JF. sábado 25 mar 2017
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Quem não sonhou…

Esqueçam Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar. A realidade de 99,9% dos jogadores de futebol é bem mais dura do que a que acompanhamos nas “selfies” cheias de sorrisos e beldades dos craques mais badalados. A maior parte não tem carrão importado, apesar de grande parte se esforçar em manter um cabelo da moda e a marra típica dos boleiros – mania compartilhada por muitos peladeiros de plantão.

A esmagadora maioria dos boleiros vai para treinos de transporte público, a pé ou de carona com o veterano que veio jogar em um clube de pequeno porte a troco de um último tostão – vale lembrar que a profissão tem vida curta, o que inviabiliza aos atletas a se aposentarem apenas com os serviços prestados em campo. Alguns até conseguem descolar um carango velho, mas a gasolina pesa no bolso. Muitos, aliás, sem grana para bancar um local para morar, amontoam-se em alojamentos de estrutura duvidosa.

O grosso dos profissionais vem de família pobre e convive com a frustração de não ter conseguido juntar o tal pé de meia ou alcançar a incensada independência financeira. Quase todos moram distante de familiares, sem “cascalho” ou tempo – a jornada é das mais pesadas – para visitar, pai, mãe, irmão, cachorro. Enquanto muito trabalhador comum vive de bico, vários atletas vivem de “bichos” – ou da promessa de que a gorjeta irá engordar seus parcos vencimentos.

Em suma, a vida de jogador não é fácil. Trata-se de uma profissão ingrata, de baixos salários e contratos temporários de enorme fragilidade jurídica. Sempre à mercê de empresários e cartolas mais preocupados em burlar acordos para embolsar “unzinho”. A maioria é abandonada a deus dará a cada final de torneio, sem a certeza de estar empregada nos meses subsequentes.

Enfim, a aprovação de algumas “flexibilizações” e “concessões” nas regras trabalhistas por parte do Congresso e outras propostas em andamento podem ser capazes de realizar um grande sonho do “brasileiro”: transformar todo e qualquer trabalhador em um “jogador de futebol”.

Triste oportunismo

A debandada de patrocinadores do Boa Esporte após a contratação do goleiro Bruno se justifica. Nenhum empresário em sã consciência gostaria de aliar a sua marca ao jogador. Não preciso me ater a detalhes. O histórico macabro fala por si só. Discuti bastante o assunto ao longo da semana, e confesso que me vi em uma certa “encruzilhada”.

Sempre defendi a ressocialização de apenados após o cumprimento de suas penas. Sempre entendi que a reinserção é esforço genuíno para evitar casos de reincidência e combater a recorrência de atos criminosos. Sempre considerei humano dar uma segunda chance. Mas, infelizmente, é difícil encaixar Bruno em tal cenário.

Afinal, ele não cumpriu sua sentença e está solto com aval da burocracia judiciária nossa de cada dia. O caso em que se envolveu é macabro demais para que se valha da fama para furar a fila do pão e garantir um contrato para disputar a Série B do Brasileirão. É óbvio ululante que não se trata, neste caso, de ressocialização, reinserção ou mesmo de ambições no campo desportivo, mas de uma estratégia de marketing tétrica.

Faço aqui um mea culpa. Se o Boa quer capitalizar com a contratação de Bruno é pelo fato de a mídia sempre tentar lucrar com factoides sobre o jogador e parte da população se manter curiosa por sangue e sanguinários. Além de Justiça e de reinserção quando e se cumprir sua pena, o goleiro merece o ostracismo.

PQP!

“PONTE QUE PARTIU*”! O grito coletivo foi entoado por diferentes vozes na redação. Repetido em modo “looping” por uma eternidade de 30 segundos, até o momento em que o chefe, em sua sensatez corriqueira, pediu desculpas ao pessoal que não é muito ligado ao futebol e não estava paralisado e embasbacado em frente à TV. Após a ponderação, com a delicadeza de um bufão, repeti uma vez mais: “PONTE QUE PARTIU*! É PONTE QUE PARTIU* MESMO!”

Estávamos todos boquiabertos na tarde de quarta (8) com o que aconteceu no Camp Nou, na absurda goleada do Barcelona sobre o Paris Saint Germain. Entre as ocupações do cotidiano, muitos acompanharam o jogaço com o ouvido e um olhar de canto olho entre um lance mais agudo e outro. A obrigação foi momentaneamente deixada de lado somente nos sete minutos que se seguiram ao gol de falta de Neymar, aos 44 minutos do segundo tempo. O Barça ainda precisava de dois gols e um improvável 6 a 1.

Dizem que jornalista tem faro apurado para grandes histórias, e acho que foi por isso que um pequeno bolinho se formou à frente da TV. Estávamos certos e pudemos, nos sete minutos seguintes, assistir a parte da história do futebol mundial ser reescrita diante de nosso próprios olhos. PONTE QUE PARTIU* MESMO!”

*Ponte que partiu é um jeito meio bufão de escrever as palavras impublicáveis necessárias para descrever o que o Barça e Neymar fizeram na última quarta-feira.

Sujeira debaixo do tapete

“O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada.” Cravada com ferro em brasa no imaginário nacional, a frase do multitarefas Nelson Rodrigues sintetiza um dos mais charmosos clássicos do futebol. Contudo, por mais que o talento rodriguiano coloque o duelo acima do bem ou do mal, sequer Nelson seria capaz de prever uma partida com a presença de apenas uma das duas torcidas. O despropósito se dará domingo, no Engenhão, quando apenas tricolores acompanharão a final da Taça Guanabara. Despropósito este que escancara que nossas arquibancadas perderam o charme; nossa sociedade, a humanidade; e nossas autoridades, a capacidade de garantir segurança. Óbvio ululante e triste.

A proibição do clássico com duas torcidas se deu por interferência judicial. A solução pela restrição ao livre acesso expõe ainda mais a fragilidade de nosso sistema em combater meia dúzia de raivosos. Eles parecem vencer uma guerra invisível, diante da ingerência do Poder Público. Há tempos, o medo é sentimento recorrente para os torcedores de fato que ainda frequentam os grandes jogos. Há tempos, as autoridades vêm dando mostras de sua incapacidade em controlar os mais violentos. Em detrimento ao direito de ir e vir, a proibição ressurge como solução simples. Na prática, no entanto, não passa de sujeira jogada para baixo do tapete.

Parafraseando Nelson Rodrigues: a idiotia, a violência e a intolerância começaram quarenta minutos antes do nada. Até hoje, porém, não parecemos capazes de lidar de forma efetiva com tais problemas.

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