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21 de Junho de 2014 - 06:00

Por Wendell Guiducci - Editor

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Amigos saíram de Rosário com uma única missão: assistir aos jogos da Argentina
Amigos saíram de Rosário com uma única missão: assistir aos jogos da Argentina

"Bela remera", diz Torto a respeito da camisa com estampa da banda Hellacopters que visto. Nos daremos bem, logo penso. Enquanto me ajeito à mesa improvisada à margem da BR-040, próximo a Santos Dumont, Hernán vai até a grelha que arde a alguns metros dali e volta com um pedaço de carne. Torto Lizzi, Facundo Diaz, Hernán e Javier Gonzalez estão fazendo um churrasco à beira da estrada. É possível sentir o cheiro do assado quando se passa de carro. Foi o que me fez parar para conversar com eles. O churrasco improvável e a van coberta com uma bandeira azul e amarela e outra azul e branca. Os quatro saíram de Rosário, na Argentina, no dia 9 de junho com uma única missão: assistir a todos os jogos de sua seleção no Mundial.

"O planejamento para esta viagem começou seis meses antes", diz Facundo. Eles têm ingressos para todos os jogos até as quartas de final. Caso a Argentina chegue à semifinal e depois à final, terão de se virar para conseguir entradas. Aliás, é a única reclamação que têm do Brasil até agora: "muitos brasileiros têm ingressos, mas estão vendendo muito caro", observa Javier. De resto, estão absolutamente encantados com o país. "Estamos sendo muito bem recebidos, é um povo muito acolhedor", Torto afirma enquanto beberica uma cuba libre sem gelo. No Rio de Janeiro, alguns de seus colegas dormiram na praia. Javier diz que "é proibido, mas a polícia está deixando, porque entende que há muitos torcedores na cidade."

O quarteto passou em Juiz de Fora para comprar suas provisões para o almoço: Coca Cola, rum e carne. E "carne muito boa". Conhecidos mundialmente como especialistas na arte do churrasco, os hermanos explicam que não tem isso de carne argentina ou carne brasileira. "A questão é o boi. Às vezes você pega um boi bom, às vezes não", diz Javier, e abocanha um pedaço suculento de alguma coisa que parece ser uma chuleta. Eles comem na estrada e também dormem na estrada quando estão em trânsito. Há colchões dentro da van (e uma bola de futebol, naturalmente), e eles secam as roupas em varais improvisados ou cercas. Quando param por mais tempo em uma cidade, como foi no Rio de Janeiro, ficam em hotéis.

Agora eles estão a caminho de Belo Horizonte, para assistir ao jogo entre Argentina e Irã neste sábado (21) à tarde. Depois, seguem para Porto Alegre, onde o time de Messi encerra a participação na primeira fase contra a Nigéria. Até aí, Facundo, Hernán, Javier e Torto terão viajado, desde que saíram de Rosário, aproximadamente 4.700km. Classificando-se em primeiro lugar, o que deve acontecer, o caminho da Argentina até uma suposta final prevê jogos em São Paulo, Brasília, novamente São Paulo e a final no Maracanã. Se a seleção ajudá-los a cumprir sua missão, quando voltarem para casa, os quatro terão percorrido algo perto de 11.000km em sua van embandeirada de azul, branco e amarelo. Se creem que estarão na final? Claro, são argentinos.

Devolvo o cobertor que me emprestaram sem que eu pedisse, porque a "remera" do Hellacopters não era traje adequado para o frio que baixava ali à beira da estrada às quatro da tarde. Agradeço a entrevista, anoto o e-mail de Facundo no verso de uma nota fiscal de oficina mecânica na qual fiz minhas anotações e, em péssimo portunhol, desejo sorte ao quarteto estradeiro em sua jornada. Antes de seguir meu caminho, feliz pela conversa e resignado por perder o primeiro tempo do jogo entre Uruguai e Inglaterra, que planejara assistir com um amigo no bar, Hernán me pergunta se não vou provar o assado. Churrasco feito em uma grelha improvisada a um palmo do chão na beirada da estrada por quatro argentinos que pretendem viajar mais de 10.000km em uma van que também serve de hotel, que bebem cuba libre sem gelo e acham a Holanda um time muito "descansado"? Como não, hermano??

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