JF. domingo 30 abr 2017
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Androides sonham com… Barcos?

Oi, gente.

A editora Novo Século lançou no ano passo o selo Geektopia para publicar séries da gringa Image Comics fora do consagrado – e saturado – formato de super-heróis da Marvel e DC. Os dois primeiros títulos lançados na nossa terra do mulato inzoneiro foram “The Wicked + The Divine”, ainda em 2016, e “Alex + Ada”, que acabou de chegar por aqui.

“Alex + Ada” é o primeiro trabalho totalmente digital de Jonathan Luna, que forma com o irmão Joshua os Luna Brothers (“Girls”, “Ultra”). Desta vez, porém, ele uniu forças com a escritora Sarah Vaughn para criar uma história de ficção científica em 15 capítulos que discute os limites do que é ser humano e até que ponto um robô, um androide, pode ser considerado uma propriedade ou ter direitos como os mamíferos pensantes que dominam esta esfera.

O personagem principal é Alex, um sujeito ordinário e de vida ordinária que tem passado os últimos meses na deprê de ter sido largado pela noiva. Vida social quase nenhuma, pouca vontade de se abrir a novos relacionamentos, passa os dias num estado de melancolia típico de quem ainda não se recuperou. Ele ganha da avó, que tem um “namorado” cibernético, a versão feminina do mais moderno androide já construído, uma Tanaka X-5 programada para satisfazer todas as ordens de seu dono – todas as ordens mesmo, incluindo as safadezas que você imaginou – mas sem capacidade de pensamento livre ou autoconsciência.

Depois de relutar, Alex decide ficar com o presente e batiza a androide com o nome Ada, mas não fica satisfeito. Falta algo à moça robótica, que além de seguir ao pé da letra as ordens de seu dono não possui qualquer traço de personalidade, na linha “se você gosta, eu gosto”. Ele vai parar em um fórum virtual secreto onde encontra pessoas com as mesmas frustrações, e descobre que pode “desbloquear” Ada – que, na verdade, tem no seu software a capacidade de autoconsciência e livre arbítrio, bloqueados após a primeira Inteligência Artificial senciente perder o controle e matar um monte de pessoas.

Apesar dos riscos, ele permite o “desbloqueio” da androide, e a partir daí “Alex + Ada” mostra todas as consequências do ato de Alex e vai fundo nas discussões que já se desenhavam desde a primeira edição, frequentes em diversas histórias de ficção científica, de “Eu, Robô” até “Star trek”: qual é a definição de vida? Androides podem ter os mesmos direitos de seres humanos? A autoconsciência robótica confere automaticamente a liberdade do construto? É possível ter consciência e não possuir alma? Robôs podem ser maus? Sonhar? Podemos ter a propriedade de algo que possui vontade própria, mesmo que tenhamos pago por ela?

“Alex + Ada” também consegue ter tempo e espaço para discutir nossas próprias aflições particulares, mostrando personagens que precisam lidar com a solidão, o isolamento, a dor da perda e a dificuldade de se relacionar num mundo em que todos podem estar conectados – o que fica evidente nas conversas transmitidas por pensamento e nos longos silêncios das interações cara a cara -, mas consegue desenvolver todas as histórias a contento.

Se existe algum defeito na série fica pela inexperiência de Jonathan Luna com a ilustração digital, que apresenta alguns problemas de proporção em vários momentos – e que se torna mais incômodo quando se percebe que a casa de Alex é muito maior por dentro que por fora, ou que os sofás, camas e mesas são gigantescos em relação aos personagens. Mas são poréns que impeçam “Alex + Ada” de ter uma história que mereça a leitura por parte de quem gosta de boas HQs.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

‘Guerras Secretas’: Mais forma que conteúdo

Oi, gente.

A notícia correu o mundo dos quadrinhos no início do mês: a Marvel decidiu dar um tempo nos megaeventos após suas revistas perderem espaço para os títulos da DC. Entre os motivos para a mudança, a fadiga entre os leitores com as sagas anuais que consomem dezenas ou centenas de títulos, e o fato de que a decisão da DC em apostar em aventuras menos interligadas e mais otimistas agradou à turminha que gosta de comprar apenas as revistas de seus personagens preferidos. De acordo com a Marvel, serão pelo menos 18 meses sem megassagas após o final de “Império Secreto” (com o Capitão América comandando a Hidra) e o quebra pau de “Inumanos versus X-Men”.

