JF. quinta-feira 25 mai 2017
OUÇA AGORA
Publicidade


Pasto, pedra, árvore

Tunico andava indócil.

Quando em vez, sentado do lado de fora da cabana em que morava, moído após um dia inteiro no cabo da foice, tomando um trago de pinga enquanto Dalva preparava a janta, via o sol escorrer seu amarelão sobre a monotonia: pasto, pedra, árvore.

No alto, a montanha.

Nunca fora à montanha.

Só via de longe. De perto vira seca, morcego-vampiro, tatu, chuva de raio, jararaca, enchente, alma-de-gato, carro grande, corisco, homem estripado.

E pasto, pedra, árvore.

A montanha, só de longe.

Certa manhã, voltando do curral, sentou à porta da cabana e olhou o morrão.

- Pro diabo, vou subir essa desgraça.

Gritou qualquer coisa pra Dalva, montou o pangaré que chamava de Alvorada e partiu.

Cruzou rios mixurucas, várzeas, bambuzais, cupins e caburés até chegar ao pé do morro. E começou a subida. Lá pelas tantas o cavalinho arriou, ele amarrou o bicho num pé de manga e continuou a pé, facão na mão pra ir cortando o mato.

Por fim, o dia por um fio, chegou ao topo da montanha.

E o que descobriu lá naquela altura agora domada?

Pasto, pedra, árvore.

Olhou pra baixo e sentiu um nó nas tripas.

Um gosto de ferrugem na boca.

Dali de cima, da montanha enorme que avistava da sua cabana, não conseguia ver a cabana mínima de onde avistava a montanha.

- Peste.

E desceu cavalgando os próprios calcanhares até o pangaré, que desde então passou a se chamar Poente, e voltou em desabalada carreira pelos pastos, pedras e árvores.

Queria chegar antes que a Dalva guardasse as panelas.

Que mulher brava é uma desgraça.

 

Ilustração: João Reis

Ilustração: João Reis

Luizito

Há em Pueblo Garzón um camponês uruguaio de nome Luizito. Nascido em El Maturrango e criado até uns 12 anos em Curral Alto, distrito de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul, estabeleceu-se há um bom tempo em Garzón, onde todo mundo lhe olha torto.

Explica-se.

Um dia Luizito sumiu de Garzón e foi aparecer uma semana depois em Pelotas. Segundo ele, foi levado por um disco voador e forçado a fazer sexo com uma alienígena durante seis dias.

- Até ela cansar e os extraterrestres me liberarem.

Era uma alienígena de seios empinados e muito firmes, bumbum arrebitado, pernas torneadas, cabelos louros e profusos pelos vermelho-fogo nas axilas e no púbis, segundo relato do camponês registrado em ocorrência policial.

- Queriam coletar meu sêmen para fazer experiências.

Na hora de soltarem Luizito em Pelotas, todavia, os ETs, que haviam assumido aspecto humano para não assustarem o rapaz, voltaram a sua forma original. E tinham todos a aparência de cabras.

Quando descia da nave, Luizito ainda pôde ver a extraterrestre com quem copulara, agora uma cabrita de pelagem rubra, acenando de forma reverente com a cabeça chifruda.

Ninguém engoliu a história em Garzón, mas o patrão de Luizito relevou.

- Moço bom de serviço.

A paciência do fazendeiro só foi se esgotar quando começaram as acusações de que Luizito andava assediando sexualmente as cabras da propriedade.

- Isso não pode, Luizito.

E agora o camponês enfrenta uma série de processos impostos pela Animal Help Uruguay, pela Sociedad de Medicina Veterinaria del Uruguay e pelo próprio ex-patrão.

Acuado, pede asilo político no Brasil.

- Pois só lá eles entendem verdadeiramente o sentido da palavra saudade.

Pra que serve um cronista?

Eu sei pra que serve um martelo. E sei pra que serve um advogado, um médico, um padeiro. Sei pra que serve uma costureira, um vendedor ambulante, um torneiro mecânico. Um pneu. Uma colher. Sei pra que serve uma cafeteira, um motor quatro tempos de 225 cilindradas e um jornaleiro. Mas um cronista? Pra que serve um cronista?

Sei pra que serve um professor de tecnologia da informação, a água, um porta-retrato, um retratista. Um pincel, uma palmilha, um palmito, um ferreiro e um ferrador de cavalos. Conheço bem a utilidade de uma tesoura, de um copo de cachaça, de um administrador de empresas e de uma lagartixa. Mas um cronista…

Um ator serve, um soldado serve, um cortador de unha serve, um tapete serve. Um servente, um servidor, um serviçal, um samurai servia. Um chinelo tem serventia, como um saquinho de chá, um lampião e uma lâmpada de LED. Um guidão. Um microfone eu sei pra que serve, como um telefone ou um megafone. Um lápis. O papel. Já o cronista que nele escreve, não sei não.

