficientes. No entanto, para um médico cubano que vive em condições desumanas, que recebe salário pífio, a proposta do Governo brasileiro é extremamente atraente", comenta.

Nalon questiona o fato de os médicos estrangeiros não terem registro nos conselhos regionais, apenas no Ministério da Saúde, o que não os torna sujeitos à fiscalização profissional, e também de estarem exercendo a medicina sem passarem pelo Exame nacional de revalidação de diplomas médicos expedidos por instituição de educação superior estrangeira (Revalida). "Não é através do envio de médicos com estetoscópio no pescoço e uma caneta na mão que vamos conseguir dar a assistência digna que a população merece. A presença deles aqui cria um terceiro tipo de medicina: além da pública e da privada, temos essa na qual o atendimento é feito por médicos cuja atuação e qualidade nós questionamos. Estamos precisando comprar médicos a esse preço? Além do mais, eles trabalham aqui com uma série de restrições que não são dignas de um país democrático", opina Nalon.

O presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão, sustenta sua surpresa com o fato de Juiz de Fora, uma cidade com um mercado de trabalho altamente competitivo e formação de 300 médicos por ano, ter aderido ao "Mais médicos" para importar assistência. "Nunca pensamos que uma cidade como Juiz de Fora, cujo número de médicos é de um para cada 220 pessoas, quase cinco vezes mais do que a OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza, fosse aderir ao programa. Nos posicionamos contra o fato de se colocar profissionais para trabalhar sem a revalidação do diploma, sem domínio fluente da língua portuguesa e que não sofrem fiscalização dos conselhos regionais. Estamos acompanhando com muita atenção a atuação desses profissionais. Queremos saber junto ao Conselho de Saúde qual é o grau de aceitação deles e a qualidade do atendimento prestado ao usuário, a fim de que tenhamos um posicionamento mais embasado. Estamos em um momento de estupefação e surpresa."

José Laerte, secretário de Saúde de Juiz de Fora, disse que o município se inscreveu no "Mais médicos" em janeiro do ano passado, porque a situação da cidade era de incerteza em relação à mão de obra médica. "O fato é que, durante todo o ano passado, fizemos 11 processos seletivos, mas não conseguimos em momento algum completar todas as equipes da atenção primária, porque os médicos não se inscreviam. Passamos um grande sufoco durante 2013 com as equipes incompletas. No último processo, dos 24 inscritos e aprovados, somente um aceitou assinar contrato de um ano com a Prefeitura. Não posso dizer que os médicos não querem ir trabalhar nas unidades de saúde, mas o fato é que não conseguimos preencher as vagas, apesar de as condições de trabalho na atenção primária em Juiz de Fora serem melhores do que a grande parte dos municípios brasileiros", afirma.

A situação é complexa, pois um dos argumentos para a recusa do emprego temporário é exatamente a inexistência de condições adequadas para o exercício da função. Apesar disso, mesmo quando há a proposta de efetivação, ela não parece ser atraente. No concurso público de médico de saúde da família, realizado em 2012, que oferecia remuneração de até R$ 8.300, dos 53 aprovados, somente 38 aceitaram ser efetivados. "No caso do 'Mais médicos', apesar de haver diminuição do repasse de recursos do Ministério da Saúde para as equipes que participam do programa, já que é o Governo federal quem paga o salário deles, a vantagem é ter médico disponível para a população. Quando fizemos essa opção, pensamos no cidadão", afirmou o secretário. Apesar de o Ministério da Saúde cortar em 50% o repasse para as equipes do Estratégia Saúde da Família que contam com médicos estrangeiros, a conta não estoura no bolso do município. Como o custeio de aluguel, transporte e alimentação dos médicos estrangeiros não ultrapassa R$ 3 mil mensais por médico para os cofres municipais, a secretaria deixa de gastar R$ 1 mil por cada um dos 24 inscritos no programa ao mês. No final de três anos, a economia pode chegar a R$ 8,6 milhões. Significa que, mesmo com os cortes de repasses, o programa ainda é financeiramente vantajoso para as prefeituras.

