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10 de Abril de 2014 - 07:00

Há denúncias de jovens que não podem frequentar colégios próximos à sua residência por medo dos enfrentamentos, que deixam comunidades escolares acuadas

Por Michele Meireles

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Muro próximo a escola no Santa Efigênia foi pichado
Muro próximo a escola no Santa Efigênia foi pichado

Tiros, pedradas, facadas, uso de explosivos, socos e chutes: estas são situações a que estão expostos estudantes da rede de ensino de Juiz de Fora. Após denunciar o sucateamento de instituições da rede estadual da cidade, a Tribuna mostra agora como os episódios violentos, geralmente envolvendo gangues rivais, impactam diretamente a vida escolar, mesmo quando acontecem fora dos muros escolares, nos arredores dos estabelecimentos. O resultado são pais, alunos e educadores acuados. Já há denúncias de casos de estudantes que são tolhidos de frequentar determinado colégio por morar em bairro "rival" àquele onde a instituição está sediada. Algumas escolas que enfrentam a violência também estão entre aquelas com problemas estruturais e educacionais, conforme a reportagem divulgada nesta quarta-feira (9) no jornal.

Na Escola Estadual Marechal Mascarenhas de Moraes, o Polivalente do Teixeiras, Zona Sul, a ameaça de embates ocorre, em média, uma vez por semana, segundo a diretora da instituição, Lilian Toledo. Em um dos casos mais graves, registrado em setembro passado, um indício de rixa na porta do colégio levou pânico a moradores, estudantes e pais. De acordo com informações da PM, a equipe de policiais foi acionada a fim de verificar a existência de um grupo munido de facas e armas de fogo que prometia realizar uma desforra contra três estudantes do colégio. Ao avistar a viatura, o bando furou o bloqueio, houve perseguição a um veículo ocupado por suspeitos de integrarem uma gangue, que acabou invadindo a varanda de uma residência.

Por conta da rivalidade entre bairros, segundo a diretora, há diversos pedidos de transferência ou de matrícula. "A sensação que tenho é que os moradores se tornaram reféns desta violência entre bairros. Famílias vêm nos pedir para alunos estudarem aqui porque não podem sequem andar na rua em que fica o colégio do seu bairro de origem." Ela considera a situação preocupante. "Sempre estamos tendo que acionar a PM. O ideal seria ter um policiamento constante nos horários de entrada e saída dos turnos."

Na mesma região, quem também sofre com ameaças constantes são estudantes e educadores da Escola Municipal Antonino Lessa, no Santa Efigênia. A Tribuna esteve no local, no horário de saída do turno da manhã, e encontrou um grupo de jovens na Rua Clóvis Jaguaribe dos Santos, que se autodenomina participante da gangue do bairro. Um dos rapazes, que não quis dizer seu nome e nem a idade, disse que os garotos dos bairros Vale Verde, Jardim Gaúcho, Cidade Nova e Ipiranga estão proibidos de estudar na instituição. "Os alemão (inimigos) tão avisados, se estudarem aqui é bala (tiro) na certa (sic). Antes, estes moleques estudavam aí, era problema na certa", afirmou. Outro adolescente, 16 anos, contou que até quem não tem envolvimento com gangues está sujeito a sofrer consequências. "O problema é morar lá. Como vamos saber se não está culiado (unido) com os alemão? (sic)". Em muros próximos ao colégio, há pichações com nomes dos grupos com o objetivo de demarcar o território.

Segundo funcionários da Antonino Lessa, já foram registrados diversos casos de brigas entre gangues na imediação e tentativa de invasão do estabelecimento neste ano. "A rivalidade entre bairros é uma realidade que se reflete na escola. Vários alunos, que nem tinham relação com os grupos, já tiveram que sair daqui depois de sofrerem ameaças. Pais pedem para que os filhos continuem, mas sabemos que, se ficarem, será pior para eles", disse uma educadora.