A revista serve. Um engenheiro também. Uma garota de programa. Um garoto de aluguel. Uma rua asfaltada, uma estrada poeirenta, um pé de amoras, fogo e um doce de manga. Uma faca afiada. Uma telefonista cega. Um historiador. Um técnico em radiologia. Uma caveira de boi. As asas de um pardal. A tatuagem no dorso da mão da caixa de supermercado serve a um propósito. E o cronista?

Têm serventia um prego na parede, uma cadeira de rodas, os ferros-velhos e os velhos que alimentam a fome dos asilos. As enfermeiras-chefe. Os limpa-trilhos. Os substantivos compostos. Uma camisinha. Quase tudo nesse mundo serve para alguma coisa. Mas um cronista? Pra que serve um cronista se ele, tendo por matéria-prima somente a palavra, não puder ser também um carpinteiro, um lobo-guará no pátio da igreja, um Sonrisal, uma ponte? Se não puder ser qualquer outra coisa além daquilo que seu nome diz que é… pra que serve um cronista?

Comentário a respeito de Belchior

Enfim saíram do seu caminho, Antônio. E agora você pode andar sozinho, como sempre preferiu.

Atrás ficamos nós que nos vestimos de suas paixões, de suas dores, de sua fome de viver, que era também a nossa – e disso nem sabíamos até que você a traduzisse pra gente. Nós que vimos, pelos seus olhos, que o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente.

Nós, moças e rapazes latino-americanos, que pela sua pena e seu canto fomos conduzidos a Poe, John, Dante, Dylan, Luiz Gonzaga. A quartos de hotéis e beiradas de caminhos empoeirados. Navios fantasmas. Ruas alagadas e noites frias. Milharais infindáveis. Cabarés e portas de delegacia.

Nós que, vestidos em blusões de couro surrados e velhos jeans, vagamos pelas madrugadas, personagens de suas crônicas e de suas pinturas, anos e anos de sonho e de sangue e de América do Sul, habitando a urgência das suas canções, morando na filosofia.

E me permita discordar de você quando cantava que era como nós, que te ouvimos agora. Nunca foi.

Pequenos, cabemos em nós mesmos. Você não, Antônio. Você foi incabível em si. Arte demais, voracidade demais, talento demais, paixão demais. Não inventaram um corpo que lhe suportasse, um mundo que lhe comportasse.

Me surpreende que essa veia tenha demorado tanto a estourar para liberar seu espírito indomável do claustro da carne.

Já vai até tarde, poeta louco brasileiro.

Esse ano, enfim, você morreu. E ano que vem não morre mais.

Caminha à noite para onde?

Graças à dica do amigo Camilo Rangel, cinéfilo inveterado e baterista arretado, topei este fim de semana com o filme “Garota sombria caminha pela noite”. Mais que a história da vampira feminista – e skatista – que se envolve com um jovem traficante numa cidade fictícia chamada Bad City, localizada em lugar algum, em tempo nenhum, me coçou os miolos a sensação de despertencimento dos personagens e de um certo desenraizamento que começa na própria constituição da obra.

O filme foi realizado em preto e branco por uma diretora britânica (Ana Lily Armipour), nos Estados Unidos, mas é todo falado em persa. Os protagonistas são uma vampira sem nome, interpretada pela norte-americana Sheila Vand, e um James Dean iraniano, vivido por Arash Marandi – ele, sim, persa. A estética alia as tomadas contemplativas do cinema iraniano moderno e o ritmo dos westerns sessentões de Sergio Leone aos contrastes carregados do expressionismo alemão de Robert Wiene e F. W. Murnau – da década de 1920. O indie rock americano e o rock alternativo iraniano soam emoldurados por pôsteres dos Bee Gees e de Michael Jackson – Jacko ecoando também na mão engessada de Arash.

Essa convergência de temporalidades, linguagens e referências concretiza-se na cidade-fantasma de Bad City, de nome inglês e língua persa, localizada sabe-se lá onde, sabe-se lá quando. Difícil não ver Bad City e seus personagens melancólicos, assaltados pela violência em todas as suas formas, como uma alegoria da própria modernidade – a modernidade desse instante histórico, que alguns chamam de pós-modernidade – em que nossas noções de espaço, tempo, pertencimento e da própria existência esvaziam-se no conforto meio entorpecido da ausência de distância, da supressão do tempo, da banalização das relações, da insistência no movimento, ainda que seja para lugar nenhum.

Bagunça a cachola essa garota sombria caminhando pela noite, sem rumo, sem raízes, pelas ruas de Bad City.

 

 

Temporada de caça

Em algum momento do século passado, algum “jênio”, assim, com J mesmo, revolveu trazer javalis para o Brasil. O javali-europeu. Sus scrofa. Aqui ganhou alcunha de porco selvagem. Bicho endemoniado.