Por coincidência, a decisão foi divulgada quando eu finalizava a quase interminável maratona de “Guerras Secretas”, que se estendia desde meados de 2016, e posso dizer que a Marvel tomou a decisão certa. Quem já tentou acompanhar esses megaeventos surgidos nos anos 80, como “Crise nas Infinitas Terras”, as duas “Guerra Civil”, “Invasão Secreta”, “Crise Final”, “Dinastia M”, “Ponto de Ignição” etc. sabe que a grande maioria do material é descartável e não faria falta alguma. Todos esses eventos megalomaníacos podem até servir para organizar a casa (caso da pioneira “Crise…”, que acabou com a zona que era a cronologia da DC) e justificar a tese de universo interligado, mas a verdade é que esta foi a forma que as editoras arrumaram para faturar muita grana forçando os incautos a comprarem mais revistas do que costumam, sem esquecer dos posteriores encadernados “versão definitiva” recheados de extras.

E a “Guerras Secretas” – Versão Século XXI segue a mesma linha. Devo ter lido cerca de 95% do material publicado, o que dá mais de 200 revistas e quase cinco mil páginas. Não é pouca coisa. A desculpa da editora era promover um megaevento em homenagem aos 30 anos da “Guerras Secretas” original, e, ao mesmo, tempo revisitar histórias que marcaram gerações, como “Dias de um futuro esquecido”, “A Saga de Korvac”, “Futuro imperfeito”, “O Velho Logan”, “A Era do Apocalipse”, “Guerra Civil”, “Desafio Infinito”, “1602″, “Planeta Hulk”… Só que o resultado é decepcionante.

Tudo começou a ser preparado em 2013, quando Jonathan Hickman assumiu algumas das séries dos Vingadores e criou uma trama em que os Illuminati (Homem de Ferro, Senhor Fantástico, Doutor Estranho, Namor, Pantera Negra, Raio Negro e Fera – substituto o falecido Professor Xavier) tentam evitar a destruição do Multiverso, que se desenrola por meio da colisão de Terras de realidades diferentes – o que chama a atenção do Doutor Destino.

Quando tudo parece perdido e só restam os universos regular (616) e Ultimate (1.610), é descoberto que os Beyonders, criadores do Multiverso, decidiram acabar com todos os universos existentes. Quem entra em ação para salvar o que restou são o Doutor Estranho, Homem Molecular e Doutor Destino. A solução? Entregar o poder dos Beyonders para Victor von Doom, e aí o Doutor Destino reúne pedaços que restaram de alguns universos e cria uma nova realidade – o Mundo de Batalha, em que ele é o único e onipotente deus criador de tudo.

O plot em si é interessante. Doutor Destino é um vilão inteligente e empreendedor, daqueles que desistem nunca, e colocá-lo como o Deus Supremo do universo faz justiça à capacidade do soberano da Latvéria em aproveitar as oportunidades que surgem. Só que a minissérie principal, escrita por Jonathan Hickman e ilustrada pelo croata Esad Ribic, não se aprofunda nos dilemas que envolveriam uma divindade demasiadamente humana, com uma trama esparsa e encerramento ligeiro. As nove edições ficando perdidas entre as dezenas de tie-ins que compõem a trama geral.

Tanta historinha mais atrapalha que ajuda a trama a deslanchar, até porque a maioria é, como escrevi lá no início, descartável. Há histórias muito ruins, como “Futuro imperfeito”, “Corredores Fantasmas”, “Mundo Estranho”, “V-Force”, “Era do Apocalipse”, “Inferno”, “Anos de um Futuro Esquecido”, “Guerra das Armaduras”, “Ilha das Aranhas”, “Mestre do Kung Fu”, “Aranhaverso”, “Desafio Infinito”, “2099″ – e a pior de todas, “X-Men 92″, que é inspirada no desenho animado dos anos 90 e conta com a insuportável Jubileu.

Outras são interessantes, como “Esquadrão Sinistro” e “Thors”, ou divertidas por não se levarem a sério, casos de “As Secretas Guerras Secretas de Deadpool” e “M.O.D.O.C. Assassino”. No final, as únicas séries derivadas que valem a pena em todo esse fuzuê são “O Velho Logan”, “A Saga de Korvac”, “Guerra Civil” e as inacreditáveis “Onde os monstros habitam”, escrita pelo finado Garth Ennis, e a hilária “Hank Johnson – Agente da Hidra”.

O saldo final de “Guerras Secretas” é um evento pra lá de confuso, principalmente para leitores novatos. O megaevento sequer cumpre uma de suas premissas, que era provocar nostalgia entre os veteranos. As sagas revisitadas são, em sua maioria, muito inferiores às originais. E nem mesmo a justificativa de unificar os universos se sustenta, pois o Multiverso da Marvel nunca foi a confusão vista na DC pré-Crise. Quem conhece a Marvel sabe que o principal problema da editora do Homem-Aranha sempre foi a zorra total de linhas temporais alternativas, muito mais difíceis de organizar que o Multiverso – basta lembrar a ideia de jerico de trazer do passado a formação original dos X-Men.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Os perturbados são os mais evoluídos (ou como ‘Fragmentado’ pira o cabeção)

Oi, gente.

