JF. terça-feira 27 jun 2017
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Aquele abraço

Eu cresci numa família que não economiza afeto. Tudo é abraço, beijo, “te amo” pra lá, “tô com saudade” pra cá, doses cavalares de carinho. Hoje dou até risada quando me lembro de que na adolescência meu maior temor, deusolivre, cruz-credão, era de que a paixãozinha teen da vez descobrisse o que eu sentia. Claro que toda minha tentativa de mistério era uma fraude, porque meus olhinhos brilhando, uma tremedeira sem fim e as palavras que me fugiam denunciavam sempre ao crush – como diz a xufentude de agora – que meu coração estava derretendo em sua presença. Adulta, não poupo palavras de amor a quem o desperta em mim: família, amigos, o Renato, gente que eu admiro e até aquelas pessoas que a gente nem conhece direito, mas simplesmente gosta de graça. E com as palavras, vão muitos abraços.

Perdão pela afirmação de autoajuda, mas o poder de um abraço, qualquer um, nunca pode ser subestimado. É o que segura a gente de pé quando estamos desabando; o que mata instantaneamente uma saudade, independentemente de seu tamanho; o que acolhe; o que embala cantorias ébrias; o que conforta; o que muda o dia. Mas há uma espécie muito peculiar de abraço, que parece ser uma casa, um porto seguro, ou qualquer coisa que dê, ao mesmo tempo, poder, paz e segurança. É o abraço entre mulheres.

São corpos dizendo um milhão de coisas que nem a edição Master Gold Deluxe do Aurélio seria capaz de expressar em palavras. Vai do “miga, sua loka” ao “Vou junto na delegacia pra você denunciá-lo”. Do “Fiz um aborto” ao “Você está linda de noiva”. Do “Parabéns pela promoção” ao “estou me separando”. Eu não sei exatamente como opera o mecanismo, mas não importa quanto dure o enlaçar de braços, toda dor parece ser menor ou, ao menos, ganha uma redoma de conforto na fração de tempo do abraço de mulheres. Assim como todo riso é elevado a uma potência tão elevada que meu cérebro de humanas jamais conseguiria calcular.

É inúttil tentar explicar. Só estando em uma das extremidades e sendo tomada por um sentimento de compreensão e empatia tão fortes que extrapolam seu corpo e vão em direção ao outro é possível saber do que se trata. Mesmo sendo uma pessimista inveterada, reconheço que tenho uma sorte inestimável em nem conseguir quantificar minha cota deste antídoto tão revolucionário. Apesar de estar longe de ser uma pessoa boa – apesar dos esforços -, eu espero e torço genuinamente que toda mulher que me ler e desconhecer o que eu estou falando sinta isso um dia. Ou todos os dias. Não precisa se preocupar em entender. Na hora se sabe. A vida muda. É aquele abraço.

Coisa de pele

A culpa é uma mochila que tenho sempre à tiracolo, algo que atribuo muito a ter estudado em colégio de freira por boa parte da vida escolar. Ou vai ver é coisa minha mesmo. Aprendi, caindo e levantando mais vezes do que posso contar, que a culpa é um peso inútil de se levar no lombo, porque só faz a gente afundar, podendo chegar a fundos de poço sem qualquer lembrança do que tinha sido a luz. Eu sei, eu estive por lá.

Nem sempre sei exatamente por que a mochila está pesada. Em outras vezes, sei exatamente a carga que me esmaga a coluna, da cervical à lombar. Sinto muita culpa por não estar mais com a minha família. Por não saber quanto minha afilhada calça, nenhuma das duas. Muito menos meu afilhado. Por sempre confundir os horários em que minha mãe está em casa. Por não ter ideia de como é a rotina do meu irmão. Porque o tempo que fico sem ver meu pai se conta em meses. Porque não sei o que vai ter no almoço de família de hoje. Porque vejo os filhos de meus amigos tão pouco que eles nem sabem que é Tia Júlia. Porque nunca dá tempo pra tanta coisa que eu queria, precisava e adoraria fazer. E dizer.

Muitas vezes, quando sinto os ombros doloridos, penso comigo: bem-feito! Pela culpa que carrego pelas vezes em que minha impaciência crônica me fez revirar os olhos a quem só queria agradar. Por todas as vezes em que, de saco cheio com alguma coisa, deixei o caldo derramar sobre quem nada tinha a ver com isso. Por ter falado demais. E de menos. Por todas as vezes em que fui uma babaca, gratuitamente. E por aquelas em que não atendi o telefone, não prestei atenção no assunto ou atravessei a rua, acometida por uma enorme preguiça social. Bem-feito, mil vezes bem-feito!