Mata cachorro.

Mata galinha.

Acaba com um milharal numa noite.

Em Santa Catarina, Mato Grosso, Acre, Goiás, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná.

O bicho apavora.

Aqueles dentões pra fora.

(mas quando bebê é tão bonitinho)

Bonitinho, mas ordinário.

Cresce, mata bicho, come plantação e contamina a porcaiada com doença de Aujeszky, peste e cólera.

E transmite encefalite japonesa, brucelose, febre aftosa, leptospirose, tuberculose, parvovirose suína…

Uns 250 quilos de apocalipse de pêlo grosso em cima de quatro cascos.

Ocorre que essa desgraça não tem predador no Brasil. E, como diz a cartilha ambiental, o predador é o que mantém o equilíbrio na natureza. Então o Ibama oficializou a caça do bicho. Caça, não. Perdão. “Controle populacional.”

Temos assim autorizada há alguns anos, descartando o eufemismo, a temporada de caça ao javali-europeu no Brasil.

Mas não pode comercializar a pele nem a carne.

Comer pode.

Churrasco de javali é o que há.

E há relatos de que na temporada atual, em São Grigolo do Paraúna, Estado de Goiás, já morreram três caçadores.

Todos os três baleados.

Até o momento, ninguém descobriu quem é assim tão bom de mira.

 

Guilherme Melich

Arte: Guilherme Melich

Ex-Pedro

Chegou ansioso ao cartório Pedro.

- Aqui, vim mudar meu nome.

- Como é que é?

- Vim mudar meu nome.

- Calma aí, minha filh… meu fi…, quer dizer… você. Calma aí. Não é assim não, uai. “Vim mudar meu nome”…

- Tenho um papel do juiz aqui, ó.

- Ah, tem? Deixa eu ver isso aqui… Aham… Hmm… É mesmo. Você pode mudar seu nome.

- Não falei?

- E que nome será agora?

- Quero chamar isso aqui.

E estava lá num papelzinho: Pedrx.

- É isso que você quer chamar?

- Não é apenas um modo de chamar. É a manifestação de uma luta pela neutralidade de gênero, pela quebra dos paradigmas patriarcais, opressores e segregadores que afrontam a igualdade e suprimem as identidades sexualmente divergentes do establishment.

- Entendo. Mas como você vai pronunciar isso?

- Como assim “como você vai pronunciar isso”, moço? Que pergunta é essa?

- Pronunciar, uai. Como você vai falar seu nome?

- Com a boca, lindo! Que…

- Não, veja… quando alguém for te chamar na rua, na sua casa… Tipo… vai ser Pedréx? Ou vai ser Pedrx (o tabelião cospe perdigotos sem querer) mesmo?

- Não, ué, vai ser… ah… vai ser… hmm… ah, não sei. Ai, Jesus… o que é que eu faço?

- Você é muito apegado… digo, apegada… digo… quer dizer, você liga se a gente tentar outra opção?

- Tipo…?

E saiu feliz do cartório ex-Pedro, agora Juraci.

Das impropriedades

Maria Luíza era professora de português do ensino médio. Lecionava em uma escola pública e acabou se envolvendo sexualmente com Ederson. Ocorre que Ederson era seu aluno. E tinha apenas 14 anos.

Entre os meninos da escola, Ederson virou herói. Porque Maria Luíza, com seus 23, era uma senhora gata.

Nas internas, o pai do Ederson também achou o máximo.

Mas a mãe do Ederson não viu tanta graça.

Botou a Justiça na jogada.

Estupro de vulnerável.

E lá foi Maria cumprir oito anos no xadrez.

Ederson ficou mal com aquilo, porque gostava mesmo das aulas da Maria Luíza. De todas.

Bem comportada, ela saiu da cadeia após cinco anos e foi fazer mestrado e depois doutorado, vivendo com os pais e da bolsa de pós-graduação, já que ali pelas redondezas não achava emprego – sabe como é cidade pequena.

E reencontrou Ederson, agora estudante universitário, e iniciaram um namoro público e oficial.

Depois de cumprir a pena da Justiça, Maria Luíza cumpria agora, junto com Ederson, a pena das línguas. Aquele negócio de cidade pequena. E de não ter nascido em 1910. E não ser do show business.

A solução então foi meter o pé pra longe. Juazeiro do Norte, sertão do Ceará.

Alugaram um cafofo nas imediações da Praça Padre Cícero.

Agora Maria Luíza leciona na Universidade Federal do Cariri.

Ederson é professor na Escola Estadual Figueiredo Correa.

Começa o mestrado ano que vem.

E não vê a hora de voltar a ser aluno da Maria.

Publicidade

Top