“Fragmentado” está em cartaz há semanas, no limiar de encerrar sua temporada em JF City, mas continua dando pano pra manga. Muito pano. E com muita manga. Não só porque o filme é bom demais, daqueles que você precisa assistir umas 17 vezes para pegar todas as nuances da história, da interpretação do James McAvoy, mas principalmente por tudo que ninguém, mas ninguém mesmo, esperava encontrar no longa do M. Night Shyamalan. Porque “Fragmentado” é um troço que te faz dizer “caraca!” várias vezes durante a exibição e soltar um “AAAAAAAHHHHH!!!” histérico na cena pós-créditos – principalmente se você…

Pausa. A partir de agora vamos comentar spoilers, e spoilers pesados. Por isso, SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A “FRAGMENTADO” E NÃO QUER SABER O FINAL, NÃO LEIA ESTA COLUNA ANTES DE ASSISTIR AO FILME. Porque VAMOS DAR SPOILERS.
Entendeu?
Mas não custa nada reforçar:
ALERTA DE SPOILER.
ALERTA DE SPOILER.
ALERTA. DE. SPOILER.

Continuemos.

“Fragmentado” é um troço que te faz dizer “caraca!” várias vezes durante a exibição e soltar um “AAAAAAAHHHHH!!!” histérico na cena pós-créditos – principalmente quando você percebe que o filme é a continuação de “Corpo fechado” e, por mais que isso pareça coisa sem importância para 94,3% da humanidade, você é um nerd que fica alucinado com qualquer referência besta de histórias interligadas. Como no caso da magrela de “Punho de Ferro” que contratou uma detetive para investigar uns caras e você berra “É a Jessica Jones! É a Jessica Jones!”.

São essas coisas que fazem de “Fragmentado” um filmão da (insira o seu palavrão preferido aqui). Começando pelo filme em si, que mistura no mesmo balaio suspense, thriller psicológico, terror, um plot twist que nem parece um plot twist e que no final você descobre que é continuação de um filme de 17 anos atrás e – por que não? – cria um universo de filme de criaturas com super poderes, um “Shyamalanverse”. Não é pouca coisa, convenhamos.

M. Night Shyamalan acertou na mosca que pousou em nossa sopa – e sem quebrar o prato – ao desenvolver com genialidade a história do sujeito com 23 personalidades diferentes que sequestra três gurias, obviamente aterrorizadas ao perceberem que ele tem 23 parafusos a menos e um objetivo não muito claro na cabeça. E que se torna um cara ainda mais perturbador quando se percebe que uma das personalidades consegue simular um dos outros “eus”. E quando descobrimos que a tal “Fera” alardeada por ele é uma Fera mesmo, com o personagem do McAvoy se transformando numa espécie de super-homem canibal aparentemente indestrutível? Para quem gosta de reclamar que o Shyamalan vive de se apoiar na muleta do plot twist, a revelação no terço final do longa foi uma sambada na cara maior que o Casamento Vermelho de “Game of Thrones”.

E aí vem a danada da cena pós-créditos. Ah migos e ah migas, o que dizer do David Dunn (Bruce Willis), o herói de “Corpo fechado”, aparecendo naquela lanchonete e você percebendo que “Fragmentado” é continuação de um filme considerado “decepcionante” – e ainda por cima lançado há 17 anos? É coisa que faz a gente gritar e querer dar um abraço em quem estivesse ao nosso lado. É de cair o cachorro do caminhão de mudança ficar duas horas no cinema e não perceber que o cara criou uma franquia. É de se perguntar como o Shyamalan conseguiu fazer todo mundo, mas todo mundo mesmo, guardar um segredo desse tipo por tanto tempo: ninguém contar que um filme é continuação do outro, que o Bruce Willis participou do longa… Num tempo em que é preciso colocar nos trailers os plot twists do filme, segurar uma revelação dessas é coisa rara.

Daí você PRECISA ASSISTIR a “Corpo fechado”. E aí você percebe como os lances fazem sentido, como tudo se encaixa, ainda mais quando você descobre que o vilão de “Fragmentado” só não apareceu no primeiro filme porque seria “informação demais”. Que os cartazes dos dois filmes são parecidos e indicam que fazem parte do mesmo universo. Não vamos entregar tudo, mas podemos citar, por exemplo, quando o Sr. Vidro pergunta para o David Dunn se ele não teria escolhido (inconscientemente) trabalhar como segurança por causa dos seus poderes. Não é coincidência, certo?, que o Kevin do James McAvoy trabalhe em um zoológico antes de se tornar a Fera – ou A Horda, como é chamado no final do longa.

