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23 de Maio de 2014 - 06:00

Parceiro da nova geração, cantor e compositor Di Melo, que faz show hoje ao lado do Silva Soul, nunca esteve tão vivo quanto agora

Por MAURO MORAIS

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Di Melo, "O imorrível", promete sucessos de 1975 mesclados a muitas inéditas
Di Melo, "O imorrível", promete sucessos de 1975 mesclados a muitas inéditas

Por muitos anos, os brasileiros desconfiaram que o cantor Di Melo, que em 1975 lançou o disco homônimo, considerado a raiz da soul music nacional, havia morrido. Em 2002, o pesquisador e músico Charles Gavin relançou a obra, em comemoração aos cem anos do selo Odeon. Sete anos depois, um curta-metragem de pouco mais de 22 minutos decretou logo no título: "Di Melo - O imorrível". Com depoimentos da cantora e DJ Catarina Dee Jah, dos músicos Simoninha, Max de Castro e Leo Maia, do cantor Junior Black, da cineasta Katia Mesel, além do próprio cantor compositor e sua mulher, o filme premiado Brasil afora confirma o vigor de um artista que enumera canções ao falar. E quando diz algo, sempre encontra a musicalidade das palavras. Pernambucano de forte sotaque, radicado em São Paulo, e galanteador nato, Di Melo está forte, potente, e seu universo é plenamente produtivo. "A vida é una, se nela você não faz aquilo que tem a lhe 'prazerar', se você está aqui e não sabe até quando irá ficar, nem há como considerar o que possa vir a ser ou se chamar, viva, pois ninguém jamais conseguirá viver ou conter suas emoções. Tenho 12 músicas inéditas com um cara que diz: 'Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer'. Inclusive, estive essa semana com ele. Tenho uma música inédita com Jair Rodrigues, outra com Baden Powell, outra com Wando, outra com Emicida, uma música gravada agora com Rashid. Gravei com ZambaZim, estou tocando com o Zebra Beat e devo gravar um disco, ainda para esse ano, com o Black Rio. Estou fazendo esse trabalho maravilhoso com o Silva Soul, que faz um som que nem o Santo Antônio com gancho consegue segurar, e é a bola da vez. Trabalho 72 horas por segundo. Não paro. Se eu marcar comigo, eu furo", afirma, enfático e melodioso.

O músico que faz show na noite de hoje com a banda local Silva Soul, no Baile do Silva, ao contrário do que se pensa, não parou no retumbante sucesso de quase quatro décadas atrás. "Todo mundo acha que o Di Melo tem só um disco, o da EMI/Odeon, mas há um compilado de 400 músicas, dois livros - "A mini-crônica da mulher instrumento" e "O bicho voador" -, ainda assim, a minha maior obra de arte é Gabriela Abade, Gabi Di Abade, cantando muito aos 8 anos, estudando música, fazendo inglês, abrindo e fechando os shows", conta, referindo-se à filha.

De acordo com ele, se antes havia algum motivo para pisar no freio, hoje existem diversos fatores que lhe fazem mergulhar na música: "Há uma preocupação hoje que não havia antes: tenho minha filha, para cuidar, educar, fazer valer, para fazer virar. A minha preocupação é fazer o que há de melhor para que ela tenha, além de uma retaguarda, um espelho."

Atento a seu tempo e, principalmente, ao que há de original nos dias que correm, Di Melo é parceiro de BNegão, Otto, Renegado e muitos outros, o que não lhe deixa margens para saudosismos. "O disco de 1975 já está superado. Eu me supero a cada instante, me surpreendo comigo mesmo, escrevo coisas que digo que não fui eu. Na madrugada, enquanto todos dormem, eu trabalho", brinca. "É como se esse disco tivesse sido feito na semana passada. As músicas novas, todas elas, fazem uma junção do 'útero' ao agradável e vão se encaixando. Estou dando 'seguimento' e sedimentando o som. As músicas pegaram um pique. Os jovens e os DJs do mundo inteiro aderiram. Tudo é tempado, tudo é prazado, nada acontece por acontecer, tudo tem sua razão de ser. Quando você faz por prazer difere muito de fazer por fazer. O bom e o belo andam de parceria."


O perseguidor do balanço

Segundo Marcelo Castro, baixista do Silva Soul, "o maior reflexo dessa jovialidade do Di Melo é a pareceria com gente nova". "Todo encontro com ele é animador, e isso reflete musicalmente. É sempre um aprendizado estar e tocar com ele. É nosso espelho", diz. No repertório do show, além das mais embaladas de 1975, como "Kilariô" e " Se o mundo acabasse em mel", estão novas composições, como "Fator temporal", "Engano ou castigo", "Diuturno" (da parceria com Emicida) e outras, capazes de evidenciar um autor de diversas tonalidades. "O disco de 1975 tem sambas, tango é plural. A soul music no Brasil é múltipla assim. Toda a informação que chegou aqui, vinda dos Estados Unidos, chegou misturada com a música brasileira. Não temos, em momento algum, uma soul music pura. E nem tem graça ter, já que o legal é esse. O Di Melo não faz soul por natureza, faz balanço, e nego fala que é soul. Balanço tem samba rock, é tudo junto. Nesse ponto, realmente, ninguém representa esse estilo como ele", pontua Castro. "Como pernambucano, ouvia Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, mas ouvia tudo, até Paul Anka e Jimi Hendrix. Bote uma guitarra na minha mão que eu detono", completa Di Melo falando de suas referências.

O som precursor, o suingue caracteristicamente brasileiro e as letras de fina sensibilidade demarcam um artista raro no mercado e fora dele. O "imorrível" é também a representação de um país que se busca singular. "Quando você persegue uma determinada coisa, é normal que isso passe a lhe perseguir. Se tem a ver, claro. Há uma preocupação em fazer algo que satisfaça não só ao ego. Há uma preocupação em deixar um legado", diz, para logo completar: "Não basta só ser um bom artista. Tem que ser, acima de tudo, gente. Muitos caras nem tocam tanto e criam um rei na barriga. Isso não leva nada a lugar nenhum. A simplicidade caminha com a razão. A beleza está na singeleza. As coisas sensíveis dizem mais. Não influi nem contribui a arrogância. Faz tempo que foi descoberto que a real burrice não tem transplante. O que flui, que vai do coração, leva à razão. Quando olho minha trajetória, sinto que há em mim uma sede de viver tudo ao mesmo tempo, por isso me tornei 'imorrível'."

SILVA SOUL CONVIDA DI MELO

Hoje, às 23h

Cultural Bar

(Av. Deusdedit Salgado 3.955)

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