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08 de Junho de 2014 - 06:00

Colégios públicos e particulares adaptam o ano letivo aos jogos do Brasil, com folgas ou intervenções nos horários

Por KELLY DINIZ

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A Copa do Mundo, que tem início na próxima quinta-feira, vai afetar diretamente a vida dos estudantes do ensino fundamental e médio em Juiz de Fora. Os alunos da rede estadual terão as férias antecipadas e ampliadas, enquanto nas escolas municipais cada unidade elaborou uma proposta de horário, submetida à aprovação da Secretaria de Educação. Foi possível optar pela liberação ou não dos alunos para assistirem aos jogos, sendo a reposição obrigatória. Com a greve dos professores do município e de parte dos docentes do estado, iniciada no dia 21, o calendário escolar pode ficar ainda mais comprometido.

Os mais prejudicados devem ser os estudantes que se preparam para disputar uma vaga na UFJF pelo Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism) e os que vão prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Yago Ferreira, 15 anos, é aluno da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, o Polivalente do Benfica, na Zona Norte, e manifesta preocupação com a quebra de rotina. "Esse ano tem Copa e eleição, e já está pesado, pois os professores estão correndo com as matérias." O coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Dias, ressalta que a greve de professores é sempre um assunto delicado. "É direito do trabalhador, mas o docente não é um trabalhador de indústria. Ele lida com pessoas." No entanto, o coordenador afirma que o prejuízo para os alunos não é tão grande. "Apesar de o ensino estar vinculado a datas, como as provas do Enem e Pism, o professor é uma dos poucos profissionais que necessariamente repõe as horas não trabalhadas."

Segundo a assessoria da Secretaria de Estado de Educação, a adesão à greve é pequena e não há nenhuma escola em Juiz de Fora totalmente paralisada. Por isso, as alterações no calendário ainda estão mantidas. Os alunos terão 31 dias corridos de férias, entre 12 de junho e 13 de julho. Normalmente, o recesso escolar acontece em julho e tem duração de duas semanas. "O objetivo é compatibilizar a rotina escolar com a Copa, mas sem perda para os estudantes nem queda nos dias letivos", informa em nota a assessoria da pasta. A pasta então suprimiu alguns recessos, como a semana de folga de outubro. Além disso, as aulas começaram no dia 3 de fevereiro - um dia antes do que em 2013 - e irão terminar em 19 de dezembro - dois dias depois do previsto. Dessa forma, o calendário contempla exatamente os 200 dias letivos.

Já a Secretaria de Educação do município observa que as alterações elaboradas pelas escolas ainda estão valendo, apesar da greve. Caso o movimento se estenda até os dias dos jogos, uma nova proposta de reposição deverá ser elaborada. Ainda segundo a pasta, cerca de 75% dos professores aderiram à greve, mas as escolas estão funcionando parcialmente.

 

Estratégias diferentes

Os jogos do Brasil na primeira fase acontecem nos dias 12, 17 e 23 de junho. O jogo do dia 17 será realizado às 16h, e os outros dois às 17h. Cada escola municipal optou por uma estratégia para adequar as aulas aos jogos. A Escola Municipal Bonfim, no Bairu, região Leste, por exemplo, irá antecipar o horário de entrada dos alunos do turno da tarde em uma hora nos três dias. Assim, o início das aulas será ao meio-dia, e a saída às 16h, não havendo a necessidade de reposição posteriormente. "A gente não gostaria de prejudicar o dia letivo se não houver necessidade, já que os jogos são mais tarde e não temos turmas no noturno", explicou a diretora da instituição, Viviam Carvalho de Araújo.

Na Escola Municipal Doutor Adhemar Rezende de Andrade, do Bairro São Pedro, na Cidade Alta, os estudantes do turno da tarde serão liberados uma hora antes do início dos jogos. Assim, o colégio precisaria repor quatro horas. Essa reposição já foi realizada no sábado, dia 29 de março. "Achamos mais prático repor horas e não dias, principalmente pelo fato de os jogos só comprometerem o turno da tarde. Além disso, a reposição no segundo semestre seria mais complicada, porque quase não haverá feriados, e, com a greve dos professores municipais, ficaremos ainda mais apertados", conta a diretora do colégio, Cristiane Temponi.

 

 

Mudanças são alvo de questionamentos

Pais de alunos das séries iniciais reclamam que algumas escolas particulares estão suspendendo mais de uma semana de aula em decorrência dos jogos do Brasil. A mãe de um aluno de 6 anos da rede particular, que preferiu ter a identidade preservada, contou que na instituição onde estuda o seu filho serão oito dias sem aula. Além da escola, o aluno frequenta a creche na mesma unidade, que também terá os serviços suspensos. "Eu trabalho e não tenho com quem deixar meu filho. Estou desesperada porque ainda não encontrei uma solução. Se não tivesse aula somente no dia do jogo, tudo bem. Mas não ter aula a semana inteira? Isso é certo do ponto de vista da lei?", questiona.

De acordo com a advogada Natália Salviano, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) dá autonomia para as escolas montarem seu calendário acadêmico e sua grade curricular, desde que cumpra o mínimo de 200 dias letivos anuais estabelecidos. A lei também é válida para as creches.

A presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino da Região Sudeste de Minas Gerais (Sinepe/Sudeste), Ana Gilda Dianin, informou que "as escolas da base do sindicato procederão conforme acordo firmado com os Sindicatos dos Professores, ou seja, não sendo decretado feriado nacional, estadual ou municipal, nos dias dos jogos da seleção brasileira de futebol, os estabelecimentos de ensino suspenderão as atividades, no mínimo, duas horas antes do horário designado para cada partida e ajustarão, diretamente com os professores interessados, formas de compensação das aulas não ministradas, se necessário".

A alteração no calendário acadêmico devido à Copa do Mundo também divide a opinião de especialistas. Para a professora da Faculdade de Educação da UFJF Cláudia Avelar Freitas, segurar o estudante em sala de aula nos dias dos jogos do Brasil não seria produtivo. "O aluno ficaria distraído. O melhor é negociar esse horário para ser reposto posteriormente. Mas é preciso haver a reposição. A escola tem que garantir que a carga horária seja cumprida."

Já o coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Dias, avalia como um equívoco adaptar as aulas aos jogos. "Não tem como obrigar os alunos a irem à escola no dia dos jogos. Mas isso não impede que haja aula. Alterar o calendário por conta disso é desqualificar aquilo que você deveria qualificar. É colocar o futebol na frente do ensino."

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