Uma professora relatou que a situação é mais evidente no turno da noite, onde já houve invasões de supostos integrantes de galeras. "Os conflitos maiores são entre moradores do Vale Verde e Ipiranga e Santa Efigênia e Jardim Gaúcho. Não tem muro alto que segure quando querem entrar, já teve menino que entrou chutando porta e ameaçando. Ficamos reféns de tudo", desabafa a docente, acrescentando que a maioria trabalha insegura. Servidores e pais de alunos estão elaborando um abaixo-assinado para pedir policiamento constante na área. "Não adianta a PM vir só quando tem problema. Estamos pedindo reforço nos horários de entrada, saída e no recreio."

Alex Fabiany Paes é vice-diretor da Escola Municipal Álvaro Lins, no Bairro São Judas Tadeu, Zona Norte. Ele afirmou que as confusões na porta da escola são frequentes. Em novembro passado, uma estudante da escola, 14 anos, foi agredida com chutes e pontapés na saída da aula por outras quatro adolescentes de 12, 13, 14 e 16 anos. O episódio foi registrado em um vídeo nas redes sociais. "Pedi a transferência das agressoras. Além disso, sabemos que há meninos de Santa Cruz, que evitam estudar em escolas daqui (de São Judas), por medo. É preocupante." Ele diz que já houve casos em que o horário de saída precisou ser estendido. "Sabíamos que tinham grupos esperando do lado de fora para brigar, então, pedimos que os alunos ficassem mais tempo. Já tivemos até que levar estudantes que eram ameaçados em casa."

Uma empregada doméstica, que tem receio de revelar seu nome, moradora do Jardim Natal, precisa se desdobrar para que o filho de 13 anos estude. O motivo: ele não pode frequentar aulas na escola próxima à sua residência por conta dos desentendimentos entre jovens do Jardim Natal e Jóquei Clube. "Tive que matriculá-lo na Escola Estadual Delfim Moreira, no Centro. Com isso, gasto dinheiro com passagem, que faz falta. Se ele ficar na escola daqui, tenho medo do que pode acontecer", desabafou.

De acordo com o assessor organizacional da 4ª Região da Polícia Militar, major Edmar Pires, o policiamento no entorno escolar é realizado de acordo com demanda, e que a corporação tem o serviço de Ronda Escolar, feito por policiais treinados para o trabalho. "Este policiamento é direcionando, principalmente, para locais em que há maior incidência destas ocorrências de brigas. É feito um serviço preventivo, e estes policiais já têm uma aproximação com os alunos, o que facilita o trabalho."

 

 

Frequência nas aulas é afetada

Por conta dos embates, o horário de entrada e saída de diversas escolas tem sido sinônimo de apreensão e medo. A Zona Norte concentra grande parte dos registros policiais. Conforme levantamento da 3ª Delegacia de Polícia Civil, apenas este ano, foram oito ocorrências de confrontos do lado de fora das instituições de ensino daquela região. De acordo com o titular da delegacia, Rodolfo Roli, os casos estão relacionados a briga de gangue e disputa pelo tráfico de drogas. "O que dificulta a investigação é que, geralmente, os autores não vêm qualificados na ocorrência. Quem presenciou não fala por medo de represália, e quem foi vítima geralmente tem envolvimento com crimes e não vem à delegacia fazer representação. O que faço é comunicar os fatos à Vara da Infância e da Juventude."

Em Benfica, a Rua Ana Salles, que fica no triângulo entre a Escola Municipal Áurea Nardelli, Escola Estadual Professor Lopes e a Escola Estadual Presidente Costa e Silva, o Polivalente, vem sendo chamada de "Faixa da Gaza", em menção ao território na Palestina conhecido por estar em constante conflito. Segundo pais de alunos, os enfrentamentos acontecem, principalmente, por volta de meio-dia, quando os estudantes deixam as escolas. Na última segunda-feira, por volta de 11h30, houve diversos disparos de arma de fogo na Rua Ana Salles. Segundo o registro policial, o alvo era um jovem que entrava em um táxi, porém, os tiros foram feitos a esmo, colocando em risco todos que passavam na área, entre eles diversos estudantes.

Uma educadora da Escola Estadual Professor Lopes, que não quer ter o nome divulgado, contou que os episódios impactam diretamente a vida escolar. "A frequência nas aulas cai muito. Os pais ficam com medo de mandarem os filhos, é prejuízo para eles. Infelizmente, parece que estas brigas têm se tornado cultura do bairro".