E posso estar numa vibe “teoria da conspiração”, mas juro que há uma cena em que você pode ver originais de quadrinhos em que aparecem duas ilustrações muito parecidas com a Fera de “Fragmentado”.

Considero uma bobagem gigantesca esse papo de que o M. Night Shyamalan “voltou à boa forma”, pois “Fragmentado” apenas reforça o talento do cineasta indiano para criar histórias que prendem o espectador. É um filme excepcional e surpreendente por todas as razões citadas, sem contar outras que descobriremos mais além. E estou com uma vontade danada de que esse rapaz lance o mais rápido possível um “Fragmentado 2″, de preferência com David Dunn e Kevin partindo pra porrada.

Os nerds gostam de sonhar alto. E os perturbados são os mais evoluídos.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Filmes que gostaríamos de assistir

Oi, gente.
Na última semana comentamos sobre os personagens ou séries de quadrinhos que gostaríamos de ver na televisão, e esta semana vamos passar a geral em algumas HQs que caberiam muito bem na tela grande. Como escrevemos semana passada, já temos filmes de heróis agendados até a próxima década, mas não custa nada – mais uma vez – sonhar alto. Até porque não falta personagem interessante por aí.

Tropa Alfa
A Tropa Alfa pode até fazer parte da quinta divisão das super equipes da Marvel atualmente, mas quando comecei a ler quadrinhos, em 1988, eles só perdiam para os X-Men e Quarteto Fantástico. Cortesia do mestre John Byrne, criador da versão canadense dos Vingadores. Não seria nada mal acompanhar as aventuras do time formado pelo Guardião, Sasquatch, Estrela Polar, Aurora, Pigmeu, Pássaro da Neve, Shaman e Marrina, que enfrentaram ameaças como a Tropa Ômega e As Grandes Bestas, figuras da mitologia do Canadá.

Patrulha do Destino
Ter que disputar popularidade com a Liga da Justiça, Novos Titãs e Legião dos Super-Heróis não é fácil, imagine então quando sua equipe é formada por bizarrices como a Patrulha do Destino. Mas, depois que Deadpool zoou todo o barraco cinematográfico, não seria má ideia arriscar colocar no universo da sétima arte a fase escrita por Grant Morrison, que aproveitou o fato da Patrulha ficar de escanteio na editora para colocar a equipe enfrentando a Irmandade do Dada e o Candelabro, além de personagens como Flex Mentallo (O Homem dos Músculos Mistério), A Pintura Que Devorou Paris e Danny, A Rua. Dá até para imaginar Terry Gilliam na cadeira de diretor.

Nêmesis
Muita gente torceu o nariz para a minissérie escrita por Mark Millar e Steve McNiven, mas a verdade é que “Nêmesis” é irresistível em seu absurdo apelativo e escancarado, que não tem vergonha de dizer “olha, fui escrita para virar filme” – tanto que Millar e McNiven já venderam os direitos cinematográficos da história. A premissa é simples: o que aconteceria se o Batman fosse o maior vilão do mundo? O tal Nêmesis é um criminoso bilionário que comete atrocidades por todo o mundo, provocando milhares de vítimas a cada ataque. O objetivo dele é derrotar e desacreditar os maiores detetives do mundo, e até que ele tem sucesso na empreitada. Só não coloquem o Michael Bay na direção, por favor.

Elektra Assassina
Nossa ideia é evitar personagens que já apareceram no cinema ou TV, mas a Elektra tem sido tão maltratada nas duas mídias que resolvemos imaginar como seria se a Marvel fizesse um filme baseado na minissérie “Elektra Assassina”, escrita por um Frank Miller em sua melhor fase e que contava com as ilustrações alucinadas de outro mestre, Bill Sienkiewicz. A história, que se passa antes da personagem ser morta pelo Mercenário, mostra Elektra tentando impedir os planos da Besta, o líder supremo do Tentáculo que tomou posse do corpo do presidente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que tem que lidar com S.H.I.E.L.D.

We3
Grant Morrison também gosta de criar minisséries magistrais, e “We3″ é uma delas. Ao lado do desenhista Frank Quietly, ele conta a história de três animais fofinhos (um cão, um gato e um coelho) que são transformados em ciborgues assassinos para eliminar inimigos dos Estados Unidos. Só que os bichinhos acabam parando no meio do mundinho civil, e tome carnificina para todos os lados. O que torna a história ainda mais poderosa é o questionamento que as próprias cobaias fazem a respeito de seus atos.

