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27 de Dezembro de 2013 - 07:00

Em 'Nu, de botas', escritor Antonio Prata resgata suas memórias de infância com o humor e a malícia de adulto

Por MAURO MORAIS

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Como pensam os pequenos? Em certas vezes, as crianças parecem agir com meticulosa lógica, em outras, reagem com a argúcia de veteranos. Algumas têm tiradas incríveis, outras contam mentiras inegavelmente críveis. Diante delas, fica a sensação de que, caso dominassem a língua, dominariam o mundo. Em "Nu, de botas" (Companhia das Letras, 140 páginas), novo livro de Antonio Prata, não sobra espaço para a sensatez dos grandes. O filho de Mário Prata passa a limpo algumas de suas memórias infantis, lançando mão do repertório do mundo adulto. A equação, recheada de humor, parte de suas lembranças e histórias que lhe foram contadas, resultando em relato original, em que o saudosismo recria uma atmosfera facilmente identificável.

E quem nunca se derreteu pelo palhaço Bozo? No segundo capítulo da obra, Prata conta sobre o dia em que conseguiu, finalmente, ligar para o número que passava durante o programa infantil. Do outro lado da linha, uma voz semelhante à de Bozo o atendeu, e ele pediu uma bicicleta. Mas, criança que era, não sabia o endereço, apenas parcas referências como "a única casa azul da vila", que de nada valiam para a produção da atração. "Passamos boa parte das tardes daquele ano no quarto da mãe do Henrique, de bruços, no grande colchão d'água, os olhos vidrados na TV e as mãos no telefone, mas só deu ocupado", recorda.

Frustração semelhante o garoto sofreu ao viajar com amiguinhos e não levar uma cueca sequer na mala. Para sua vergonha, a mãe do colega ligou para sua mãe e ouviu que o garoto não usava a tal vestimenta. Todos souberam, e ele nunca se esqueceu do fato. Mas passou a usar cueca, logicamente, depois de compreender o porquê da pequena peça. Em "Cueca II", o autor rememora o Natal de quando ganhou uma. "Prender no zíper? Mas e quando usava moletom ou short? Deixar tudo juntinho? Mas o legal era que aquilo balançava, ué. Proteger o pinto? Do quê? De quem? E se de fato algo ou alguém resolvesse atacá-lo, cobri-lo com aquela fina camada de algodão não me parecia a melhor estratégia. (Uma cueca de aço, como a de uma armadura, seria muito mais útil - e, pensando bem, muito mais legal.)".


Ser curioso

Reunindo passagens que lhe marcaram dos 2 aos 10 anos, Antonio Prata confirma, no novo livro, seu espaço como uma das principais vozes da nova geração da literatura brasileira. Presente na coletânea da "Revista Granta", que lançou ano passado uma edição dedicada aos "Melhores jovens escritores brasileiros", o autor bebe na fonte de seu pai, Mário Prata, utilizando-se de altas doses de humor. Mas também traça um caminho próprio ao abrir mão de um rigor técnico em prol de uma narrativa fluida, com ares de crônica, mas com um raro domínio dos diálogos. Sem grandes pretensões, o escritor integra um grupo de autores nacionais comprometidos com a dessacralização da literatura.

Para isso, "Nu, de botas" reserva capítulos menos irônicos e engenhosos, mas ricos em uma poesia dissipada. Em "Mulher pelada", o narrador se recorda de quando descobriu que as casas repletas de neon na fachada, defronte para o teatro Cultura Artística onde o pai exibia uma peça, eram, na verdade, bares de strip-tease. Aos 5 anos, ele tinha mulher pelada como a mãe pronta para entrar no banho, e não como aquelas que serviam aos olhos de "homens sem namoradas", nas palavras paternas. O desconcerto, próprio de uma pessoa plena em curiosidades, lhe acompanhou até o dia em que, já crescido, adentrou o lugar. "Só quase 20 anos mais tarde atravessei uma daquelas portas espelhadas: as mulheres eram diferentes do que eu havia imaginado, mas os homens estavam lá, bem como eu os havia pintado".

E foi a curiosidade que levou o pequeno Prata a gostar da festa do seu Duílio, o pai do marido de sua tia. A princípio, a festa de um idoso desconhecido não o comoveu, muito menos o fato de saber que no local encontraria outras crianças de sua idade. "Invariavelmente, elas já se conheciam e recebiam este intruso com a hospitalidade reservada aos forasteiros em filmes de Velho Oeste.

Se íamos brincar de esconde-esconde, elas sabiam os melhores lugares para se enfiar, e tinha sempre um mais velho que salvava o mundo vez após outra, e eu acabava eternizado na condição de pegador. Uma hora alguém aparecia com uma bola, gritava 'bobinho!', quando eu ia ver já estava no meio de um círculo, correndo de um lado para o outro, sem ar e com um nó na garganta, ouvindo 'olé!'". O que poderia se tornar um inferno se transforma em paraíso ao avistar o aniversariante e sua deficiência. Poderia ser um pirata, mas era um conhecido que não tinha uma das pernas e o recebeu de prontidão, contando-lhe sobre o membro ausente.

Afinal, quando acaba essa curiosidade em demasia, esse olhar interessado e puro da criança? Para Prata, o amor define a mudança de fase. No último capítulo da obra, para demarcar o crescimento, ele resgata o primeiro disparo do coração. "Uma vontade de sentar a seu lado na classe; uma tendência a me meter atrás dela na fila do bebedouro, sem nenhuma intenção de beber água; um prazer misterioso em espiá-la de longe, no pátio, comprando o lanche na cantina, pulando elástico, fazendo um rabo de cavalo antes de entrar na queimada". Quando as certezas tomam conta dos miolos das crianças, está findada a infância. "Nu, de botas" defende a sinceridade e a naturalidade dos pequenos.

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