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28 de Março de 2014 - 06:00

Cine-Theatro Central comemora aniversário hoje ao som de Milton Nascimento, Dudu Lima, Lúdica Música! e coral da UFJF

Por MARISA LOURES

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Palco de grandes eventos, Central será reformado a partir de maio
Palco de grandes eventos, Central será reformado a partir de maio

Chegava a hora do cinema, e a Rua Halfeld ficava em clima de festa. Ir a uma das tradicionais sessões do Cine-Theatro Central era sinônimo de prestígio. Quem relembra os velhos tempos de um dos primeiros patrimônios tombados em Juiz de Fora é Waltencir Parizzi, 82 anos. Durante quase 60 anos, o senhor lúcido, que atendeu o telefonema da Tribuna na última quarta-feira, foi funcionário da casa de espetáculos, que hoje comemora 85 anos. Lá, trabalhou como bilheteiro, indicador, gerente e assistente de direção. Entrou ainda um "rapazinho", na década de 1940, e só saiu depois que o espaço deixou de pertencer à Companhia Franco-Brasileira, nos anos 1990. "O pessoal ia chique, todo arrumado. Usava até chapéu e gravata. Não podia dar um beijo na namorada em qualquer lugar. Isso era coisa de escurinho de cinema. Só corria o risco de o vaga-lume ver e achar ruim", brinca Parizzi, lamentando não ter idade suficiente para ter participado da inauguração do espaço, ocorrida em 1929. Na ocasião, figuras ilustres da sociedade local estiveram presentes para a concorrida apresentação de uma orquestra e do filme "Esposa alheia".

A intenção da pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição responsável pelo local, é que hoje, às 20h30, o clima da cerimônia e da década em que o teatro foi entregue ao público seja revisitado. A noite contará com a performance da atriz Edmárcia Andrade, que fará a leitura de uma carta fictícia, escrita por Constança Valadares à prima Viscondessa Di Cavalcanti. "Sempre se fala dos grandes nomes e se esquecem das mulheres que trabalharam para a construção do Central. Também aproveitamos o fato de ser o mês da mulher", afirma Gerson Guedes, pró-reitor de Cultura. Segundo Gerson, Constança Vidal Lage Valadares foi uma das mulheres mais atuantes de seu tempo. Pouco aparece na história do Cine-Theatro Central, mas foi uma das idealizadoras do projeto, ao lado do marido, o empresário e político Francisco de Campos Valadares. A ideia é que o público seja recebido com música ainda na fila de espera.

Lúdica Música! e Dudu Lima Trio farão os shows musicais da noite, com participação especial de Milton Nascimento, que tem estreita relação com o espaço. É de autoria de Bituca o slogan "Central, a emoção de todos nós", usado durante a campanha de recuperação do Cine-Theatro, na década de 1990. O coral da UFJF também baterá ponto por lá.

Os ingressos para a noite, distribuídos de graça para a população, se esgotaram na manhã de ontem, quando uma longa fila se formou na porta do Central.

De acordo com o pró-reitor, os eventos comemorativos continuam no decorrer de 2014. Uma das atrações mais aguardadas é o Espaço Angelo Bigi, previsto para agosto. A mostra permanente vai contar com painéis móveis no hall de circulação do cine-theatro. Para a criançada, terá teatro aos domingos com o projeto "Ciranda Central". O edital será aberto às companhias de todo o Brasil no primeiro semestre. Seguindo a proposta do programa "Luz da terra", os ingressos serão comercializados a preços populares, com destinação de parte da bilheteria a instituições e escolas públicas.

Conforme já anunciado, o espaço será fechado ao público no mês de maio para reforma. Em junho os trabalhos continuam, com a casa em funcionamento. A obra deve durar quatro meses e o valor não foi divulgado.