Doutor Destino 2099
Nenhum, nenhum personagem da Marvel sofreu mais nas mãos da Fox que o Doutor Destino, nosso malvado favorito. Por isso, não haveria redenção maior que um filme baseado no personagem do Universo 2099 da Marvel. Nessa versão futurista, Victor von Doom vai parar no limiar do século XXII e descobre que sua Latvéria foi transformada no feudo de um vilão de terceira categoria. Como Destino é um cara empreendedor e que desiste nunca, ele não só recupera o trono de sua terra natal como aproveita para, enfim, conquistar os Estados Unidos.

De todas essas ideias, “Nêmesis” deve ser a única a se tornar realidade, mas é aquela velha história: quem sabe? Vai que…?

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Séries que gostaríamos de assistir

Oi, gente.

A TV e o cinema descobriram nos quadrinhos um filão inesgotável (em termos de quantidade) para produzir filmes, séries e animações. Sem fazer muita força, podemos listar apenas na televisão seriados como “Agents of S.H.I.E.L.D.”, “Demolidor”, “Arrow”, “Preacher”, “Luke Cage”, “Supergirl”, “Flash”, “Legends of Tomorrow”, “Jessica Jones”, “Gotham”, “Lucifer”, “I, Zombie”, “Powerless” e “Punho de Ferro”, entre outras, além das vindouras “Justiceiro” e “Defensores”. Parece muito, não? Mas o fã de HQs é um sujeito tinhoso, que sempre vai pensar “ah, mas bem que poderiam fazer uma série com fulano”, por isso fizemos a nossa lista de quadrinhos que gostaríamos de ver na televisão. Vamos às escolhidas.

Cavaleiro da Lua
Figura desconhecida para quem não conhece as entranhas do Universo Marvel, o Cavaleiro da Lua seria o personagem ideal para a parceria entre Marvel e Netflix no microcosmo urbano em que vivem Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Marc Spector é um mercenário que foi deixado para morrer no Egito por seus parceiros durante uma missão e é salvo por Konshu, o deus da Lua, ao aceitar ser o seu representante no mundo dos vivos. Ele assume então o manto do Cavaleiro da Lua, deitando porrada nos caras maus. Além de violento e urbano, Marc Spector sofre de esquizofrenia.

Sandman
Há vários anos rolam os boatos em Hollywood que o personagem reinventado por Neil Gaiman vai ganhar um filme, mas “Sandman” seria perfeito na televisão. Dá até para imaginar um canal como o HBO materializando as histórias de Sonho dos Perpétuos em seu universo onírico, com todos os demônios e criaturas fantásticas que o rodeiam. Qual fã não gostaria de assistir sem atropelos a histórias como “Vidas breves”, “A Estação das Brumas” e “Um Jogo de Você”? “Preacher”, adaptação de outra HQ da linha Vertigo, já mostrou que é possível levar quadrinhos adultos – e violentos, neste caso – para a telinha.

Os Invisíveis
Ok, esta talvez seja mais difícil, pois a série escrita por Grant Morrison entre 1994 e 2000 trabalha com alguns conceitos difíceis de digerir, além de ter muito sexo, drogas e violência – nada, porém, que uma Amazon ou uma Netflix não conseguisse resolver. Uma das inspirações para “Matrix”, “Os Invisíveis” mostrava uma célula anarquista tentando evitar que criaturas transdimensionais transformassem a humanidade em carneirinhos consumistas e alienados antes de rasgarem o tecido da realidade e conquistarem nosso planeta. Só as citações à cultura pop do século XX já valeriam a viagem.

Sweet Tooth
Criação de Jeff Lemire, “Sweet Tooth” foi uma das séries mais legais que li nesta década. A história se passa dez anos após uma praga conhecida como “O Flagelo” exterminar quase toda a humanidade, sendo que todas as crianças nascidas desde então são híbridas de humanas com animais – incluindo o protagonista, Gus, com traços de cervo. Ele e outros de sua espécie são caçados por vilões que têm planos nada saudáveis para os pobrezinhos. Além de não exigir muito em efeitos especiais, “Sweet Tooth” tem aquele clima de pós-apocalipse que faz tanto sucesso na TV, e um final de cortar o coração.

Y: O último homem
Mais uma HQ a ser considerada para a TV ou cinema, ela mostra um mundo em que todos os mamíferos machos – ou seja, com o cromossomo Y – morrem instantaneamente ao mesmo tempo, sem nenhum aviso prévio, com exceção do ilusionista Yorick e seu macaco de estimação, Ampersand. Ou seja: nada de Obama, Trump, Temer, Radiohead, U2, Patrick Stewart ou Cauã Raymond. Com 60 edições, a criação de Brian K. Vaughn mostra um mundo mergulhado no caos, em que as mulheres precisam assumir funções geralmente dominadas pelos homens e conviver com a noção de que estão fadas às extinção, pois até mesmo os espermas congelados morreram. Ah, e algumas moças, convencidas de que a natureza fez a coisa certa, decidem completar o serviço passando fogo no pobre Yorick.