Com o tempo, fui aprendendo a esvaziar a mochila, porque carregar peso morto atrasa a caminhada, e tempo é recurso escasso. Mas mais importante que isso, fui aprendendo – não sem o coração e a coluna muitas vezes estourados – a não mais cometer os erros que a tornam tão pesada. Diz a sabedoria popular que “errar é humano”, mas não dá pra continuar carregando sempre as mesmas cargas, nem carregar culpa para sempre. Erra-se, aprende-se, caminha-se. E assim, sucessivamente. Vida que segue.

Ainda bem que nunca me tatuaram na testa todo o peso que já transportei na mochila. Se a atrocidade vira moda, ia me faltar pele.

Análise morfológica (ou Dia dos Namorados)

De repente, amar tornou-se possível, quase palpável. Assim, sem planos. Talvez pela lógica que rege “água mole e pedra dura”, o amor prevaleceu. Ou quem sabe pela simplicidade de não poder prevalecer outra regra.

Pode ser por porque sorrateiramente o verbo de toda saudade, toda dúvida, toda negação, todo sofrimento, só tenha sido o amar, embora ninguém soubesse. E na análise morfológica deste Presente, só importa o verbo.

Os contos de fadas da vida cotidiana são muito mais tortuosos, mas muito, muito mais bonitos. O que se sente no real não pode ser expresso em páginas de fábulas compradas pela Disney.

E ela queria mais era continuar sendo parte do sujeito composto do “felizes para sempre”. Diariamente. Ou enquanto o sempre fosse bom.

A cidade dos meus dias

Talvez este tenha sido o primeiro ano em que o aniversário de Juiz de Fora passou um tanto batido para mim. Desde que me lembro – e de que me contam – , sou uma ensandecida por aniversários, os meus e os alheios. Nos meus, tenho meus pequenos rituais: tiro o dia de folga, evito ligar para as pessoas (é dia de elas me ligarem) e, invariavelmente, faço uma comemoração, que não precisa ser megaevento, mas precisa ter comida e gente amada, não importa onde eu esteja. Se o de alheios é de gente chegada, pode saber que vou fazer firula: textão de amizade, bolo, bola, chapeuzinho, o que vier e convier. Por isso, quando me dei conta de que já era 31 de maio, estranhei não ter me comovido com a data. Afinal, era aniversário de Juiz de Fora!

Minha Itabira drummondiana será sempre a Três Rios de berço. A fotografia na parede, que tanto me dói, que guarda minha família, amigos queridos e memórias de uma infância feliz e uma adolescência de muitas histórias. Mas Juiz de Fora foi a primeira e tão idealizada casa só minha, especificamente na Rua Padre Tiago, em cima do finado Fazendinha. Minha só não, minha e da Day. Era meu clichê de mundo cheio de possibilidades, onde eu poderia fazer o que quisesse, mas onde também eu seria a única responsável por isso. E fui, caxias que sou. E não fui, ansiosa pela liberdade que era. Foi a cidade onde me tornei adulta, com os sabores e dissabores inerentes.

Só a cidade dividiu comigo o choro escondido das tristezas reais e solitárias que virar gente grande traz. Também só ela me flagrou sorrindo feito idiota pela rua, recebendo uma notícia boa na tela fria do celular ou saindo de uma porta depois de alguma conquista que mudaria minha vida dali pra frente. Aqui fui aluna e professora. Solteira e casada. Afeto e desafeto. Egoísta e solidária. Correta e equivocada. Já saí de casa sem um real no bolso e já paguei a conta da mesa. Já reproduzi preconceitos e me expus contra eles. Já caí, literal e metaforicamente. Mas sempre me levantei, e agora, só por agora, estou de pé, ciente de que posso tropeçar em qualquer esquina.

Se no auge dos meus 18 aninhos encontrei em Juiz de Fora a cidade imaterial em que sonhava viver a liberdade, hoje o lugar onde moro nada tem de sonho. Ainda bem, porque cidades idílicas ficam na imaginação, no papel, no “pode ser”. Na cidade em que vivo, acordo às 6h, questiono minha vida, brigo com quem amo, tenho medos imbecis e avassaladores, e nunca tenho grana para as viagens que quero. Mas é nela que rio até doer o rosto, é nela em que está ou esteve, por algum tempo, a maior parte das pessoas que vou carregar até meus últimos dias, e é nela que vou me tornando uma pessoa melhor, ou, pelo menos, tentando fazê-lo com os muitos erros do caminho. Se muito já falei sobre meu amor à Princesa/Manchester e suas peculiaridades, num tom quase ufanista, hoje é como a letra da música: “Não vou divulgar/ Só do meu coração para o seu”. Não, Juiz de Fora não é a cidade dos meus sonhos. É a cidade dos meus dias. A cidade da minha vida. E que bela vida eu venho levando!

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