José Laerte acredita que, em três anos, período de duração do "Mais médicos" no Brasil, haverá tempo para a reestruturação da atenção primária na cidade e para nova realização de concurso público. A ideia é, por meio de um plano diretor, organizar o acesso do usuário às unidades.

 

 

Foco na atenção e prevenção

Mesmo com o repúdio dos representantes de órgãos de classe ao programa do Governo federal - cerca de dez mil médicos estrangeiros aderiram ao "Mais médicos" -, a cubana Maria Emília Giralt, que tem 11 anos de formação no currículo, não teme a rejeição, nem o preconceito. "Acho isso normal, mas até agora não tem sido um problema para nós. Me senti bem acolhida no Brasil. Não estou no país para competir, mas para ajudar a população. Atenção e prevenção são o que mais se tem necessidade aqui. Vim ajudar na promoção da saúde", afirma. Apesar de encarar o desafio de viver no Brasil como missão, a médica cubana sabe que a experiência também pode mudar a vida de sua família. Os valores recebidos por ela e a vizinha de porta Yuleimy Cabrera, mãe de Clara, de apenas 3 anos, não são revelados claramente. Em média, ficam com R$ 3 mil do total pago pelo Governo brasileiro, mais de cinco vezes o que tinham em Cuba, país responsável por mais de 70% dos estrangeiros em solo verde-amarelo. O restante do salário é abocanhado pelo Governo cubano e, segundo as médicas, usado na melhoria do sistema de saúde de lá e no pagamento aos colegas daquele país.

Com o dinheiro recebido em solo estrangeiro - Maria Emília e Yuleimy são veteranas nesse tipo de missão -, as duas conseguiram melhorar a qualidade de vida da família que ficou em seu país. Elas reformaram e ampliaram suas casas, puderam comprar eletrodomésticos novos, socorrer financeiramente seus parentes e até comprar supérfluos, uma raridade para quem mora na ilha. Para os filhos, elas já mandaram de Juiz de Fora roupas, eletrônicos e até xampu do personagem do cinema norte-americano Shrek. Para elas, compraram TV e, apesar de encantadas com as roupas e os sapatos do Brasil, procuram resistir à tentação consumista. "Vamos às lojas do Calçadão (da Halfeld) e queremos comprar tudo. Calças, sapatos e cintas para ficarmos magrinhas. Com essa missão no Brasil, meu sonho é comprar um carro", diverte-se Maria Emília, cujo marido é motorista em Cuba. E, apesar do sorriso no rosto, estar a milhas de distância de casa tem um alto custo emocional. Longe dos filhos, dos pais e dos maridos, enfrentar a saudade é um obstáculo que parece grande demais. "Quando eu choro, ela faz com que eu ria. Quando ela chora, eu puxo o cabelo dela", ameniza Yuleimy, falando sobre a colega de profissão. Ao deixar Cuba, ela não teve coragem de dizer adeus para a filha de 3 anos. "Disse para minha filha que viria ao Brasil ajudar outras crianças como ela e todas as pessoas que precisavam. Isso faz com que seu filho tenha vontade de seguir seus passos e que, um dia, eles façam a mesma coisa. Ela me disse que, quando eu voltar, vou encontrar uma menina maior. Não me despedi, só dei um beijinho, e a deixei dormindo, porque tive muito medo de não conseguir sair", conta Yuleimy que, pela primeira vez, passará longe da filha o Dia das Mães.

Maria Emília revela sentir falta dos beijos diários de Abel e de ler à noite para o filho. Preocupada, comunica-se constantemente com a professora do menino, a fim de acompanhar suas notas. No último telefonema da criança, ouviu dela uma frase inesperada: "Mãe, amo você mais que do que um rato ama um queijo parmesão", repetiu ela, dando risada, embora seus olhos estivessem molhados.

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