Planetary
A minha série preferida nos quadrinhos não poderia faltar. Warren Ellis faz em menos de 30 edições uma homenagem à cultura pop do século XX, incluindo quadrinhos, faroestes, seriados japoneses, ficção científica, literatura pulp, filmes B e outras paradas nas aventuras do Planetary, equipe formada por Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista que tem a missão de desvendar “a história secreta do século XX”. Também conhecidos como “Arqueólogos do Impossível”, eles têm como antagonistas uma versão maligna do Quarteto Fantástico, que vem mexendo os pauzinhos há décadas para controlar o destino da humanidade.

Imaginar que todas essas HQs possam se transforma em séries com personagens de carne e osso não deixa de ser utopia, mas nós que vivemos com a cabeça nestes universos fantásticos merecemos, pelo menos, o direito de sonhar. E se rolar, rolou.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Sobre obsessões musicais, Jens Lekman e a canção pop perfeita

Oi, gente.

A Leitora Mais Crítica da Coluna sabe como eu levo música a sério. Já virou piada interna a mania de não desligar o som do carro enquanto a música não termina (ou não deixar a próxima começar se eu sei que não poderemos ouvi-la até o final), ou deixar um álbum pela metade quando estamos em casa, entre outras obsessões. Não sei se é coisa de louco, mas com certeza é ter certas prioridades na vida que parecem não fazer o menor sentido – pelo menos para quem ouve qualquer coisa que toca na rádio ou vai atrás do bloco do hit da estação.

É por levar música tão a sério que às vezes traço paralelos delirantes entre a indústria cultural/fonográfica e a condição humana. Um mundo em que existem tantas guerras, ódio, corrupção, intolerância, preconceito, radicalismo religioso, insensibilidade, por consequência é um mundo em que se ouve tanta música pop ruim, pré-fabricada, com artistas descartáveis na linha one hit wonder e pelos quais as pessoas são capazes de ir a um show para ouvir apenas uma música.

E tem mais: boy bands e girl bands reproduzindo os mesmos estereótipos há 30, 40 anos, que são substituídos a cada dois anos e massacram o nosso combalido dial, arrastando multidões ávidas pelo mais do mesmo da vez. Cantoras pop que não compõem, são afinadas apenas com a ajuda do Auto-tune e precisam usar apenas dez centímetros quadrados de roupa para chamar atenção; e rapazes bonitões que posam de sex symbols mas, na verdade, precisam ocultar sua verdadeira orientação sexual (olá, Ricky Martin) namorando alguma gostosa.

Não acredito, porém, que seja manipulação. É tudo uma questão de não se levar a música, a arte, a sério. É aquela diversão ligeira que só precisa satisfazer o momento e ser esquecida em cinco minutos. A trilha sonora da noitada regada a algum bagulho que mistura álcool e energético; pode dar ressaca, mas vamos para outra que tudo é baseado no efêmero mesmo, quantidade sobre a qualidade.

Mas eu nem pretendia ser este sujeito azedo dos quatro parágrafos acima. Eu queria, e ainda quero, é dizer que existe esperança para a boa música pop, que existe gente capaz de criar canções que podem salvar nossos dias. Que o mundo é também habitado por pessoas como o sueco Jens Lekman, que lançou em pleno 2017 uma maravilha sonora chamada “Life will see you now”, seu quarto álbum de estúdio e que pode ser ouvido nos melhores serviços de streaming da praça.

Jens Lekman faz parte do meu universo sonoro há cerca de dez anos, quando descobri por meio de amigos os seus dois primeiros álbuns (“When I said I wanted to be your dog” e “Night falls over Kortedala”) e a coletânea de EPs “Oh you’re so silent Jens”. Era um pop de câmara inspirado, de letras irônicas, singelas, sobre relacionamentos e histórias que habitam a zona fora da normalidade. Como não se apaixonar por uma música como “You’re are the light (By which I travel into this and that)”, em que Jens dizia ter sido preso e usado sua única ligação para dedicar uma canção na rádio à namorada? Ou “A postcard to Nina”, em que se oferece para namorar uma garota lésbica e, assim, despistar a família da moça? Sem contar outras canções fabulosas como “Maple leaves”, “Psychogirl”, “Black cab”, “I saw her in the anti war demonstration” e “And I remember every kiss”.

