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23 de Janeiro de 2014 - 07:00

Após a morte de Nívea e Décio Bracher, família estuda futuro de residência que marcou as artes em Juiz de Fora

Por MAURO MORAIS

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Do alto da torre do castelinho, idealizada por Nívea, Carlos e o irmão Paulo Bracher avistam a cidade
Do alto da torre do castelinho, idealizada por Nívea, Carlos e o irmão Paulo Bracher avistam a cidade
O violoncelista Lucas, terceira geração dos Bracher, ocupa a casa provisoriamente
O violoncelista Lucas, terceira geração dos Bracher, ocupa a casa provisoriamente
Castelinho dos Bracher precisa de restauração tanto da fachada quanto das obras em seu interior
Castelinho dos Bracher precisa de restauração tanto da fachada quanto das obras em seu interior

Do alto, uma cidade com seus prédios e seus morros, entre o verde das bordas e o cinza do centro. Do lado de dentro, outra cidade, com uma paleta mais complexa, capaz de contar a história local das artes. Empilhados e espalhados pelas paredes estão os quadros de Carlos, Celina, Décio, Nívea e Paulo Bracher, além de uma coleção grandiosa do artista carioca radicado em Juiz de Fora Roberto Gil. Pelas salas, quartos e até mesmo no banheiro, é possível encontrar as muitas referências dos Bracher. Apesar do silêncio deixado pelas recentes mortes de Nívea e Décio, únicos moradores da casa nas últimas décadas, os corredores do pequeno imóvel ecoam uma memória de quando cultura e intelecto andavam juntos.

Localizado no número 300 da Rua Antônio Dias, no Bairro Granbery, o Castelinho dos Bracher foi projetado por Raphael Arcuri para ser sua primeira moradia, mas logo passou ao irmão, Romeu, que mais tarde vendeu para a família Bracher, cuja mudança só se deu após ampla reforma de Luiz Gonzaga Ribeiro de Oliveira. O tombamento municipal data de 1999. Mesmo que seu interior, sua fachada e as muitas obras de arte guardadas lá dentro careçam de restauração, fechar as portas não faz parte dos planos de Carlos e Paulo. Como diz Lucas Bracher, filho de Paulo, "a escola aconteceu sem querer". "A condição de vida da casa foi a festa, a coletividade. E a festa é o grande sentido de união das pessoas. Esse espaço era do conhecimento. Aqui foi uma efetiva universidade livre", conta o artista plástico Carlos Bracher, de 73 anos, caçula dos cinco filhos de Waldemar e Hermengarda Bracher.

De acordo com Paulo Bracher, de 78 anos, a irmã Celina, que partiu em 1965, foi a grande agitadora da casa. "Aqui não tinha hora de chegar, sempre tinha muito movimento", recorda-se o único irmão que não escolheu a arte como caminho profissional, tendo se aposentado como funcionário público. Apesar de ter se aventurado pelas telas raras vezes, Paulo herdou da mãe a paixão pelo canto coral, que também dava o tom da residência. "De tão cheia, às vezes, não tínhamos nem lugar para dormir", lembra, aos risos, Carlos. "Dentro da mesma sala de visitas - que, aliás, é pequena - Carlos modelava, num canto, um busto de argila; Celina, noutro, escrevia poemas; Paulo, que herdou tanto do pai quanto da mãe suas respectivas veias musicais, ouvia seus discos prediletos; Décio - arquiteto e professor - e Nívea pintavam; e Hermengarda e Waldemar tocavam piano e cantavam", registra o crítico e curador Olívio Tavares de Araújo, no livro "Bracher", de 1989.

