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29 de Março de 2014 - 06:00

Uma das vozes da literatura afro-brasileira, Carolina Maria de Jesus, que esse ano completaria cem anos, mantém-se atual ao relatar a vida na favela

Por MAURO MORAIS

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A justiça pela palavra. Para Carolina Maria de Jesus sua escrita era o decreto da voz de prisão. "Vou botar vocês no meu livro!", bradou, em 1957, para alguns desafetos vizinhos na favela do Canindé, no distrito de Pari, na capital de São Paulo. A ameaça inusitada chamou a atenção do jovem repórter da "Folha da Noite" Audálio Dantas, que, presenciando a cena, se dispôs a conhecer o tal livro. "Voltei para a redação e desisti de minha reportagem inicial. Eu achava impossível poder expressar aquela situação de vida sem vivê-la. E a Carolina fez isso de maneira muito forte", conta, corroborando o vigor e a singularidade da narrativa em primeira pessoa que se mantém legítima e relevante no ano em que a escritora negra e favelada completaria 100 anos. Apesar de não ser vasta a programação em comemoração, alguns projetos se destacam, como o Coletivo Carolinas, de Salvador (BA), criado exclusivamente para pensar ações acerca da data. Na periferia de São Paulo, estão previstos saraus de poesia em reverência à autora, enquanto na internet um site de crowdfunding busca patrocínio para uma edição comemorativa do centenário, com textos inéditos.

"Lembro-me dela no momento em que ela disse estar escrevendo um livro. A presença dela era muito forte. Ela era uma pessoa imponente, muito afirmativa. Quando disse que ia colocar os nomes das pessoas, dos desafetos dela, no livro, foi um momento muito significativo", relata o jornalista, organizador de "Quarto de despejo", obra resultante dos diários da mineira nascida em Sacramento, no Triângulo Mineiro, e radicada às margens do Rio Tietê, em um casebre que dividia com os três filhos, sustentados pelo lixo que a mulher de traços fortes catava na rua.

Descortinando um cotidiano de miséria e inúmeras outras dificuldades, o livro se inicia com uma confidência dolorida, escrita em 15 de julho de 1955: "Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar". "O livro, inicialmente, foi recebido com grande preconceito, inclusive por parte da academia. Algumas pessoas a tratavam como se Carolina fosse um bicho estranho e não uma pessoa do povo que, de repente, teve condições de se expressar fazendo aquele trabalho", recorda-se Dantas.

Best-seller entre ricos e pobres, "Quarto de despejo" foi traduzido para 13 idiomas e fez Carolina circular pelas mais diferentes rodas, conhecendo escritores de prestígio, como Clarice Lispector, com a qual foi fotografada em registro histórico. Segundo o jornalista que a descobriu, Carolina conheceu o outro lado. "No livro 'Casa de alvenaria' ela coloca exatamente o choque cultural que foi viver entre a sociedade integrada, principalmente entre a classe média estabelecida. Ao mesmo tempo, como era uma pessoa que buscava o sucesso, e isso vinha de longa data, Carolina se embriagou bastante com a glória. Sem contar os problemas decorrentes da questão do dinheiro, de gente batendo na porta querendo empréstimos, outros propondo negócios, outros, ainda, casamentos."


As muitas exclusões de Carolina


De acordo com Audálio Dantas, Carolina Maria de Jesus alcançou o sucesso editorial mas nem por isso deixou de sofrer com o meio no qual adentrava. "Alguns intelectuais reconhecidos, críticos importantes, afirmaram de pés juntos que aquilo não poderia ser de autoria dela. Era uma invenção e, sendo invenção, seria, por consequência, uma fraude", conta, certo de que as verdades contidas nas narrativas da escritora conquistaram o público pela crueza de um discurso sem edições. "Não tenho dúvidas de que, se o diário tivesse caído nas mãos de um acadêmico, ele se transformaria em estudo todo empolado e não sairia dos limites da academia", diz.

