JF. sábado 25 mar 2017
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Agora, vai

Naquele dia, ela não quis tomar o costumeiro café preto. Tinha leite fresquinho na geladeira e um Nescau sabe-se lá de quando, mas pensou que talvez não tomasse Nescau desde a adolescência, e por que não fazer a manhã mais doce. “A vida é feita também destes pequenos prazeres bobos”, pensou. E era mesmo. Lembrou-se das notícias de internet de que nenhum adulto precisa de leite, e das outras falando de osteoporose, cálcio e o diabo a quatro, mas, naquele momento em que o sol ia se convidando para a pontinha da mesa da cozinha, só pensava no quanto aquilo estava bom. Mas que Toddy também era. “A única pena é não ter Ovomaltine”, lamentou-se um tiquinho.

Saiu pra trabalhar e tudo fluiu bem como há muito tempo não acontecia. Pode ser porque estava de muito bom humor, era sexta, e as sextas fazem isso com as pessoas mesmo. Mas tudo estava especialmente mais fácil, mais leve, menos com cara da dureza que vai se aplacando naturalmente sobre a rotina e a gente nem percebe. Saiu ainda era dia e trombou com um amigo que tinha caído naquele limbo do “Vamos marcar”, “Mas vamos mesmo”, “Olha, me liga hein!”, sem nunca ser promovido, nos últimos tempos, a mais do que seu avatar redondinho do WhatsApp, ou uma curtida em qualquer outra rede social que tenha devolvido o verbo aos nossos vocabulários. Foram tomar um prometido e adiado chope.

Relembraram os “velhos tempos”, que nem tão velhos eram; sobre o que andam fazendo e o que pretendiam fazer; sobre as barras que passaram sozinhos e , “Porra, mas por que você não me ligou?”; sobre gente querida e sumida; sobre gente babaca que continua babaca. Falaram-se. Riram até não poder mais. Cumprimentaram conhecidos. Comentaram a roupa de estranhos, brigaram pra ver quem pagava a conta. Ela venceu. “Deixa eu pagar, tô tão feliz hoje…” Pagou. Despediram-se com um abraço curto, mas apertado, com promessas de um novo encontro sob o selo do “Agora, vai”. Tinha tudo pra ir, mesmo.

Foi pra casa e já altinha dos muitos chopes, dormiu logo, ainda com um sorriso besta de um dia tão banal e tão bom. “A vida é tão curta, a gente devia se permitir essas felicidades idiotas mais vezes”, pensou – talvez até tenha falado alto – e adormeceu ainda terminando de completar o raciocínio clichê.

Acordou em um sábado cinzento, de ressaca, com o telefone tocando. “Lá vem essa mala me ligar”, disse rabugenta sobre a ligação – que não atendeu – de uma amiga. Não era só a dor de cabeça, nem só a manhã nublado, nem a cara de ontem ainda meio maquiada. Parecia mesmo que o sábado ia ser ruim. Abriu a despensa e matou o pressentimento, com ares de perita forense. Não tinha mais Nescau.

Pro dia nascer feliz

Eu juro que tentei. Da hora que acordei até o último segundinho de olho aberto, eu me esforcei muito. Foi muito grande a mobilização para que eu conseguisse, confesso. Nas minhas redes sociais, em grupos de WhatsApp,em ligações, na mídia, em recados de trabalho, em manifestações de estranhos na rua. Todo mundo queria que eu tivesse êxito. Mas não deu.

Não achei a menor graça na piada de “promoção de espumantes para mulheres” mostrando uma gôndola de detergentes; pelo contrário, fiquei possessa. Também não consegui rir da montagem com a Dercy Gonçalves, dizendo que o dia era de quem tinha “perereca” (claro que com um termo mais chulo), como se o que definisse o que é ser mulher fosse a genitália. Tampouco esbocei sorriso com foto de homem pelado com flores me desejando felicidades, como se ser sexualizada e estar com um homem fosse meu único caminho para isso.

