Publicidade

02 de Julho de 2014 - 06:00

Por NATHÁLIA CARVALHO

Compartilhar
 
Juiz-forano, Maurício de Campos Bastos narrou a Copa de 1950 aos  20 anos
Juiz-forano, Maurício de Campos Bastos narrou a Copa de 1950 aos 20 anos

"O mais jovem locutor esportivo do Brasil" era juiz-forano. Este foi o título concedido ao jornalista e advogado Maurício de Campos Bastos em 1950, quando ele vivenciou a emoção de narrar toda a Copa do Mundo pela Rádio Industrial de Juiz de Fora. Na época com 20 anos de idade, ele teve a oportunidade de estar presente na final histórica entre Brasil e Uruguai, ao lado do saudoso Mário Helênio de Lery Santos, como comentarista, diretamente da cabine 17 do Maracanã. Em entrevista à Tribuna, Maurício, que há 41 anos vive em Brasília, relatou com orgulho sua efêmera mas consagrada carreira como jornalista. "Eu ficava ao lado dos grandes narradores da época, das emissoras mais importantes do país. Conduzi a narração do primeiro ao último jogo. Naquela época era tudo mais difícil, tínhamos de alugar a linha telefônica para transmitir as partidas."

E além da pouca idade, a carreira também era recente. Maurício entrou para o rádio em março do ano anterior, quando narrou o Sul-Americano de Futebol. "Eu tinha uma pequena experiência na área, mas praticamente só havia narrado jogos internacionais. Na Copa, a Organização de Radinterior entendeu que aquele era o momento de projetar suas principais emissoras, e por isso fomos para o Mundial. Isso marcaria uma época da radiofonia do interior." Após o período, surgiram vários convites para ir trabalhar no Rio de Janeiro. "Em virtude da minha aparição no mundo esportivo internacional, fui para uma rádio carioca mas não durei nem dois anos."

Flamenguista roxo, ele se recorda, com muito bom humor, como era difícil segurar a emoção ao narrar os jogos do time do coração. "Um dos motivos de eu não ter permanecido no Rio foi porque me disseram: 'menino, você é bom, narra bem, tem um ótimo vocabulário. Mas Ary Barroso aqui já basta um'. E era fato que minha condição de flamenguista iria me trair a toda hora", diz, aos risos. O compositor de "Aquarela do Brasil", também locutor esportivo e também mineiro, mas de Ubá, era rubro-negro confesso e, tal como Maurício, nunca conseguiu esconder sua paixão durante as coberturas.

Depois disso, o advogado voltou para sua cidade natal, onde morou até 1973. "Preferi voltar para Juiz de Fora e concluir meu curso de direito", explica, em referência à profissão que exerce até hoje. A experiência na rádio durou até o ano de 1961 e, no ano seguinte, ele recebeu um convite para se tornar juiz do trabalho.

 

Haja fôlego

Naquele Mundial, Maurício esteve presente em todos os jogos do Brasil. "Eu estava muito feliz. Primeiro, porque marcava uma época de ouro de minha vida; e, segundo, porque eu pude contribuir de alguma forma para a narração esportiva do país. Era uma tempo em que não havia televisão, e por isso tínhamos que ser o mais corretos possível, para não ludibriar o público ausente", diz.

A narração, que foi sendo lapidada a cada partida, passou por vários momentos. Segundo ele, a pior partida foi contra a Iugoslávia, dado ao exercício de fôlego necessário. "Foi um jogo movimentado, a bola não saía pelas quatro linhas. O narrador, naquela época, comandava a narração enquanto a bola estava rolando, e só passava para o locutor comercial quando ela saía de campo. Era impressionante a dinâmica da partida, me consumiu muitas energias, mais que o normal." Já contra o Uruguai, segundo ele, não houve tanta movimentação, e o jogo acabou em um lance de "pura sorte".

 

 

 

Um golpe do azar

O dia em que o Brasil viu o título escorrer de suas mãos não pôde ser esquecido. O time entrou em campo contra o Uruguai como favorito absoluto, convicto da vitória e perdeu para o adversário diante de 200 mil torcedores, na partida que ficou conhecida como Maracanazo. Entretanto, diferente da maioria, Maurício explica que não ficou tão surpreendido com a derrota. "Fui um dos poucos talvez que tenha terminado a locução da mesma maneira que iniciei, sem muita emoção. O principal motivo é que estive em São Januário (onde a Seleção se concentrava) no dia anterior ao lado de Mário Helênio, e achei aquele ambiente liberado demais. Tinha muita gente, bateria de escola de samba, passistas, presentes e jogadores totalmente liberados, quase que uma prévia da comemoração. Foi muito esquisito e antecipado. Era o time que ia disputar uma partida decisiva no dia seguinte, afinal."

Como consequência, no fatídico dia, a emoção acabou sendo controlada. "Foi um golpe do azar. Entramos em campo campeões, fizemos um gol, eles empataram e continuávamos campeões. Mas aí veio a ducha de água fria. Fique surpreso, claro, esperávamos uma vitória retumbante para coroar uma belíssima atuação do time até então. E depois ainda veio o pior: parecia que estávamos em um velório."

E o advogado chama a atenção para um fato interessante, que ele considera quase como um lado bom da derrota."Acho que o resultado nos poupou de uma tragédia. Imagina aquele tanto de gente descendo as rampas, sendo pisada, caindo, se machucando. A reforma no Maracanã ainda não tinha sido concluída, entregaram a obra emergencialmente. Havia até andaimes e restos de construções, e pouquíssima proteção", explica.

Das recordações daqueles dias, apenas restaram as memórias. "Meu grande pesar é não ter guardado nenhuma lembrança da Copa de 1950. Sumiram, nas várias mudanças que fiz, a minha credencial, os recortes de anúncios que promoviam 'o mais jovem locutor esportivo do Brasil', notícias nos jornais da minha terra e outros documentos. Mas tenho testemunhas."

 

64 anos depois..

Copa no Brasil novamente, e Maurício, aos 84 anos, está de volta a um estádio de futebol para ver a Seleção Canarinho brilhar em sua terra natal. No dia 23, ele presenciou a vitória da equipe contra Camarões em Brasília. "Gostei muito do jogo que vi, embora o Brasil continue devendo muito. Não está perto do que poderia mostrar. Hoje estamos jogando em função do Neymar, mas temos grandes jogadores que não estão produzindo aquilo que era esperado deles." No mata-mata, ele aposta no Brasil. "Acho que temos mais força técnica e experiência para partidas que se decidem na hora. Mas teremos adversários muito poderosos pela frente como França, Argentina e a Colômbia. Entretanto, como já foram embora três campeãs mundiais, está tudo inesperado. Isso é futebol!", completa, com um bom humor contagiante.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você concorda com a proibição de trote nas ruas de JF, como prevê projeto aprovado na Câmara?