Na lista de intervenções estão pintura interna e externa, restauração das janelas e resolução de problemas de escoamento de água pluvial. Também devem ser realizadas ações que visem a melhora na acessibilidade para deficientes físicos. A instalação de ar-condicionado voltou a ser estudada, mas ainda depende de aprovação do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Quando o Central foi projetado, não se falava em ar-condicionado. Ele é bem ventilado, a grande quantidade de janelas é para isso mesmo", afirma Guedes, adiantando que também há a possibilidade de compra de equipamentos de sonorização e iluminação.

 

 

Um pouco mais de memória

Segundo o professor Murílio Hingel, ministro da Educação no Governo Itamar Franco, antes de o Cine-Theatro Central pertencer à universidade e ser restaurado, em 1994, o espaço estava completamente deteriorado. Por isso, foi necessário haver uma mobilização da sociedade para a aquisição do edifício, que era de propriedade da Companhia Franco-Brasileira. "Ele estava em péssimo estado de conservação. A impressão que se tinha é que a empresa esperava a ruína total do imóvel. Talvez para a construção de um shopping. A movimentação a favor da preservação chegou ao presidente Itamar. Ele se preocupava muito com a cidade e estava procurando uma alternativa para solucionar o problema, diz o professor", que intermediou o processo. "A Prefeitura não tinha condições de fazer a compra. O Governo federal tinha, mas nada justificava que ele fizesse a aquisição. A alternativa foi o Ministério da Educação transferir para a universidade os recursos necessários." Em 2014, ainda são celebrados os 20 anos do tombamento federal do Central pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Arquiteto e um dos membros do Conselho Diretor do Central no período da restauração, Jorge Arbach acompanhou de perto os trabalhos, encabeçando visitas agendadas ao local enquanto obras de arte eram encontradas. Os mais curiosos tentavam conferir, pelas janelas, o que se passava lá dentro. "Como a obra durou um ano, a cada semana havia um dado novo, e a curiosidade do público ia aumentando. Detalhes que, em uma semana, eram desconhecidos, na outra, eram revelados. No hall principal de circulação, aconteceu o achado mais marcante. Descobrimos que, seis anos depois da construção, o trabalho do Angelo Bigi foi coberto por pinturas chapadas. Tinha oito camadas nas paredes", conta Arbach.

 

Dirigida por Rodrigo Mangal, Edmárcia terá a meta de fazer a plateia retornar a 1926, quando Francisco Campos Valadares, Químico Corrêa, Diogo Rocha e Gomes Nogueira compraram um antigo barracão de ferro e telhas de zinco, que seria posto abaixo, para dar lugar ao Central. Responsável pelo projeto da obra através da companhia construtora Pantaleoni Arcuri, Raphael Arcuri acabou como sócio da empreitada. O prédio, de traços retos e estilo art déco, tornou-se um dos empreendimentos mais ousados para o período. Chamou atenção aquele edifício de concreto armado, ausência de pilastra na plateia e teto sustentado por estrutura metálica vinda da Inglaterra.

Waltencir Parizzi lembra, como se fosse hoje, que, nos anos 1960, o espaço sediou a programação do Festival do Cinema Brasileiro e do Festival de Música Brasileira. Não raro, o local é a opção de artistas consagrados, como Ney Matogrosso e Chico Buarque, para iniciar a turnê de seus espetáculos. Já passaram por lá, entre outros nomes, Grande Otelo, João Gilberto, Roberto Carlos e Nelson Gonçalves. "O Procópio Ferreira, pai da Bibi, era um homem que fazia temporada de 15 dias no Central. Todos os grandes eventos da cidade eram lá. Queria que voltassem com o cinema. A criançada ia toda com os pais. Tinha carnaval, gente correndo em volta da cadeira cantando e dançando. O povo frequentava o Central como se fosse a própria casa. Os estudantes não deixavam aumentar o preço da sessão. É um período que eu vivi com muito amor. Sei direitinho tudo que tem lá e me sinto orgulhoso por isso."

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