Não recebi flores – que adoro, inclusive – , mas de toda forma, não entendo ser presenteada com rosas no mesmo Calçadão em que tantos homens assediam milhares de nós na nossa passagem pro trabalho, pra casa, num passeio para olhar as vitrines, cometendo o gravíssimo delito de existirmos. Não gostei quando, em tom elogioso, ouvi de homem que a gente deixa “a vida deles mais leve”, como se nosso único papel fosse o de sermos delicadas, frágeis e decorativas, além de sempre a serviço de algum homem.

Não venha me pedir pra ser feliz se preciso ouvir, quando exponho uma opinião sobre um tema que domino, que “não, na verdade não é bem assim”, e sou constantemente interrompida por algum cara em tom professoral. Se quando expresso meus sentimentos sou tachada de louca, desequilibrada, ou “devo estar de TPM”. Se quando quero ficar em uma festa, sou “doidona” e quando quero ir embora, sou “chata”. Se uso batom de “puta”, só porque é vermelho (ou roxo, ou preto, ou marrom, ou da cor que eu quiser). Se sou obrigada a aceitar assédio porque “foi só um elogio” e se meu corpo e o de nós todas é tido como público para o toque, o julgamento e a mil formas de opressão e violência.

O sorriso não vai vir nem quando penso que estou viva e ilesa no país onde uma mulher foi agredida a cada minuto no carnaval carioca. Neste mesmo paraíso tropical em que a gente trabalha sete horas e meia por semana a mais que os homens, mesmo tendo índice de escolaridade maior, porque tarefa doméstica “é coisa de mulher”. Até o “presidente” disse, ao afirmar que seguramente a responsável pela formação dos filhos “não é o homem, é a mulher.” Estamos no quinto país do mundo com maior número de feminicídios, não tem mensagem “fofa” que reverta isso, assim como não tem chocolate que adoce o sabor amargo dos comentários que este texto certamente terá: “Feminazi”, “Mal-amada”, “Feia”, “Doida”,e por aí vai.

Reconheço que vai ficando mais difícil. Mais gente vai me achando chata, radical e grossa, porque me recuso a compactuar com piadinhas e manifestações de machismo. “Feliz Dia da Mulher” soa, aos meus ouvidos, como “Feliz Dia da Memória pelas Vítimas do Holocausto”. Tivemos conquistas importantes, mas ainda faltam incontáveis gerações noites mal-dormidas “pro dia nascer feliz”. Ainda não deu.

Carregador móvel

Todo mundo sabe que a maioria destes carregadores móveis de bateria não valem grandes coisas. Até que recentemente encontrei um modelo que tem me salvado vez ou outra, quando a tomada mais próxima está “Lá la longe”: um ônibus, um passeio, uma festa, um bar daqueles tempos em que a gente não chegava nos lugares procurando um plugue. Mas no frigir dos ovos, seja em forma de drops, de capinha de celular ou de microtijolinho, estes “power banks” não passam de um banco movido a uma moeda sem lastro.

Na prática, carga boa é aquela que vem da fonte direta. Tenho um carregador “turbo”, que veio com o meu atual telefone, que é uma maravilha: enche os pauzinhos da bateria rapidinho e depois ela dura muito mais. Na vida, vale a mesma lógica da telefonia. Não que as pequenas carguinhas, as alegrias cotidianas, devam ser menosprezadas, jamais! Delicadezas mudam o curso de um dia ruim, de uma semana difícil, são a luz no fim do túnel de até de um ano inteiro de desventuras – como deviam saber os execradores de 2016. Só que muitas vezes a gente precisa ir na origem, na fonte, na tomada mesmo, aquela da parede.

Passei o carnaval bem longe do ziriguidum e dos glitters, até porque já tinha deitado o cabelo em ambos no esquenta para a folia. Fui para o sítio em que passei todos os fins de semana da infância; fiquei na piscina onde aprendi a nadar; usei pratos, talheres e copos que devem regular idade comigo. É o lugar onde minha vó passou seus últimos dias; eu, meu irmão e meus primos brincamos até alguém arrancar a tampa do dedão em uma topada; e brigamos até alguém sair chorando e dedurando a treta para os adultos. Foi onde meus pais se casaram; onde fui acolhida por minha avó e tia com minha mãe e meu irmão em tempos de vacas magras; onde vi todas os “Pessôa” mais novos que eu darem seus primeiros passos.

