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30 de Março de 2014 - 06:00

Fadados a serem apenas estatísticas, personagens vitimados pela violência ganham a posteridade pelas vias de expressões artísticas indignadas

Por MAURO MORAIS

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Sérgio Sabo mostra trabalho da série "Banalidade do mal", com o barco como símbolo da passagem
Sérgio Sabo mostra trabalho da série "Banalidade do mal", com o barco como símbolo da passagem

Damião Ximenes Lopes tinha 17 anos quando teve a primeira crise psiquiátrica. Durante 13 anos, o jovem de temperamento introvertido viveu momentos de serenidade e outros de intenso transtorno, o que fez com que a família humilde, moradora de Varjota, município com pouco mais de 17 mil habitantes no interior do Ceará, decidisse por interná-lo. A esperança na recuperação de Damião foi colocada, pela família, no hospital psiquiátrico conveniado ao SUS Casa de Repouso Guararapes, em Sobral, cidade vizinha. Após muitas idas e vindas, ele adentrou a instituição, pela última vez, no dia 1º de outubro de 1999. Nunca mais voltou para casa. Espancado até a morte pelos enfermeiros, Damião morreu no dia 4, confirmando o que dizia sobre a violência do manicômio, discurso ignorado pelos mais próximos, que acreditavam na recusa do paciente ao tratamento. Conhecido no meio jurídico por ter sido o primeiro caso de condenação no Brasil pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que, após denúncia de familiares, em 2006, obrigou o país a se responsabilizar pela violação dos direitos à vida e à proteção judicial, investigando o crime, até então silenciado, o caso de Damião ainda é desconhecido em grande parte do país.

Passados quase 15 anos, a cantora paulista Juçara Marçal canta: "Dá neles, Damião!/ Mesmo que peçam clemência./ Faz que é tua essa demência,/ faz pesar a consciência do plantão./ Dá neles, Damião!/ Mira no meio da cara./ Dá com pé, com pau, com vara./ Bate, até virar a cara da nação". Relegado à fria estatística de mortes violentas no país, Damião é lembrado pela composição de Douglas Germano e Everaldo Efe Silva. Como em tantas outras criações artísticas, a realidade, objetiva e dura, é tomada de assalto, acrescida de subjetividade, em tom indignado. Ainda que Damião não seja apresentado em sobrenome, em características físicas, em veracidade que comprove sua existência, é na música o lugar onde ganha força e até mesmo rebeldia. "É uma morte brutal. É uma covardia brutal. Uma vergonha brutal. A canção foi um desabafo, uma revolta, uma vontade real, física, de partir para cima de quem cometeu este crime. Sinceramente, não penso no 'eternizar'. O que há é a intenção, a vontade de manter a situação congelada diante do espectador, no tempo que for necessário, para que ela possa estimular reflexão e transformação no ouvinte e no meio", comenta o autor Douglas Germano.

"Arte é política, divergência, posicionamento, questionamento, reflexão e ética. Interfere na vida em sociedade, no indivíduo, e, portanto, é política. Todos os adjetivos ou condições que podemos propor para uma boa política servem para a arte. O principal elemento que faz essa engrenagem girar, e a arte ter função de fato, é a lucidez sobre a função social da arte, como registro de seu tempo, como elemento transformador do indivíduo e da sociedade, como elemento que aumenta a nitidez da singularidade que só reforça o coletivo", discute Germano, que lançou a canção em 2011, no álbum "Ori", e, somente agora, foi gravada por Juçara no disco recém-lançado "Encarnado".

 

 

'O anjo venceu a guerra'

Essa arte que não deseja passar à margem de seu tempo não é algo novo ou estritamente nacional. Stuart Angel Jones poderia ter sido um dos muitos desaparecidos políticos durante a ditadura militar, mas a coleção de protesto de sua mãe, a estilista Zuzu Angel - mineira de Curvelo, radicada no Rio de Janeiro -, fez com que o filho se transformasse em um representante de todos os outros militantes silenciados. Maior exposição de sua obra, reunindo documentos e vídeos, a "Ocupação Zuzu", que será aberta no próximo dia 1º, no Itaú Cultural de São Paulo, apresenta fotografias e peças do desfile de protesto, realizado em Nova York, em 1971, mesmo ano em que o filho foi preso, torturado e morto. "Muitas vezes a gente pensa em Zuzu como se toda a busca pelo filho tivesse parado a criação artística dela como estilista. Mas não, a criação é quase uma salvação, uma expressão da dor que sentia. Ela era aquela mulher que precisava dar a volta por cima, sobreviver. O anjo venceu a guerra. De 1971 a 1976, ela criou trabalhos bastante representativos de toda sua carreira", destaca o diretor de arte da mostra, Valdir Alves. "Tem uma representação maternal no trabalho dela. Quantas mulheres buscaram os corpos de seus filhos? A Zuzu representou todas elas", completa.

