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15 de Junho de 2014 - 06:00

Por NATHÁLIA CARVALHO

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"O trauma não foi superado e não vai ser esquecido nunca." E não é para menos. Perder uma final de Copa do Mundo em casa, diante de quase 200 mil torcedores enlouquecidos, e com a certeza da vitória, é um grande motivo de frustração. A frase do ex-radialista, ex-treinador e atual vice-presidente do Tupi, Geraldo Magela Tavares, sintetiza exatamente o sentimento deixado no coração de todos os brasileiros que vivenciaram (ou não) aquela final histórica entre Brasil e Uruguai no Mundial de 1950.

Na época com 23 anos de idade, o juiz-forano estava no Maracanã com um grupo de amigos e diz ter caído em lágrimas após o apito final. Também presente, o ex-prefeito e amante do futebol Tarcísio Delgado dividiu a histeria coletiva do momento. Então com apenas 13 anos, o político foi ao jogo sozinho, na primeira vez em que pisou em um estádio de futebol.

E aquela não foi uma viagem qualquer. Era também a primeira vez que Tarcísio saía do sítio em que morava com a família em Torreões, Zona Rural de Juiz de Fora. Hoje com 77 anos, ele lembra de cada momento daquela viagem, com grande riqueza de detalhes. "Eu morava na roça, e meu avô, em Barra Mansa (RJ). Ele veio me buscar para assistir ao jogo, porque sabia que eu era apaixonado por futebol. Uns dias antes, fomos de cavalo para Valença, depois de carro para a cidade dele e, no dia da final, fomos para o Rio. Quando chegamos, ele me entregou o ingresso, ensinou como entrava, marcou um ponto de encontro na saída e foi embora. Entrei sozinho, estava lotado de gente!", relembra. O avô, que não ligava para o esporte, lembrou-se de levar um sapato para o neto. "Eu só andava descalço, foi a primeira vez que viajei. Foi tudo extraordinário, fora do comum, porque eu não sabia nem o que era uma cidade."

 

Sem banheiro

Diferente de Tarcísio, Geraldo Magela juntou-se a alguns amigos e assistiu a três jogos daquela Copa. "No primeiro que fui, contra a Iugoslávia, a situação do Brasil era complicada. Precisávamos de uma vitória e conseguimos, foi uma bonita partida. Fiquei encantado com aquele jogo e voltamos para ver a disputa contra a Espanha. O Brasil deu um espetáculo de bola, ganhando de 6 a 1 em um dos jogos mais bonitos que eu já vi em todos os meus 87 anos de existência. Um espetáculo memorável com torcedores cantando 'Touradas em Madrid'", diz, em referência à marchinha de carnaval de Braguinha que ecoou nas arquibancadas do estádio.

Depois daquela partida, assistir à final soou quase como uma obrigação para o ex-técnico do Tupi. "Saímos daqui às 3h30 daquela madrugada fria e chegamos por volta das 8h ao Rio. Demos uma passeada em Copacabana e depois fomos ver os jogadores que estavam concentrados na sede do Vasco. Já no Maracanã, conseguimos nos sentar, mas de repente o estádio foi enchendo e ninguém conseguia mais se mexer. Para piorar, não tinha como ir ao banheiro e as pessoas urinavam ali mesmo. Aquilo foi molhando todo mundo, e não tínhamos como fugir!", relembra aos risos.

 

 

Favoritismo jogado para escanteio

Aquele 16 de julho seria inesquecível. Os jornais da época tratavam o Brasil como campeão antes da hora, a população estava convicta da vitória e a Seleção entrou em campo orgulhosa. O time nacional jogava pelo empate, fez o primeiro gol, mas perdeu a partida, que ficou imortalizada como o "Maracanazo". Os momentos daquele dia são contados exatamente da mesma forma pelos dois juiz-foranos presentes. "Eu lembro perfeitamente do gol do Friaça (Brasil), como se ele estivesse chutando aqui na minha frente agora. Já o primeiro gol do Uruguai eu não tenho recordações, mas o segundo não tem como esquecer. Consegue imaginar 200 mil pessoas no mais absoluto silêncio, sem reação? Paradas por quase meia hora antes de começarem a deixar o estádio", comenta o ex-prefeito Tarcísio Delgado. Vascaíno, ele conhecia cada nome da Seleção e se recorda até hoje. "Oito deles eram do Vasco, e eu já acompanhava futebol. Nosso time era muito melhor e entramos convictos da vitória. Acho que se jogassem dez vezes contra o Uruguai, ganhariam nove. Perderam uma."

A escalação (Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico) e o favoritismo também não saem da cabeça do ex-radialista Geraldo Magela. É como se aquela derrota ainda não tivesse sido digerida. A comoção nacional, segundo ele, foi pior pela certeza da vitória. "Os jornais nos iludiram tratando a Seleção como campeã do mundo. Eles entraram em campo de branco, pela última vez. Depois que fizeram o primeiro gol, demos o grito da vitória. Mesmo com o primeiro gol do Uruguai, o povo continuava ensandecido, abraçando e beijando quem nem conhecia. Eu não consigo imaginar o que teria acontecido ali se o Brasil fosse campeão. Mas aí, eles marcaram de novo. A torcida murchou. Ao invés de estimular, parece que adivinhamos que a tragédia que não estava anunciada iria acontecer."

Conhecedor do futebol, Magela diz, com propriedade, que o Brasil merecia aquela vitória. "O goleiro deles fechou, pegou todas as bolas, mas jogamos melhor. Quando terminou a partida, vi aquela choradeira e os poucos uruguaios correndo de ponta a ponta gritando sozinhos. Homens socavam a pilastra, sentavam no chão sem acreditar. Tudo que se ouvia era aquele murmúrio de choros. Eu chorei."

 

 

Que o pior não se repita

Sessenta e quatro anos depois, o Brasil sedia mais uma Copa do Mundo. Obviamente, o temor de enfrentar o Uruguai não sai da cabeça da torcida mas, para Geraldo Magela, a Seleção vai repetir a atuação da Copa das Confederações. "Acho que o Brasil será campeão, com a torcida impulsionando o time para cima. Vamos encontrar muitas dificuldades, principalmente contra Espanha, Argentina e Alemanha." Contudo, o apaixonado pela camisa verde-amarela acredita que o "acidente" contra o Uruguai não vai se repetir. "Eu gostaria que jogássemos de novo contra o Uruguai para fazê-los chorar o que nós choramos, sofrer o que nós sofremos. Mas esse ano eles podem tirar o cavalinho da chuva, porque na final eles não chegam."

Já o ex-prefeito Tarcísio Delgado diz torcer muito pelo Brasil, mas não crê na vitória. "Estou muito preocupado com o time, não estou otimista. Acho que não temos time para chegar à final. Obviamente, vou torcer para ganharmos todos os jogos, mas o perigo da Argentina, Alemanha, Espanha e, mesmo em uma fase ruim, a Itália, é grande." O político, que aos 77 anos continua jogando pelada todos os sábados, não irá aos estádios neste ano. "Não tenho mais disposição para o tumulto."

 

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