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14 de Maio de 2014 - 07:00

Releituras de conceituadas obras da história da arte, feitas pelo artista Adauto Venturi, despertam o olhar para os espaços públicos de Juiz de Fora

Por MAURO MORAIS

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Releitura de "Homem Vitruviano", de Da Vinci, ganha tridimensionalidade
Releitura de "Homem Vitruviano", de Da Vinci, ganha tridimensionalidade

No meio do caminho, tinha uma escultura. Para os que passam pelo entroncamento entre a Alameda Pássaros da Polônia e a Ladeira Alexandre Leonel, que liga os bairros Cascatinha, São Mateus e Estrela Sul, há uma escultura, recente, no meio do caminho. Em outro endereço, numa praça situada no cruzamento entre a Avenida Rio Branco e as ruas Morais e Castro e Dom Silvério, há mais uma obra. Produzidas em aço carbono, aço corten e fibra de vidro com resina cristal, as esculturas agigantadas, medindo mais de dois metros de altura, foram instaladas durante a Semana Santa, em abril, e deverão permanecer por mais oito meses, tempo em que entrarão em cena outras quatro peças. De autoria do artista plástico Adauto Venturi, pintor com extensa atuação na cidade, todas pertencem ao projeto "Desnudamento de ícones", financiado pela Lei Murilo Mendes. Até agosto duas novas obras serão conhecidas, e, em dezembro, quando as duas últimas forem fixadas, será aberta uma exposição com protótipos e um catálogo.

Para uma cidade cuja fruição urbana se baseia, principalmente, na arquitetura, com expoentes de épocas e estilos diversos, e nos grafites, que ganharam força e vigor expressivo nos últimos anos, os monumentos de Venturi dão novo fôlego às ruas. De acordo com dados da Divisão de Patrimônio Cultural da Funalfa, a cidade conta, hoje, com 30 monumentos tombados, a grande maioria formada por estátuas representativas de nomes que muito contribuíram com a história local. Das muitas praças que Juiz de Fora comporta, poucas são as que possuem uma escultura. Até mesmo a praça que leva o nome de Arlindo Daibert, um dos importantes artistas da cidade, não faz referência ao autor da série "Macunaíma de Andrade". "Juiz de Fora precisava de um campo escultórico, um jardim de obras. Quem sabe a Curva do Lacet (Praça José Gattás Bara, no Cascatinha), não possa servir como um bom espaço para interferências artísticas?", indaga Venturi.

"Desburocratizar a obra de arte. É assim que ela se torna parte do cotidiano das pessoas. Ao democratizar e socializar a própria arte, a retiramos do universo pessoal e a levamos para o coletivo. Essa é uma forma de educar o olhar", reflete Venturi. "A correria do dia a dia é tão direcionada ao objetivo, ao consumismo, que, muitas vezes, as pessoas não têm a chance de descobrir o que há em uma galeria. E os artistas têm uma visão de mundo diferente, que é importante levar para as pessoas." E não há como evitar as primeiras peças do artista, inseridas em locais bastante movimentados, onde o barulho dos carros cria uma sonoridade completamente distante do lugar da arte.

 

Clássicos ganham continuidade

Em "Desnudamento de ícones", seis obras fazem releituras de trabalhos conhecidos, oferecendo uma leitura particular da história da arte, partindo da mitologia grega e desaguando no modernismo brasileiro. Retirado de sua bidimensionalidade e exposto em terceira dimensão, o "Homem Vitruviano", de Leonardo Da Vinci, localizado na praça próxima à subida para o Estrela Sul, ganha, no olhar de Adauto Venturi, a poesia dos círculos, e à dureza do aço é sobreposta a delicadeza da forma humana. Já no trevo entre os bairros Bom Pastor e Alto dos Passos, a releitura da escultura "Vitória de Samotrácia", que representa a deusa grega Nice e é um dos tesouros do Museu do Louvre, em Paris, na França, reproduz o movimento presente na obra feita em pedra. "Ela se tornou um ícone do período helenístico. Meu interesse está na leveza que ela detona e na cena potente", diz o artista, que deu à obra o título "Há em você a motivação para vencer?", interagindo ainda mais com o público passante.

Uma das próximas peças a serem instaladas é a releitura do Deus Atlas, que deverá se fixar na Praça São Mateus, na Avenida Independência. "É o que segura o firmamento, o mundo", diz Venturi, referindo-se à estátua do homem amparando, com as costas, o globo. "O homem é o único animal que consegue transformar o planeta e criar muito lixo para isso tudo. Nessa escultura, faço o homem segurando uma sucata", conta. Já a interpretação de "Tiradentes supliciado", quadro de Pedro Américo que integra o acervo do Museu Mariano Procópio, que será fixada em uma praça no bairro Jardim Glória, ainda não está completamente formatada, mas será apresentada em tridimensionalidade, bem como a nova leitura de "Abaporu", obra-prima de Tarsila do Amaral, que ficará exposta na Praça Antônio Carlos. "Não quero fazer um recorte e deixar plano. Quero mostrar como são as costas do Abaporu. Esse é meu grande desafio", comenta.

Levantando a discussão acerca dos heróis nacionais, da violência crescente, retiradas de "Tiradentes supliciado", assim como debatendo o trabalho, texto presente em "Abaporu", Venturi insere em seu projeto a representação da escravatura, vastamente explorada pela produção pictórica universal. Segundo ele, a obra que ganhará a praça em frente ao Parque da Lajinha, no Teixeiras, além de suscitar questões sobre os escravos contemporâneos e as situações de serventia, também faz referência ao próprio espaço no qual se enquadra, já que a região serviu como residência para os primeiros escravos que chegaram à cidade. "Dentro da história da arte, eu quis fazer meu pot-pourri. O contemporâneo a meu favor me dá a possibilidade de reconstruir tudo", diz o artista.

Duas das seis peças serão doadas à Prefeitura e, certamente, ocuparão espaços públicos, forjando uma galeria a céu aberto como bem faz o Rio de Janeiro, com mais de 1.100 monumentos registrados e conservados, entre eles peças dos principais artistas brasileiros, além de estátuas menos sisudas que os antiquados bustos, como a de Drummond na calçada da Praia de Copacabana. "A intervenção das pessoas não me impede de trazê-las para a rua. A arte sensibiliza, cria respeito, contribui para uma sociedade melhor", pontua Venturi. "Parafraseando Milton Nascimento e Fernando Brant, em 'Nos bailes da vida', a arte tem que ir aonde o povo está. Essa é a intenção e a missão de todo artista."

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