Após o trauma, o lugar do sensível é tomado pelo desconforto, e a figura da mãe não mais se descola da faceta da artista. Da mesma forma, o artista de Muriaé Sérgio Sabo não se distancia do pai entristecido após um ato de violência urbana cometido contra o filho Rafael. Em 2007, o jovem de 16 anos foi assassinado brutalmente durante uma festa no município da Zona da Mata mineira. No ano seguinte, Sabo, que havia acabado de se mudar para Juiz de Fora, expôs "Banalidade do mal", na qual retratava diretamente a perda, trabalhando sobre a certidão de nascimento, o atestado de óbito, o skate, os tênis e outros objetos e documentos do filho. "Minha voz é minha arte. Ao invés de pegar uma arma, crio. Através do meu trabalho, impus o que considerava ser o meu dever como ser humano, cidadão, artista, e, acima de tudo, como pai. Não consigo separar quem é o pai e quem é o artista. Rompi com isso. Como artista e como pai, sinto a ausência do meu filho", conta.

Se em momento imediato as pinturas e esculturas de Sabo expunham, com crueza, a dor que sentia, ao longo dos anos outro discurso, menos objetivo, foi ganhando lugar em sua produção, como apresenta na série ainda inédita "Verdades vazias". "A violência da minha resposta a tudo isso foi atenuando de outra forma. Fui encontrando metáforas para poder criar um painel visual, mostrando meu incômodo, confrontando a sociedade, denunciando", diz, apontando para sua forte relação com o neoexpressionismo e com a perseguição a um trabalho conceitual. Contudo, o que antes era abstrato, após o drama pessoal, deu lugar a imagens concretas. "Em 'Banalidade do mal' explicitei, diretamente, sem metáfora nenhuma, tudo o que aconteceu. E assim decidi voltar à arte figurativa. Seria hipocrisia demais da minha parte fazer uma arte só com questionamento estético. A mudez já não é compatível com o que quero colocar. Quando me iniciei nas artes, nos anos 1980, eu me apropriava do trabalho figurativo neoexpressionista. Hoje não estou fazendo, então, outro tipo de trabalho, apenas uso outra expressão", avalia. "A arte tem essa função também, ela é terapêutica, é catártica, é uma maneira de estar", defende.

 

 

 

A arte humaniza e sensibiliza

Produzida para a exposição "Revendo Brasília", de 1994, a instalação "Imemorial", da mineira radicada no Rio de Janeiro Rosângela Rennó, devolve a dignidade retirada de trabalhadores empregados na construção da capital federal. Ao apresentar 50 retratos, de homens, mulheres e crianças, o trabalho joga luzes sobre uma história pouco conhecida, descoberta quando Rennó encontrou, em um armazém do Arquivo Público do Distrito Federal, mais de 15 mil documentos revelando o massacre em barracas de obra e a morte de dezenas de trabalhadores no processo de construção da cidade, os quais foram todos enterrados nas fundações. Dos restos, a artista fez surgir um gesto de redenção. De forma semelhante, o chileno Alfredo Jaar presta tributo às vítimas da guerra civil de Ruanda, na África, no trabalho "The eyes of Gutete Emerita". Exposta no Brasil na 29ª Bienal de São Paulo, a obra reúne um milhão de slides com os olhos de Gutete Emerita - mulher de olhar triste, que testemunhou a chacina do marido e dos dois filhos -, sobre uma mesa de luz.

Após levar um tiro ao sair de casa para comprar pão, Cláudia da Silva Ferreira, a mulher que foi posta no porta-malas da viatura policial, no Rio, e depois, ao cair na rua, foi arrastada por mais de 300 metros, também representa a sociedade na qual estava inserida. Idealizado pelo site "Olga" (thinkolga.com), o projeto "100 vezes Cláudia" reúne desenhos, pinturas, aquarelas e outras artes feitas por amadores e profissionais de todo o Brasil. Em 24 horas, o projeto atingiu a meta de cem trabalhos, e o site já planeja uma exposição com o material em homenagem a uma das muitas vítimas da violência urbana brasileira. "A ideia nasceu de uma vontade de tentar resgatar a humanidade que esse crime tirou da Cláudia. Havia aquela imagem terrível dela sendo arrastada, que foi uma denúncia e foi importante, mas acabou sendo a única imagem que tínhamos dela. E a Cláudia foi uma mulher, mãe, esposa, trabalhadora. Existem formas mais carinhosas e bonitas de retratar um crime, apesar de a denúncia ser muito importante", comenta a jornalista e criadora do site, Juliana de Faria.

De acordo com o professor da Faculdade de Comunicação Social da UFJF Wedencley Alves, essa representação através da arte é parte importante na compreensão da sociedade. "A composição da memória não é feita somente a partir de fatos ou estatísticas, isto é, de narrativas realistas. Ela, muitas vezes, é constituída pelo que há de produção ficcional, de poesia, dentre outras artes", comenta, apontando para o quadro "Guernica", de Pablo Picasso, cujo fato retratado possui escassos relatos.

"De alguma maneira, as artes que se referem à violência cotidiana podem trazer um pouco mais de humanidade e sensibilizar algumas pessoas que não se sentiram tocadas pelos dados e pelos fatos. Para a arte, uma Cláudia é uma simbolização de toda uma coletividade que passa por um processo de violência institucional, simbólica, física, psicológica. Enquanto para uma notícia de jornal Cláudia tem nome, sobrenome, idade, e é uma pessoa específica, quando é retomada pela arte tem em sua linguagem uma característica muito interessante. Quando lemos um livro, percebemos que há uma humanidade. E isso é uma característica da arte insuperável. Nenhum tipo de narrativa pode ser mais eficaz na sensibilização da sociedade que a arte."

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