Na forma de um imperador mal-acabado, historicamente descontextualizado e desigualmente prateado, o amor se colocou pela primeira vez diante de Lucinda. Ali mesmo, no meio do calçadão da Halfeld, onde, como dizem, tudo acontece em Juiz de Fora.
- Joga uma prata, tia! - disse, com gestual quase didático, um garoto que passava com a mãe: - Joga uma prata que ele mexe. E Lucinda permanecia imóvel, solidária, diante do homem-estátua.
Havia há pouco chegado à cidade. Meio que fugida, morava com a tia, solteirona convicta, num cubículo da Zona Norte. Sem completar os dezoito, conseguiu emprego como recepcionista em um pequeno hotel, muito antigo, na Getúlio Vargas. Período de experiência que já durava alguns bons meses. Pegava às dezenove, em ponto, e largava às seis da manhã. Nem um minuto a mais ou a menos. Condição do patrão para que fosse efetivada.
Naquela segunda-feira, já eram quase seis da tarde, e ela tomava um sorvete de casquinha, baunilha, luxo que se permitiu por ter vindo caminhando de casa. Parou em frente ao homem que julgava ter mais de dois metros de altura. Todo prateado, usava uma espécie de coroa, com ramos que pendiam das pontas e uma túnica igualmente prata.
- Joga uma pratinha, moça. - insistiu o garoto.
- De quanto? - meio que acordando do transe.
- Qualquer uma. Joga que ele mexe.
- Uma de cinco? - revirando o bolso da calça jeans puída, de onde se podia ver escapulindo parte da nota fiscal do sorvete de casquinha.
- Mixaria, tia!
- De dez, então...
- Qualquer uma. Joga que ele mexe.
Lucinda encarou por mais alguns segundos o homem prateado. Então olhou para a palma de sua mão, que acomodava algumas moedas. A conta certa para a viagem de volta. Deu dois passos e depositou uma de cinco na caixa de papelão encapada com papel alumínio. E a estátua começou a se mover. Num combo de sorriso, piscadela e reverência, o imperador mal-acabado conquistava de vez o coração de Lucinda. E ali, pelos próximos quarenta minutos, a moça esgotou seu estoque de moedas, recebendo em troca uma imensa combinação de gestos e movimentos mecânicos que, para ela, soavam como cortejos dos mais espontâneos.
No dia seguinte, a cena se repetiu. Quase cinco da tarde, com a mão cheia de moedas e, dessa vez, sem o desfalque da casquinha. E foi assim até quinta, quando, perto das dezenove, decidiu investir suas duas últimas moedas numa tentativa de diálogo verbal.
- Fica assim o dia todo? - e jogou a moeda de cinco.
- Paro às dezenove - retribuiu com voz rouca, em meio a mais uma coreografada reverência.
- Eu pego às dezenove. Vou até de manhã bem cedo. - lançando outra moeda, de dez dessa vez: - E pega que horas?
- Às nove - menos acrobático e mais galanteador: - Mas chego às oito, para me aprontar.
- Então venho direto do trabalho. Pode ser?
E a estátua permaneceu imóvel, enquanto Lucinda descia o calçadão, sem moeda, sem resposta, virando ora ou outra o pescoço para trás.
Saiu do trabalho no horário habitual. Tomou dois pingados no balcão da padaria. Beliscara uma ou outra bolacha do café servido no hotel, então preferiu economizar no pão com manteiga. Fez hora lendo alguns folhetos de ofertas. Chegou ao local do encontro pouco depois das oito. Ele já havia chegado. Sem o prata no corpo e muito menor do que parecia. De cara entendeu que ele usava um banquinho, disfarçado sob a túnica, para ganhar altura, o que não o diminuía aos olhos de Lucinda. Era parte do número.
- A moça das moedas...
- Lucinda.
- Satisfação. Jonas.
- O moço das pratas...
Conversaram bastante enquanto ele se prateava. Conversa vazia, cheia de um sentido superficial que transbordava Lucinda. Combinaram de se encontrar à noite. Era folga de Lucinda e ela sabia onde ficavam as chaves de um quartinho no último andar do hotel, que estava em reforma, mas serviria aos dois. Ele aceitou, contanto que tomassem uma cerveja antes. Fazia questão de pagar.
- Mais alguma coisa, moça? Já são quase nove e, depois disso, só com moedas. A moça me desculpe, mas são os negócios. Se eu não levar a sério, quem vai levar?
- Eu entendo...
Ele subiu no banquinho, colocou a coroa, ajeitou a túnica e pôs-se a imperar. Ela jogou uma moeda e, antes de ir para casa, ganhou um último beijo no ar.
Arrumou-se como não fazia desde sua primeira comunhão. Disse à tia que o patrão havia reclamado de sua apresentação e precisava se garantir no emprego. Desceu de ônibus no centro e caminhou até o calçadão. Eram sete e pouca, e Jonas já a esperava sem o prateado no corpo, mas cheio de goma no cabelo.
Tomaram três cervejas num bar das redondezas. Quase não se falaram.
- Fecha a conta, Abílio - ele gritou, permitindo que todo o bar ouvisse: - Mas antes bota uma com mel que a noite vai ser doce.
Jonas ofereceu um trago a Lucinda, que negou com um sorriso. Tomou de um gole só, e foram caminhando para o hotel.
Na portaria, pediu as chaves do quarto à moça que a substituía.
- Não vai te complicar? - Jonas perguntou, pouco se importando com a resposta.
- Uma mão lava a outra. - Ela respondeu num olhar de confidência para a outra moça.
Subiram e se amaram. Com toda a sinceridade com que os simples amam.
- Trabalha sábado? - Ela perguntou enquanto ele se vestia.
- Só de manhã. E não é sempre.
- Passo pra lhe ver então. Troquei mais de cinquenta em moedas hoje.
- Mas não aqui. Estou de viagem. Por essas bandas já deu. Estátua não pode ficar parada...
Jonas deu um último beijo na testa de Lucinda, bateu a porta e saiu. Ela permaneceu imóvel, nua na cama. E só despertou com a amiga, de manhã, alardeando a chegada do patrão.
Vestiu-se, driblou o patrão e subiu o calçadão. No lugar do homem-estátua, um grupo de cinco bolivianos tocavam flautas de bambu. Depositou três moedas em uma cumbuca de palha e ouviu: - Gracias!
Naquele dia, foi embora para casa deixando cair moedas pela rua. E ainda hoje, dizem os mais observadores, sempre que Lucinda passa por uma estátua ou busto no Parque Halfeld, ou mesmo pelo solitário menino prateado que empina sua pipa na Avenida Itamar Franco, ela joga uma moeda. E aguarda, com toda a esperança com que os simples vivem, por três ou quatro minutos, antes de continuar perambulando pelas ruas de Juiz de Fora.



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