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02 de Julho de 2012 - 16:38

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Carlos Pernisa Júnior
Carlos Pernisa Júnior

  Será que se consegue contar uma cidade num conto? Será que cabe numa dimensão tão curta tanta coisa? Como colocar ali tanto tempo, tanto espaço, tanta história? São mais de trezentos anos, partindo de um caminho - uma picada para passar tropa de mulas - cortado na mata mineira. E um rio com pedras escuras no fundo, do qual já não se veem mais as pedras. São três caminhos, contando com aquele primeiro, que desenharam o traçado do vilarejo, que virou vila, que logo se fez cidade. Mais o caminho de ferro, que ainda corta o lugar ao meio, mas que deixou, há muito, de trazer e levar pessoas. São quilômetros quadrados, que se estenderam e se encolheram em mágicos truques da política da terra, mas que ainda deixaram o município como um dos maiores do estado. São lendas de santo que fugia da nova igreja matriz para voltar à antiga morada, num tempo em que o vilarejo "mudou de lugar", e de mulher toda vestida de branco em porta de cemitério, assombrando os passantes.

  E é gente, gente, gente... Gente que parece não acabar mais. É juiz que vinha de fora, para fazer valer a lei da Coroa Portuguesa, mas que, dizem, era ladrão e que saiu fugido de suas terras - que não eram de fora, mas daqui mesmo. Mesmo assim, acabou ficando por aqui, dando nome ao lugar - apesar de seu nome mesmo ainda causar controvérsias. É família influente, mandando na política e controlando terras e escravos. É engenheiro estrangeiro vindo para fazer estrada, que se instala e vai ficando, se casa com a filha de família rica e poderosa e se torna dono de boa parte das terras do lugar, construindo sonho e fortuna e fundando um novo povoado. São barões do café, avançando com suas mansões para o outro lado do rio e se distanciando do "morro da Boiada" e se aproximando do outro morro. Morro que, diz o nome, é do Imperador, que já esteve por aqui e que também é parte dessa história, junto com outros visitantes ilustres - como um tal rapaz alferes e que também tirava dentes -, sendo recebido com honras, mas recusando uma mansão construída especialmente para ele. Com desgosto, o proprietário do local determinaria: ninguém jamais vai morar na casa que foi destinada - e não ocupada - pelo Imperador. O local, que ainda existe, virou escola estadual. É empresário amigo desse Imperador, que fez estrada de macadame, mas foi presidir a empresa responsável pela de ferro - sua concorrente direta -, que fez uma outra cidade vizinha à do engenheiro alemão, de quem não gostava. É barão que também ocupava a vereança e que acabou tornando uma coisa só pelo menos três locais distintos, quando deu a todos um mesmo nome, em mais uma mágica política do lugar.

  São migrantes e imigrantes de todas as procedências, que ignoraram a precedência de índios puris e coroados por essas terras e ocuparam o lugar com comércio, fazendas, fábricas; com casas, mansões, vilas italianas; com educação - e com falta dela -, com música e pianos, com cultura e com descortesia; com consenso e discórdia. São negros escravos das lavouras de café - a maioria da população da época -; brancos, quase escravizados, proletários das fábricas de tecidos; mestiços para todos os tipos de serviço que moveram as manivelas do tempo e fizeram a cidade girar e se transformar: Atenas, princesa, primeiro sorriso de Minas, Manchester. São muitos nomes, são muitas cidades num só lugar.

  São muitos nomes também de artistas - pintores, escritores, dramaturgos, sambistas, bailarinos, cineastas, arquitetos, sonhadores -, políticos de todos os tons e condutas, esportistas, empresários, comerciantes, profissionais liberais, pioneiros e inventores de todos os tipos e professores, viventes e sobreviventes - de tempos, histórias, enchentes, incêndios, desmoronamentos. São contadores de causos, jogadores - de damas, xadrez, no parque central - e de conversa fora e são aqueles também que não sabem contar histórias - descobri recentemente com um amigo de nome Rodrigo.

  Enfim, só posso dizer que não me atrevo a sequer começar essa empreitada, desse conto que não vai caber nunca nas páginas de um jornal, de um livro - porque um livro é pouco para ele - e porque é longo demais para ser apenas conto. E também não é novela e que um romance não dá conta, tampouco, já que é vida, é história, é parte da vida de cada um que passou e passa por aqui - lugar de passagem que não se deixa passar. Digo então que abdico dessa tarefa inglória e paro por aqui com essa história. E quem quiser que conte outra. 

O autor se apresenta: Um cidadão de Juiz de Fora, que se interessa pelas histórias da cidade e nela se fez jornalista, professor, marido, pai e escritor bissexto. Trabalhou na Tribuna de Minas de 1996 a 2000. É professor na Faculdade de Comunicação da UFJF, com incursões também nas áreas de cinema, literatura e mídias digitais.
 

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