 

Casos graves

Embora alguns casos não tenham, em princípio, relação com grupos rivais, chamam a atenção pela gravidade. No dia 11 de março, uma estudante, 17, da Escola Municipal Dante Brochado, no Bairro Santo Antônio, região Sudeste, ficou ferida após jovens arremessarem artefatos explosivos dentro do pátio. O circuito de câmeras flagrou a ação, e um jovem, 18, foi preso por lesão corporal. O fato aconteceu por volta das 19h50, e a aluna teve ferimentos no pé.

No dia 11 de fevereiro, um aluno, 18, da Escola Municipal Georg Rondenbach, foi esfaqueado na saída da aula, por volta de 21h30. Segundo o documento policial, pedras foram arremessadas, e, em seguida, o autor desferiu um golpe de faca nas costas da vítima. Um dia antes, uma confusão do lado de fora da Escola Estadual Antonino Lessa, no Santa Efigênia, acabou dentro da instituição. Conforme o registro policial, um dos alunos foi agredido na porta da escola, por volta das 17h30, quando entrava. A confusão se estendeu até o interior do estabelecimento, e o suspeito chutou as portas de algumas salas.

O professor da Faculdade de Comunicação da UFJF Wedencley Alves, que coordena pesquisas ligadas a comunicação, saúde e violência, acredita que uma sociedade mais violenta contribuiu para este tipo de episódio. "Não é surpresa que estes casos estejam ocorrendo. O que parece é que há um aprofundamento da cultura da violência na cidade, e a escola acaba afetada com isto. É uma questão que não pode ser resolvida só com repressão, mas principalmente com intervenções sociais efetivas."

 

 

Promoção de eventos pela paz

Autor da Lei 12.469/2012, que institui a Área de Proteção e Segurança Escolar, que pretende dar segurança e tranquilidade ao ambiente escolar, o vereador Wanderson Castelar (PT) acredita que sejam necessárias ações mais efetivas do Poder Público. "Uma das motivações para a criação da lei, pensada em 2010, foram as brigas entre grupos rivais. A escola é um microcosmo da sociedade, não adianta imaginar que ela vai ficar imune. Desde a criação da lei, o que se tem é promessa de fazer o projeto-piloto em escolas da Vila Olavo Costa. Por enquanto, aguardamos o cumprimento da legislação. Enquanto isto não acontece, os casos vão se agravando", afirmou.

De acordo com o secretário de Educação do município, Weverton Vilas Boas, o Departamento de Apoio ao Estudante foi reestruturado e está mais próximo das escolas, mediando conflitos e implantando projetos para buscar a paz dentro das instituições. "Temos parcerias com as polícias Civil e Militar, Guarda Municipal e movimento de escotismo para implantarmos o projeto "Caminhos da paz", no qual conseguimos mediar os conflitos internamente, promovendo eventos que têm o foco na paz."

Na avaliação do secretário, houve queda nos casos de brigas dentro e fora das instituições de ensino. "Temos, em média, um pedido mensal para reforço de segurança nas escolas. Quando há indício ou boato de que vão ocorrer conflitos, os diretores já acionam a PM, e têm sido atendidos." Ele afirmou que não há, na pasta, nenhum relato de invasão de gangue em escolas. "A violência é uma preocupação de toda a sociedade, e estamos atentos a estas questões. Hoje nossa maior preocupação é com pequenas brigas dentro das escolas, onde a principal motivação é a falta de tolerância entre os alunos."

De acordo com nota enviada pela assessoria de comunicação da Secretaria de Educação, os casos que chegam ao órgão "referem-se a conflitos e dificuldades de convivência entre jovens. Em alguns casos, as direções das escolas solicitam a transferência dos alunos como forma de precaução para garantir a integridade dos estudantes. Vale destacar que não há como a Secretaria de Educação afirmar ou mesmo comprovar se os alunos ou jovens envolvidos em conflitos são integrantes de grupos rivais ou qualquer outro agrupamento".

A assessoria da Secretaria de Estado de Educação informa que tem conhecimento da situação. No entanto, como os casos ocorrem fora das instituições, o que cabe ao órgão é fortalecer a parceria com a Polícia Militar, o que já vem sendo feito.

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