Não fosse suficiente, passado, presente e o mistério do planeta (o tal futuro) se reuniram comigo em forma de gente que amo. Amigos que podem falar sobre a Quinta Sinfonia de Beethoven e do “É o Tchan” na mesma conversa. Gente que me elogia e me repreende, dependendo do tópico, mas nunca abandona o “tô contigo”. Pessoas com idade para se lembrar do Jordi e quem nem tem ideia de quem foi o microfenômeno francês. Minha família, que chega com petiscos e decide ficar mais um pouquinho, “pra beber um pouco com os meninos”.

No dia de ir embora, fui receber a Marli no portão, que trabalha com minha mãe há anos. Como sempre, com um abraço e um beijo. Antes que nossos braços se afastassem, ela me apertou mais um pouco, e por um tanto mais de tempo: “Este aqui sua mãe que mandou”. E foi então que eu descobri. Aquele abraço, naquele lugar, encomenda de quem e dado por quem, e em meio a tanta gente que eu amo… Aquele é meu carregador turbo.

Coca Stevia

Quando nascemos fomos programados para receber os enlatados que nos empurram dos USA sim. Mas mais do que isso, fomos criados e protegidos para conquistarmos o que a geração de nossos pais não teve a chance de alcançar. Foi assim com eles também, não se enganem. Nossos avós ralaram muito e com muito menos recursos para que nossos pais e mães tivessem uma vida melhor e mais confortável que a deles. É o ciclo da vida, que se renova a cada linhagem, a esperança de dias mais bacanas para os que estão chegando. Claro, não falo de quem nasceu em berço de ouro, tampouco de quem nem berço teve.

Falo de gente como eu, classe média, nem rica, nem pobre, mas certamente cheia de privilégios e regalias. Não, não é fácil ter que reconhecer que você, que tanto trabalha, que tanto se ferra, que tanto leva porrada na vida, que tanto tem os sonhos esmagados… Você, que nunca tem seu potencial reconhecido, que tem que enfrentar tanta gente babaca, que teve que batalhar sozinho por tudo que conseguiu… você, igualzinho a mim e tantas outras pessoas que reclamam todos os dias. Sim, meu bem, com todos estes percalços de #classemédiasofre – que sim, podem ser dolorosos -, somos favorecidos e criados para sermos a nossa melhor versão.

O problema é que, não raramente, a redoma de privilégios que nos envolve, e que teimamos em não enxergar também, nos cega para a realidade do mundo. Daí tanta gente branca fazendo beicinho porque “acha que ouviu dizer que não pode usar turbante”: quero o brinquedo para mostrar aos coleguinhas, mesmo sem querer brincar ou sem saber como funciona. Por isso também tanto ego ferido porque a selfie cheia de filtros e com uma legenda descoladona teve “só 15 likes”; tanta gente que se revolta quando é criticada; tanto sorriso fake e papo superficial em nome de tentar ser amado e descolado a qualquer preço.

Vivemos a era em que não se sabe ouvir não. Em que “tem que falar com jeito” com o opressor sobre sua opressão, senão ele fica ofendido. Sim, na torre de regalias, tirar um bloquinho do topo, por menorzinho que seja, deixa estrutura a deixa mais baixa. Mas nem por isso deixamos de observar a maior parte da vida de cima.

No meu tempo de criança, o refri mais famoso do mundo era coisa de fim de semana: pro almoço de domingo, ou pro lanche do fim do dia, vendo Os Trapalhões. Ainda assim, era privilégio. Nesta época, Renato Russo ironizava a americanização de uma “Geração Coca-Cola”. Em pleno 2017, eu fico pensando o que diria da “Geração Coca Stevia” – que não, não diz respeito a uma faixa etária, mas a um tipo peculiar de gente, de tudo que é idade-: criada para ser melhor e para fazer bem, mas quando a gente conhece, não é lá grandes coisas.

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