JF. terça-feira 27 jun 2017
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Dói na alma

Por ossos do ofício, tive a oportunidade de acompanhar as ações da Comissão da Verdade de Minas Gerais na visita do colegiado a Juiz de Fora durante a semana. Tive também o prazer de conhecer Emely Vieira Salazar e Carlos Melgaço, duas histórias marcadas por um passado truculento que se mostrou incapaz de minimizar sonhos e simpatia. Acompanhei os dois na visita à Penitenciária de Linhares, onde permaneceram cativos durante a Ditadura Militar por conta de seus matizes ideológicos. Presos antes de um julgamento formal, frise-se. Ouvi também depoimentos de pessoas vítimas de torturas e abusos físicos e psicológicos. Testemunhos que não me machucaram a carne, mas doeram fundo na minha alma que ainda insiste em acreditar no ser humano.

Por que digo isto em uma coluna de esporte? Tento explicar mais adiante. Deixa eu voltar à audiência pública, quando todo um cenário de violência protagonizado por forças do Estado foi remontado por depoimentos de sobreviventes. Lá, percebi alguns presentes que tentavam negar a truculência praticada pelo regime militar, ignorando o fato de as Forças Armadas já terem reconhecido a ocorrência de desaparecimentos e mortes durante a Ditadura. Eram poucos, mas estavam lá. Tal comportamento não me machucou a carne, mas doeu fundo na minha alma.

Não importa em qual lado você está do tabuleiro ideológico. Não importa se é de direita, de esquerda, de centro, de cima ou de baixo. Não importa. Negar tais testemunhos, negar a história, negar a prática de tortura durante o regime militar é basicamente validar a institucionalização da violência mais banal e desprezível. É cruel. É desumano. É intolerante.

Negar a tortura é agir como os bárbaros que se agridem e se matam nas ruas e estádios por não respeitar o direito do outro de torcer por uma agremiação esportiva diferente da deles. É concordar com grupo de torcedores do Coritiba que chutaram um corintiano caído no chão por quase um minuto no último domingo. Poderia ter sido o contrário, eu sei. Independentemente de camisa, toda violência é algo que dói fundo na alma e não pode ser relativizada.

Passos de tartaruga

Apesar de aparentar estar parada no tempo, a cartolagem da Conmebol se movimenta a passos de tartaruga. Nesta última quinta-feira (15), enfim, o presidente da entidade que comanda o futebol sul-americano parece ter enxergado o óbvio e saiu em defesa de um jogo único para a decisão da Libertadores a partir de 2018. O modelo, com sede definida, é mais do que testado e aprovado na Europa. Rio de Janeiro, com o Maracanã, e Lima, capital do Peru, já aparecem como candidatas a receber o evento.

Gosto do formato por vieses distintos. O primeiro e, talvez, mais relevante é pela questão esportiva. Uma decisão em jogo único e campo, em teoria, neutro potencializa o espetáculo e minimiza regras esdrúxulas como a dos gols qualificados para apontar o campeão. Outro ponto é que o formato é muito mais convidativo. Como ocorre com a decisão da Champions League, com a escolha de uma data sensata, podemos enfim atrair os olhos esportivos do mundo para a competição continental, por vezes, escanteada em um cenário regional.

Por último e não menos importante há o aspecto turístico. Se a escolha para a final da Libertadores em 2018 for Lima, por exemplo, e a definição for divulgada de forma antecipada, não tenho dúvida alguma de que irei propor a alguns amigos encarar a viagem, desbravar um pouco mais nossa tão latina América e acompanhar a decisão de perto. Isto independentemente de as equipes envolvidas, pois o que vale neste caso é o pacote completo.

Esculhambação

Menina dos olhos do torcedor brasileiro, a Seleção Brasileira de Tite entra em campo logo nas primeiras horas desta sexta-feira (9). Já classificada para a Copa do Mundo da Rússia, a equipe trouxe sossego para o sempre conturbado ambiente da Confederação Brasileira de Futebol, envolvida em suspeitas de picaretagens desde sempre. Porém, nem a boa fase do time canarinho é capaz de poupar a tal CBF de críticas. Por aqui, vão as minhas. A entidade máxima do futebol tupiniquim é uma esculhambação, incompetente até para gerir seu principal produto nacional: o Campeonato Brasileiro.

O que aconteceu na última rodada do Brasileirão, e se repetirá nos jogos de fim de semana, é algo inadmissível. Nada menos que 11 dos 20 times envolvidos no certame tiveram e terão desfalques por conta de convocações das seleções nacionais para amistosos. Amistosos estes que seguem datas previamente definidas pela Fifa. Nada menos que 17 jogadores considerados de ponta no cenário local estarão de fora, comprometendo a competitividade e o aspecto desportivo do certame. Isto só acontece pelo simples fato de a CBF se mostrar incapaz de desenvolver um calendário minimamente organizado.

Olha que o desafio não é tão desafiador assim. Basta que se tenha coragem de peitar os interesses das federações estaduais e tornar mais enxuto os torneios estaduais. Mas, ao que parece, falta interesse para os donos da bola comprarem esta briga. Até porque o grosso dos votos que definem os dirigentes da CBF vem destas mesmas federações. Ou seja, pensar que a cartolagem vai peitar os filiados é o mesmo que acreditar que o Congresso Nacional quer, de fato, fazer a reforma eleitoral que o país precisa e, assim, ameace a manutenção dos mandatos dos atuais donos das cadeiras. Assim como o país, a mania de legislar em causa própria também é danosa ao nosso futebol.

Bom começo

Foram só três rodadas até, mas eu diria que o Brasileirão de 2017 começou de forma bem interessante. A média de gols surpreende – 2,63 bolas na rede por partida – e é quase 10% maior que a do ano passado (2,41), que já havia sido superior a de 2015 (2,36) e 2014 (2,26). Já tivemos alguns grandes jogos recheados de reviravoltas. Foi assim no duelo entre Santos e Fluminense; no embate entre Bahia e Atlético Paranaense; na virada do Sport para cima do Grêmio; e no eletrizante Vasco e Flu, decidido nos minutos finais. Ainda é cedo para previsões, mas é inegável que tivemos um começo de certame mais convidativo que o de anos anteriores.

Bacana também está a disputa pela ponta por equipes que, antes de a bola rolar, dificilmente apareciam como postulantes ao título. Ok! São só três rodadas, o que é incipiente para embasar qualquer exercício de futurologia. Mas, até aqui, Chapecoense, Corinthians e Cruzeiro fazem um Campeonato com C maiúsculo e, dentro de campo, têm mostrado um futebol mais coletivo e eficiente, capaz de desbancar os badalados elencos de Fla, Palmeiras e Atlético – os dois últimos figuram como decepção do torneio até o momento – da briga pela ponta da tabela.

Se o Brasileirão traça um roteiro alheio às expectativas, o que não me surpreende é a capacidade do futebol brasileiro se reinventar – um bom exemplo é a Seleção de Tite. Os dirigentes continuam fedendo à picaretagem. A geração de jogadores está bem distante das melhores da história. Ainda assim, consigo me surpreender com coisas banais do nosso esporte preferido. Não temos os melhores torneios do planeta, mas, temos os mais apaixonantes. Por mais que a molecada de hoje tenha os olhos voltados para a Europa, para mim, a final da Champinons League deste sábado será apenas uma boa preliminar para a rodada do Brasileirão.

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