“Life will see you now” chega quase cinco anos após o lançamento do terceiro álbum, “I know what the love isn’t”, e de outros projetos que o cantor e compositor sueco tocou durante o período. Um deles foi “Postcard”, de 2015, em que lançou 52 canções (uma por semana) em seu site e no SoundCloud, e o projeto “Ghostwriting”, em que transformou em música histórias contadas a ele em instalações na Suécia e nos Estados Unidos.

E esses dois projetos foram fundamentais para dar corpo ao novo álbum. De “Postcard” Jens Lekman trouxe as experiências com batidas eletrônicas, e de “Ghostwriting” a decisão da cantar também histórias sobre outras pessoas. O resultado? Um disco irresistível do início ao fim, em que o pop de câmara característico de Jens Lekman se junta a ritmos como a disco music e o calipso (e samba!) para contar histórias sobre amizade, amor, morte, relacionamentos, tudo com uma sensibilidade pop e uma diversidade imensa de cores musicais capazes de provocar sinestesia no ouvinte.

Canções como “How we met, the Long Version” (em que Jens Lekman estica o início de um relacionamento até o Big Bang), “To know your mission” (sobre o encontro com um mórmon), “Hotwire the Ferris Wheel” (com Tracey Horn, do Everything But The Girl), “Evening Prayer”, “Postcard #17″, “How can I tell him” e “What’s that perfume that you wear?” fazem de “Life will see you now” um dos melhores álbuns de 2017, aquele momento em que as canções pop perfeitas tomam vida em nossos aparelhos auditivos e nos fazem acreditar que este mundo pode, sim, ter salvação. Basta as pessoas ouvirem as canções certas.

E prepare-se, Leitora Mais Crítica da Coluna: este álbum vai tornar minhas obsessões ainda maiores quando ele estiver rolando no carro ou em nossos aposentos imperiais. Mas você vai concordar que desta vez, pelo menos, minhas manias farão todo sentido.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

‘River’: Mas que minissérie, senhores! (E ainda tem música da Tina Charles)

Oi, gente.

Eu já tinha lido há alguns meses críticas entusiasmadas a respeito de “River”, minissérie policial da BBC que faz parte do catálogo da Netflix, mas faltava tempo e oportunidade. Daí que a oportunidade surgiu há cerca de duas semanas, quando A Leitora Mais Crítica da Coluna e Antônio, O Primeiro de Seu Nome, partiram para o Principado de Andrelândia e a maioria das séries que acompanho estavam devidamente atualizadas. Foi hora deste seu amigo (e o Imperador Django) abrir o sofá-cama e iniciar a maratona de seis episódios. E que minissérie, senhoras e senhores, que minissérie!

O personagem principal é John River (Stellan Skarsgard), detetive nascido na Suécia mas que trabalha para a polícia de Londres. O sujeito é competente até dizer chega, resolvendo cerca de 80% dos casos, mas extremamente fechado, de poucos amigos, considerado excêntrico – e até mesmo louco – pela maioria dos colegas. O motivo? Ele conversa com gente morta; aliás, não “gente morta”, mas sim pessoas que ele imagina que estão ali, desde vítimas de casos que ele investiga a suspeitos, e um psicopata que viveu no século XIX e que age como sua consciência.

É neste fio da navalha entre realidade e esquizofrenia que trafega John River, obcecado em descobrir quem matou sua parceira, Stevie (Nicola Walker), ao mesmo tempo em que enfrenta a desconfiança de quem está a sua volta, que não entende como um sujeito que fala com o nada pode continuar na Polícia. Essa instabilidade emocional é muito bem utilizada pela criadora da minissérie, Abi Morgan, pois enquanto a trama se desenrola a “personalidade” das pessoas que River imagina ver vai se modificando de acordo com as descobertas feitas à medida que a investigação vai mais a fundo no crime, que esconde um rastro de corrupção, imigração ilegal e outras reviravoltas realmente inesperadas. O próprio personagem mostra o quanto esse conflito realidade/delírio afeta a sua conduta, que vira uma montanha-russa de emoções que podem ir da simpatia contida à fúria indomável.

Se a história é boa, o elenco é um show à parte. Stellan Skarsgard, o ator favorito de Lars Von Trier (e o Dr. Eric Selvig nos filmes da Marvel), mostra porque é considerado um dos grandes atores da atualidade. Suas atuação como John River é arrebatadora, mostrando um homem amargurado, transtornado pelos problemas psiquiátricos, ciente do dever e com uma relação mal resolvida com a parceira defunta, captando todas as nuances da personalidade do detetive. A Stevie de Nicola Walker é divertida, sensual, dissimulada (pelo menos aos olhos de River) e com um terrível segredo a ser revelado; seu novo parceiro, Ira (Adeel Akhtar), faz de tudo para conquistar sua amizade, e até mesmo finge ignorar os surtos esquizofrênicos; a chefe, Chrissie (Lesley Manville), com quem mantém uma amizade de anos, é sua principal linha de defesa na delegacia, e ao mesmo tempo sofre por ver seu casamento desmoronar devido à distância que ela e seu marido, que é juiz, impuseram um ao outro.