 

'A força da rebeldia passou a ser aqui'

 Com a morte de Celina, a família se empenhou em levar para o Centro o clima efervescente, sempre regado a pipoca ("Nem Coca-cola tinha. Essa casa foi mantida pela pipoca", diz Carlos). "A Galeria de Arte Celina foi a nossa maneira de expurgar uma grande dor. Era uma congregação das múltiplas faces artísticas. Não priorizávamos apenas as artes plásticas. Trouxemos até a peça 'Liberdade, liberdade', com o Paulo Autran. E isso em pleno 1966, na cara dos militares", conta Carlos, enumerando, ainda, cursos de cinema com nomes de peso no país e mostras nas quais podiam ser vistas obras de Picasso, Morandi e Chagal. "Por duas vezes, o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo cedeu o acervo deles, graciosamente, sem cobrar nada e sem seguro. A Nívea chegou até a fazer contato com o Assis Chateaubriand, para trazer um museu para cá. Em1966, foram feitos mais de 500 eventos na galeria. As melhores cabeças iam para lá", completa.

Segundo Carlos, num tempo no qual a única iniciativa do governo local na área da cultura era um tímido salão de artes, a família cumpriu o papel que seria do Estado. "A casa era o centro efervescente. A força da juventude, da rebeldia, passou a ser aqui", diz Carlos, o segundo a sair (Paulo mudou-se em 1963), em 1968, quando ganhou o Prêmio Viagem ao Exterior e transferiu-se, já casado com a pintora Fani Bracher, para a Europa. Dois anos depois, regressou já para fixar moradia em Ouro Preto, onde reside até hoje. Em 1969, Nívea seguiu para a Europa, passando pelos Estados Unidos e pelo Canadá, retornando em 1971. Décio saiu de casa na década de 1970, seguindo para o Rio de Janeiro, de onde retornou no início dos anos 2000, para cuidar da irmã, diagnosticada com câncer. "Esses últimos anos foram dificílimos para ele, que já não andava bem de saúde. Nos 15 dias finais, ele entrou em um mutismo sem tamanho. A resistência dele durou até a Nívea partir", emociona-se Carlos.

Homem de absoluta erudição, o último morador do Castelinho dos Bracher deixa como legado suas aquarelas precisas, seu desenho minucioso, sua sabedoria irrestrita e um tanto de bom humor. "O Décio desenhava de cabeça tudo o que a pessoa tinha que conhecer em viagem, com detalhes de fachada e tudo mais. Tinha, com clareza, as plantas de cidades europeias na memória", recorda-se o sobrinho Lucas. "Ele falava sobre qualquer assunto, da Grécia antiga à Stravinsky. E não era um sujeito professoral. Passava todo o seu conhecimento de uma forma tranquila, bastante humilde. Tinha o prazer e o enlevo da cultura, além de um humor imenso. Brincava com tudo, sempre com certa ironia. Era tão vibrante e tão terno, com um brilho sem tamanho. Ele e Nívea tinham uma combinação fora de série", lembra Carlos, apontando que a queda do irmão se deu, justamente, pela perda de sua maior interlocutora.

'Entre o passado sonhador e a dura realidade'

"A casa se torna acéfala", disse Carlos Bracher entre as lágrimas do impacto, no dia seguinte da morte do irmão. Porém, o desejo de Décio, segundo os irmãos, era de que a residência se tornasse um espaço para a reflexão. "Ele fez vários projetos para o lote do lado, que era dele e da Nívea. Agora, precisamos estudar. Ainda não sabemos o que fazer. São choques recentes, e ainda nos encontramos em um breu. O sentimento deles é de que isso continuasse, como museu ou como um centro de ativação artística", aponta Carlos. "Agora é o embate entre o passado sonhador e a dura realidade", analisa Lucas, terceira geração de uma família oriunda de Belo Horizonte, cujo desembarque em Juiz de Fora data de 1940. O filho de Paulo, violoncelista, o músico André, filho de Décio, e a atriz Larissa, filha de Carlos, são os únicos dos oito jovens que se decidiram pela arte.

Por enquanto, Lucas - recém-chegado da Itália - e seu violoncelo ocuparão o castelinho, na expectativa de que o espaço volte a reviver os períodos de "escola". Segundo ele, dinâmicas da casa, como a porta constantemente aberta, já não fazem sentido, assim como o espaço vazio. Os muitos quadros de linguagens nascidas na Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, as paredes e os tetos pintados em alusão a Man Ray, Matisse, Frank Stella e Mondrian, assim como as fotografias e as peças da antiga Louçarte, merecem olhares atentos.

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