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23 de Abril de 2014 - 06:00

No aniversário de William Shakespeare, Divulgação reverencia, em exposição, autor que permeou a trajetória do grupo

Por MAURO MORAIS

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Shakespeare possui mais de 30 peças escritas e pouco mais de 150 sonetos
Shakespeare possui mais de 30 peças escritas e pouco mais de 150 sonetos
"A tempestade" foi exibida pelo Divulgação em 2006
"A tempestade" foi exibida pelo Divulgação em 2006
Cena de "O mercador de Veneza", apresentada em 1988
Cena de "O mercador de Veneza", apresentada em 1988
Esse ano o grupo montou "Costurando Shakespeare", com alusão a três Obras
Esse ano o grupo montou "Costurando Shakespeare", com alusão a três Obras

Segundo o filósofo francês Roland Barthes, a história transforma o real em mito. William Shakespeare é um desses nomes que servem, hoje, para falar do bom teatro. Nascido em 23 de abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, o dramaturgo ainda tem sua identidade questionada por diversos pesquisadores, formando uma névoa sobre quem, de fato, escreveu peças como "Romeu e Julieta" e "Macbeth". "Anônimo", filme dirigido pelo alemão Roland Emmerich e lançado em 2012, questiona a autoria de Shakespeare, homem de origem humilde e sem outra atuação comprovada, jogando luzes sobre o Conde de Oxford, que viajou por todas as cidades descritas na obra shakespeariana e cujo histórico se assemelha bastante ao do famoso protagonista de "Hamlet". O filósofo Francis Bacon e o escritor Christopher Marlowe também já foram apontados, por alguns pesquisadores ao redor do mundo, como os prováveis autores por trás do mito.

Contudo, a biografia pouco vale diante da extensa produção, que passou pelo drama histórico, pela comédia e pela tragédia. Ao longo da trajetória de quase cinco décadas, o Grupo Divulgação recorreu, com constância, à obra do bardo inglês. Apesar de ter montado apenas três espetáculos shakespearianos e alinhavado três peças em uma mesma apresentação, muitas foram as referências feitas pelo diretor e dramaturgo José Luiz Ribeiro em seus textos, ao longo dos anos, além das numerosas aulas que deu sobre personagens ou textos do escritor. "Shakespeare, para nós, é a raiz. Com Federico García Lorca e Molière, ele é peça fundamental para o desenvolvimento do nosso trabalho, principalmente pela qualidade poética", comenta Ribeiro. "Ele não fala uma coisa que não tenha importância. Apesar de não ter feito curso universitário - e Christopher Marlowe e Benjamin Ben Jonson tinham -, entendia de navegação e muitos outros assuntos específicos. Ele fuxicava muito, e sem Google", completa.

Aberta nesta quarta, às 20h30, na galeria do Forum da Cultura, espaço que abriga o grupo, a exposição "Shakespeare, 450 anos" reúne fotografias e figurino das peças "O mercador de Veneza", apresentada em 1988; "Novos sonhos de uma noite de verão", de 2006 (adaptação de José Luiz Ribeiro); "A tempestade", também de 2006; e "Costurando Shakespeare", exibida pelos alunos do curso Mergulho Teatral, no último dia 12. A montagem mais recente agrupava "Sonhos de uma noite de verão", "Romeu e Julieta" e "Hamlet", em uma narrativa feita pelos personagens à espera do nascimento do autor. As três bruxas de Macbeht conduziam a história, tecendo loas ao dramaturgo que, a despeito dos séculos que o distanciam dos dias de hoje, se mantém atual e nem um pouco rasteiro. "O nome de Shakespeare acoplado ao repertório sempre enriquece, ainda mais para o Divulgação, que tem essa tradição de trabalhar o repertório. É inevitável trabalhar com ele, um nome de peso na dramaturgia. Ele, ao falar do próprio tempo, acaba por falar do nosso, continua atual. Por mais que a linguagem dependa de uma adaptação para que as pessoas consigam assimilar melhor, ele tem valores que eram do tempo dele e ainda dizem muito hoje. Como o Divulgação tem essa preocupação de dizer sobre o presente, ele vem sempre a calhar. É uma pena não termos elenco para montarmos mais peças de sua autoria. É de uma riqueza, de uma poesia, de uma verdade que sempre emocionam", pontua a diretora do Forum da Cultura e integrante do Divulgação, Márcia Falabella.

"Não montamos mais peças porque o teatro shakespeariano é todo masculino e exige um elenco muito grande. Em 'Romeu e Julieta', são apenas cinco personagens femininos. Ele mesmo usava homens em papéis de mulheres", atesta Ribeiro, destacando a compreensão de mundo de um autor que não ficou datado, mesmo abordando a situação política e os costumes de sua época. "'Ricardo III' é hoje. O texto mostra toda a trajetória de um partido político atual. O discurso do Marco Antônio, de 'Julio Cesar', é de uma retórica muito rica", completa o diretor do Divulgação, que, antecedendo os ensaios de "Costurando Shakespeare", sugeriu um seminário interno para o grupo, com a apresentação de filmes sobre os textos e sobre a vida do dramaturgo. "Colocar as pessoas diante do texto dele é algo muito rico, ainda mais em um tempo no qual as pessoas não se interessam por nada, muito menos por literatura", ressalta Márcia, referindo-se à potência textual do escritor, cuja obra rende traduções bastantes diferentes no país.

 

Popular e erudito

Outra atração da exposição é a maquete do Globe Theater, feita por Márcia Falabella ao longo de quase um ano. A construção de 1599 teve William Shakespeare como um dos sócios e serviu de palco para "Hamlet" e "Rei Lear". Reconstruído na década de 1990, nas proximidades do original, o teatro fechado em 1642 encantou a professora e atriz, que assistiu a "Rei Lear" no espaço que, segundo ela, "preserva uma aura diferente". O gigantismo do lugar comprova a grandeza de um escritor que soube conjugar popular com erudito, formando um repertório acessível e apreciado por diferentes públicos. "A gente encontra uma riqueza fabulosa em tudo. Ele escrevia para os atores dele. O Hamlet, seu grande ator, é envenenado para, na luta de espadas poder arfar, porque o cara era gordo e arfaria de qualquer jeito. Ele fez isso, o García Lorca fazia isso, e a gente faz com o nosso elenco hoje. O elenco dele era popular, ele era a Janete Clair de seu tempo. O pessoal conhecia, tinha lastro, sabia daquelas histórias. Conheciam o Ricardo III porque era aquela história que o avô contou para o pai, que contou para o filho", afirma José Luiz Ribeiro.

De acordo com Márcia Falabella, o subjetivo presente nas narrativas shakespearianas é o que justifica sua transformação em mito. "Ele é universal e também popular. Ele tem esse reconhecimento das pessoas. Quando os espectadores iam ao teatro, eles reagiam aos personagens, não reverenciavam. Ele esbarra em problemas humanos que não se alteram", diz, para logo completar: "Ele não morre porque a obra dele não o deixa morrer. E acredito que isso continuará por muito tempo. Tem uma autora argentina, a Griselda Gambaro, que fez a Lady Macbeth, reescrevendo a história na ótica dela. Onde há vácuos em 'Macbeth' ela criou outras histórias. Shakespeare ainda está em movimento".

 

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