Jogatina

Por Júlia Pessôa

23/01/2015 às 07:00hs - Atualizada 23/01/2015 às 10:59hs

Desde que se aposentou, uns cinco anos atrás, Nilton não queria saber de vida dura. Era seu merecido descanso depois de mais de 30 anos de labuta como professor de Filosofia da UFJF, ganha-pão que, “grazadeus”, como ele mesmo dizia, sempre deu à família uma vida confortável. Agora, na velhice, seu suor do passado lhe permitia alguns pequenos luxos, como viajar com a esposa quando bem entendesse, e um amplo apartamento de cobertura bem no Centro de Juiz de Fora, onde nasceu, viveu e pretendia morrer – sem pressa para o último, como sempre fez questão de ressaltar.

Um de seus prazeres da dita “melhor idade”, era jogar um buraquinho no Parque Halfeld com os outros aposentados, hábito que parece ter nascido com a praça e que chamava atenção de Nilton desde que era menino e acompanhava as tardes de baralho do avô, fascínio que era o pavor de Célia, sua esposa. “Ai, Niltinho, parece coisa de gente à toa!”, dizia ela, contrariada. “E daí? Já trabalhei demais, quero mais  é ficar à toa mesmo”, respondia ele,  já da porta.

E assim seguiam-se os dias. Quando dava vontade, ia jogar, quando batia preguiça, arrumava outra diversão. De uns anos para cá, a maioria de seus parceiros de jogo aderiram ao tal do Facebook – e todos se achavam moderníssimos por isso -, e desde então sentiam uma necessidade irrefreável de tecer opinião sobre tudo que acontecia no mundo. Se fosse só isso, tudo bem, afinal de contas, comentar a vida e os acontecimentos do mundo sempre foi a atividade de fundo de mesas de jogo e botequins. O problema era o tom de especialistas que os colegas adotavam, como se tivessem PhD em qualquer assunto e qualquer argumento dissonante fosse apenas burrice. Além de tirar o foco do jogo, a Nilton,  humanitário convicto, doía mais ainda a violência de muitos destes argumentos, prontos a repercutir o ódio gratuito a qualquer oportunidade- sem falar no apelido do dito-cujo, “Face”, com que ele tinha uma implicância profunda e gratuita.

Por vezes, Nilton ficava de saco cheio disso tudo e resolvia abandonar o carteado por até meses. “Coisa chata esse negócio de Facebook”, pensava. “Ninguém sabe de coisa alguma e sai cuspindo opinião vazia como se fosse proprietário único da verdade, de escritura lavada e tudo. Que saco isso!”. Mas quando batia a saudade dos ases, voltava ao parque com as mãos coçando, vez ou outra quase se arrependendo de tê-lo feito assim que o morto era dividido e as cartas distribuídas. Bastava começar o falatório, como aconteceu ontem, quando se travou a conversa que segue.

-Tá sumido, hein, Niltinho?

-É, andei visitando os filhos, Toninho…

-Bem-vindo de volta então! ‘Cês viram no ‘Face’ aquela menina da globo de biquíni na praia? Aquela gostosa da Copa que aparecia toda hora…Como chama, Zé Carlos?

– Fernanda Gentil. Tá gorda pra caramba. Absurdo. Tá na TV todo dia e não se cuida, falta de respeito com o telespectador. ‘Cê viu, Luiz?

-Também tinha achado isso, mas ela tá é grávida. Escapou por pouco, senão não podia estar com aquela barriga. Onde já se viu, em plena televisão. hahahaha Cê num acha, Nilton?

-Eu acho é que ‘cês falam demais.

– Que esquentadinho hein? E aquele negócio do menino do surfe, hein? Viram não? Viu Zé, no Face?

-Vi não, o que aconteceu?

– Tomou umas balas de um policial e morreu, novinho, 24 anos, Toninho, que nem seu filho.

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-Ah, mas filho meu não ia tomar bala de policial. Aposto que deve ter alguma treta aí no meio, nem que seja um baseadinho. Policial não ia atirar à toa. Né não, Niltinho?

-Eu acho é que ‘cês falam demais.

Carta vai, carta vem Nilton continuou se esquivando de todos os assuntos sobre os quais os companheiros de jogatina faziam questão de exprimir suas “brilhantíssimas” conclusões, seguindo o cronograma de discussões da semana no Facebook, sem se preocuparem com a legitimidade ou o tom de seus argumentos, e ignorando também quem pudesse ser ofendido e/ou afetado por eles. “O bom do ‘Face’ é poder sempre dizer o que pensamos pra todo mundo ler”, dizia Zé Carlos. A partida, bem como a falação, continuou.

– Ah, e aquele traficantezinho playboy que mataram lá na Índia? Tava o “Face” inteiro comentando!

– É Indonésia, Luiz! hahahahah Mas bem feito, né? Traficante tem que morrer mesmo. Se tivesse pena de morte no Brasil também, não tava essa zona. Tem que morrer. Não tem, Niltinho?

– Quem tem que morrer agora são ‘cês “tudo”: cheios de carta na mão. Enquanto vocês só falam bosta sobre tudo, eu estava era prestando atenção no que me trouxe aqui: o jogo. Bati!

Virou as costas e voltou para casa, satisfeito. Depois da vitória de lavada, nunca mais teria que ouvir as verdades “absolutas” e absurdas do “Face”.

 

 

 

 

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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