Contudo, foi pelas muitas universidades que a voz de Carolina ganhou a posteridade. Ela, que lançou também "Casa de alvenaria", de 1961, "Pedaços de fome", de 1963, "Provérbios", do mesmo ano, e o póstumo "Diário de Bitita", de 1982, já não circula pelas grandes editoras do Brasil. Afora as muitas pesquisas acadêmicas feitas ao redor do país e também no exterior, ela hoje é publicada pela editora da UFRJ, com exceção de seus dois primeiros títulos, cujos direitos pertencem à Ática. Trinta e cinco manuscritos de sua autoria integram a coleção da Biblioteca Nacional e dois estão no Instituto Moreira Salles.

"A estrutura do chamado meio literário é muito complexa pois, dentre outros aspectos, pode-se dizer que, por um lado, ela é constituída por relações de poder, que revelam intensas disputas de caráter estético e também econômico; por outro lado, atuam nessa mesma estrutura pessoas e instituições íntegras, que desenvolvem trabalhos importantes para a construção de uma visão crítica da vida social, em geral, e da literatura, em particular. A trajetória da Carolina reflete, em certa medida, o encontro tenso entre essas duas perspectivas. Por isso, ao mesmo tempo em que a autora foi rejeitada por parcelas da intelectualidade brasileira dos anos 1960 e 1970, foi, também, saudada por vozes sociais relevantes", analisa o professor da Faculdade de Letras da UFJF Edimilson de Almeida Pereira.

Pesquisador da literatura afro-brasileira e organizador de "Um tigre na floresta de signos - Estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil", dentre outros títulos, Pereira acredita existirem dois momentos na produção de Carolina. "Num primeiro instante, ela é percebida como uma autora situada à margem do cânone literário brasileiro, tal como outros autores afrodescendentes que a antecederam e, igualmente, abordaram de forma incisiva as tensões étnicas vigentes em nosso país. Num segundo instante, a atuação de teóricos da literatura, bem como de autores e autoras afrodescendentes, viabiliza uma reflexão crítica que reconhece na obra de Carolina Maria de Jesus e de outros autores afro-brasileiros uma 'outra' percepção da sociedade brasileira. Ou seja, uma percepção que leva em conta o fato de que os valores, as ações e o patrimônio material e imaterial de procedência afrodescendente interferem nos processos de definição das identidades que permeiam a sociedade brasileira. Em função disso, a criação literária de vários autores e autoras afrodescendentes no Brasil passam, paulatinamente, da condição de exclusão para a perspectiva de força também instituinte do que chamamos de literatura brasileira", completa.

Aceito por parte da academia, o conceito da literatura afro-brasileira admite que há uma série de autores de origem afro-descente no Brasil, desde o século XVIII - e um dos mais antigos dele seria o poeta Domingos Caldas Barbosa -, que, se entendendo como negros ou descendentes das culturas africanas, levam para sua produção literária suas heranças culturais, como Luiz Gama, Paula Brito e Lima Barreto. Nesse contexto, Carolina contribui, então, para o debate em torno do reconhecimento do Brasil como uma sociedade multiétnica, portanto, desafiada a construir relações de fraternidade e respeito à diversidade, conforme aponta o professor.

Antes de ser vitimada por uma insuficiência respiratória, em 1977, aos 62 anos, Carolina conseguiu comprar sua casa própria, fazer sua carreira e permanecer, apesar de nunca ter repetido o sucesso de "Quarto de despejo". Enquanto suas condições diziam o contrário, ela alcançou alguma justiça. E isso Carolina conquistou pelas palavras. Ao falar de si e de seu quarto, ela disse de suas raízes e de seu país. "No caso dela, se ajustam três condições de exclusão: a econômica, de gênero, e étnica. Ela agrega esses três fardos, que, individualmente, ela aceita, carrega e reflete sobre eles", atesta Pereira.

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