“River” é das melhores produções que surgiram na TV nos últimos tempos, com uma trama densa, inteligente, bem amarrada e que entrega vários segredos no decorrer dos capítulos, e mesma assim tem muito a revelar em seu desfecho. Se tudo isso não for suficiente para o ah migo leitor e a ah miga leitora darem uma chance para “River”, a minissérie toca “I love to love”, da Tina Charles, no primeiro e último episódios, o que deixa a gente muito feliz.

Ah, e a quinta temporada de “The americans”, a melhor série de TV do universo, estreou no Fox1. E já começou chutando todas as bundas. Nem preciso dizer que é imperdível.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

‘Midnight Diner: Tokio stories’, um japonês para abrir o apetite

Oi, gente.

Já comentei em outras oportunidades sobre a dificuldade em acompanhar todas as séries legais que rolam por aí, por falta de tempo e outras questões existenciais. E como gostamos de complicar e ser criaturas contraditórias, como diria o Imperador Django, aproveitamos para acompanhar outros seriados que nem são tão badalados assim, mas pelos quais somos arrebatados e – pimba! – lá vamos nós assistir de cabo a rabo “Midnight Diner: Tokyo stories”, que está no catálogo da Netflix e conquistou no ato da matrícula este coração leviano.

Eu descobri “Midnight Diner” graças a uma postagem facebookiana do inoxidável W. Del Guiducci, o que mostra que a internet não se resume a pós-verdades cretinas. A série é adaptação televisiva que a rede japa TBS fez do mangá “Shinya Shokudô”, de Yarô Abe, com três temporadas de dez episódios cada entre 2009 e 2014 e uma versão para o cinema lançada em 2015, sendo que a Netflix disponibilizou em outubro de 2016 o “quarto ano” do programa.

A série tem como cenário principal um misto de restaurante e lanchonete que funciona em Tóquio entre a meia-noite e as sete da manhã, servindo de ponto de parada para quem está começando a noite ou quer relaxar antes de chegar em casa. Porém, ao contrário do visual feérico mostrado na abertura, com todas as luzes e agitação noturna da capital japonesa, o restaurante – que mais parece um acolhedor boteco de quinta categoria – fica num buraco que apenas os mais experientes nas quebradas de Tóquio vão conhecer. O único funcionário do estabelecimento é o seu proprietário, conhecido apenas como Mestre, de quem não se sabe nada, apenas que tem uma cicatriz bizarra em um dos olhos. O cardápio contém uma única opção, mas o Mestre prepara qualquer refeição pedida desde que tenha os ingredientes – ou que os frequentadores os comprem.

Os personagens principais de “Midnight Diner: Tokyo Stories” são, na verdade, os clientes. Cada episódio – marcado pela preparação de um prato diferente – conta a história de personagens comuns, que podem ser radialistas, taxistas, prostitutas, advogados, professores, comediantes, e até mesmo um ator pornô entra na parada. Todos passam pela bancada do restaurante, em que contam para o Mestre e outros clientes seus problemas e compartilham seus problemas e alegrias particulares, com muito humor, melancolia e algum drama, com tipos tão diferentes convivendo de forma harmônica e, ao mesmo tempo, mostrando como a cultura oriental pode ser tão diferente da informalidade que vemos no nosso cotidiano.

A parte gastronômica do seriado é um espetáculo à parte para quem gosta de um bom prato e serve para mostrar a relação quase religiosa que o japonês tem com a comida. Há toda uma variedade de refeições, que vão do omelete de arroz ao empanado de presunto, passando pelo tonteki, corn dog e umeboshi. São pratos que, em sua maioria, dão vontade de viajar para o Japão no próximo avião e tentar encontrar o restaurante do Mestre.

Com pouco mais de 20 minutos por episódio, “Midnight Diner: Tokyo Stories” é a sugestão ideal para quem está com tempo para um “rapidinha televisiva” ou engatar uma pequena maratona no final de semana. Os efeitos colaterais, porém, são imediatos: a ansiedade pela próxima temporada e uma vontade irresistível de se jogar na culinária japonesa.

Nagai raibu to han’ei. Soshite,-gyo ni kansha. Ou algo parecido.

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