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24 de Junho de 2012 - 07:00

Por MARILDA LADEIRA

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Para João Medeiros Filho, colega e amigo, intelectual, "cadeira cativa" do Bar do Beco.

 

Adelma comeu o pastel com requinte premeditado, como se pudesse comer o mundo. Degustou-o devagar, o molho farto: buscava novos sabores. Atenta e ansiosa, sentia acomodar-se o alimento, o organismo a absorvê-lo, os órgãos recompondo-se, guardados os sentidos para uma secreta agressão - um revide a seu condicionado policiamento. O lanche ficava difícil de ingerir, dada a sensação agradável que sentia de poder comer o mundo!

Era um prazer incomum. Tentava analisá-lo para o caso de precisar descrevê-lo. Calava a vergonha de comparar o prazer que sentia ao ato de amor - "não fica bem para uma moça direita entregar-se a tais pensamentos", diria a mãe. Mas Adelma deixava-se tomar pela sensação de quem quebrava um tabu. Isto a redimia: - corações e gerações vingados na banalidade de proibir até a ideia que, tantas vezes, pensava naquilo.

De concessões estava vivendo aquele dia. A decisão de faltar ao serviço, quebrar o ritual da rotina, sair pela rua assuntando coisas, fazer aquele lanche simples no meio da tarde... soltava os grilhões que não a deixavam assumir-se diante da vida. Uma atitude assustadora - difícil, mas necessária.

Um frio percorreu-lhe a boca do estômago - uma crueldade que chegava com a confirmação da surpresa: aquela peregrinação agora, por quais caminhos? O eu interior feito coragem, assim de repente?...

Afugentou o sentimento de desamparo e piedade trazidos pela brisa que, de leve, afagou-lhe os cabelos... vinha da Galeria.

Ao seu redor, todas as mesas ocupadas, gente igual, repetindo seu suplício, quem sabe? Olhou-os disfarçadamente, guardando a perturbação - os rostos ávidos. Como se apanhada em flagrante, observada, um a um fixou-os na memória. Eram estranhos, raramente frequentava aquele lugar famoso - ponto de um ou outro amigo intelectual; sentiu-se importante e procurou o melhor de sua aparência, disfarçando deformações guardadas em seu íntimo. Queria desvendar desde quando aquele prazer ao comer. Quem sabe aceitar o "amante" que devia morar em seu corpo e fazia explodir o conflito entre a boca e o sexo. - Devo estar ficando louca! pensou. Usurpar a pureza e o prazer do alimento; um pesadelo essa dependência de identidade, meu rosto arde!

- Aceita mais alguma coisa? O garçom atendia com naturalidade, apenas o dever de servi-la.

- Buscar meu rosto, ela responde.

Ele não aparenta estranheza. Sorri tranquilo como se a resposta da moça fosse natural.

De repente, os rostos à volta dela são como o espelho onde procurava: o tédio, a angústia, o medo, a pressa, o cansaço, esboçados no esforço de ajustarem-se às convenções de rotina, o prazer normal à refeição.

- Dentro, este vazio; fora, a solidão total... ela pensa. Mas quer recompor-se e chama o garçom como se dele, agora, dependesse sua própria vida.

- Por favor, ela diz. Me vê mais dois pastéis e outra laranjada.

Então, mastiga rapidamente os restos do que ficara à sua frente. Apalpa o corpo a fim de afastar aquela sensação de não possuí-lo. Aceita a violação de mastigar a dor, uma necessidade inevitável. O refresco sorveu-o de um só trago, o gosto agora delicado que lhe traz de volta o corpo, a plenitude de sua feminilidade - uma surpresa.

Buscava o milagre. Suportava os rostos ao redor, as bocas que comiam com avidez, a maioria deformada, pela pressa e o risco. Chopes e fichas, sucos e contas, cigarros, tudo a ser mastigado. E mais - barulho, opressão, suor, sons e cores, fixa imagem - uma fotografia - o instante grafado, produzido na correria do tempo.

A tarde cai mansamente, o dia despedindo os clientes sem mais contraste entre sexo e comida. A pausa exigida como definitiva. O espelho já aceitando refletir o corpo concreto, a aceitação do rosto, o medo já aplacado.

O garçom volta agora para recolher os restos do lanche consumido. Já sem cautela, entre ele e ela até uma certa alegria de armistício. Ele pactuava de sua vitória, ela pensa. Porque a olhara meio curioso como se a escolhesse entre tantos outros clientes. Afinal era moça e bonita.

O rosto de Adelma estava tranquilo, tinha os traços impregnados de uma nova luz, como se grávida estivesse, consciente de que vencera o receio e a necessidade de livremente mastigar o mundo e suas mazelas. Nas mãos do garçom, a bandeja que - ela estava certa - podia conter o sêmen da vida, oferecido assim com a comida e também seus restos...

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