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01 de Junho de 2014 - 06:00

Polêmica do filme 'Praia do futuro' acende discussão sobre perfil de espectadores. Pesquisa aponta baixo interesse dos brasileiros por cultura

Por MAURO MORAIS

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Muito se diz e pouco se conhece: Quem é o público? Onde ele está? À primeira pergunta, nenhuma resposta e alguns apontamentos. À segunda, de acordo com a recente pesquisa "Públicos da cultura", é certa sua baixa frequência nas plateias. Para além do preconceito por trás da polêmica que se ampliou na última semana, envolvendo um carimbo de "avisado" no ingresso para a sessão de "Praia do futuro" - um espectador disse que a marca fazia referência à comunicação de que o filme continha cenas de sexo homossexual, mas o cinema paraibano nega, afirmando que o fato diz respeito à meia-entrada -, está em xeque, também, o perfil conservador dos consumidores de arte e cultura no Brasil. Realizada pelo Sesc no ano passado e divulgada em abril desse ano, a investigação mapeia o grande impasse da cultura: quem ocupa o espaço diante das cortinas. As 2.400 entrevistas, realizadas em 139 municípios das cinco regiões do país, indicam um baixo hábito cultural e gostos ainda bastante tradicionais. Sobre a atividade que os brasileiros costumam fazer nos finais de semana, 34% responderam dedicar-se à casa, outros 34%, ao lazer, e apenas 4% disseram assistir a manifestações culturais. A estatística reflete o cenário de um país, que com pouco mais de 200 milhões de habitantes, faz um blockbuster brasileiro com apenas 6 milhões de espectadores, o equivalente a 3% de toda a sua população.

Segundo o cineasta Karim Aïnouz, diretor do longa que trata do envolvimento entre um salva-vidas, Donato (papel de Wagner Moura) e um piloto, Konrad (interpretado pelo ator alemão Clemens Schick), e a busca de Ayrton pelo irmão, que, após se apaixonar, abandona o Brasil e segue para a Europa, a reação foi pontual. Porém, ao longo da semana, muitos foram os casos de salas que esvaziaram na sequência caliente entre os protagonistas. "Nosso público é, sim, conservador, e se assusta diante de determinadas manifestações artísticas", comenta Maria Helena Cunha, pesquisadora, consultora e diretora do escritório Inspire Gestão Cultural, de Belo Horizonte. "A experiência (seja de produzir, seja de consumir arte) é muito pessoal. Além disso, obras como filmes e livros geralmente possuem uma narrativa própria que permite sua apreciação sem referências prévias. Mas é claro que as referências ajudam e tornam a experiência mais completa", pontua o publicitário Eduardo Noronha, criador do site "Tá avisado" (taavisado.tumblr.com), que ironiza o alerta polêmico ançando mão da ironia em outras produções, como em "qualquer filme francês", cuja montagem criada por Noronha diz: "O senhor está ciente de que este é um filme francês, sendo assim, abre mão do seu direito de entender o final dele?".

"Porque as pessoas não se despojam para receber o que elas ainda não conhecem e que faz parte do dia a dia delas? Violência e personagem mau-caráter nas histórias são absolutamente naturalizados, e ninguém se choca com isso, bem como com agressão física, verbal e psicológica. Muitas vezes, elas se chocam com ruptura de padrões convencionais de linguagem, com cenas de amor entre dois homens. O que está por trás disso, ao se querer uma explicação cartesiana do que é novo? Isso é reduzir muito a expectativa do próprio mundo", reflete a cineasta e professora do Instituto de Artes e Design da UFJF Karla Holanda. Diretora de "Kátia", documentário sobre a primeira travesti eleita a um cargo político no Brasil, Karla disse não ter testemunhado rejeição a sua produção, mas tal possibilidade nunca se impôs durante seu processo criativo. "'Kátia' é um documentário sobre uma pessoa vivendo em sociedade. É o cotidiano dela durante um período, no sertão do Brasil. Ela estabelece relações sociais, relações públicas. O documentário não tem a pretensão de explorar a sua sexualidade, a sua intimidade. Quando ela cumprimenta um homem com um beijinho, isso não assusta, porque ela está vestida de mulher. Ela está correspondendo às expectativas", diz. "Muitas pessoas abstraem que ela é um homem travestido de mulher. O filme não é provocativo, ele conquista o espectador pela personagem, pela sedução dela, que é exatamente a forma como ela se colocou na vida. Ela foi aceita em uma cidadezinha cheia de preconceitos por sua personalidade única. Se eu tivesse colocado a Kátia beijando outro homem, não sei qual seria a reação", pondera.

Produtor de "Pela noite", espetáculo teatral baseado na obra homônima de Caio Fernando Abreu e exibido no início dos anos 2000 em Juiz de Fora, o professor da Faculdade de Comunicação da UFJF Cristiano Rodrigues também não presenciou manifestações de repúdio à peça, que apresenta o percurso de sedução entre dois homens. "Achei interessante já expor isso na própria campanha, além de dar visibilidade. Se estamos tratando do tema por que escondê-lo?", indaga. Produtor também de alguns dos filmes do documentarista juiz-forano Marcos Pimentel, Cristiano vê de perto o confronto do público com narrativas fragmentárias, repletas de simbolismos e silêncios. "Às vezes, as pessoas buscam na arte uma correspondência muito exata da vida. A arte não tem esse compromisso. Na maioria das vezes, o artista exacerba uma determinada característica ou circunstância para ver se a gente, no susto, consegue pensar", diz.


Quem não está na plateia?

Se o público se mostra escasso nos números divulgados pela pesquisa do Sesc, muitas são as iniciativas que dizem de uma formação do mesmo. Mas haveria como formar sem conhecer? Para Maria Helena Cunha, autora do livro "Gestão cultural: profissão em formação", o incentivo ao hábito cultural se manifesta como possibilidade de um capital de conhecimento, capaz de, assim, oferecer ao espectador a possibilidade de recusar ou aceitar manifestações de maneira criteriosa e consciente. "O gestor cultural tem que ter, ao mesmo tempo, uma visão estratégica e objetiva, mas, principalmente, a sensibilidade para lidar com arte. Ele tem a capacidade de ser mais propositivo em sua atuação. É necessário pesquisar o público, mas, tão importante quanto isso, é imprescindível saber quem não é o público. Por que não frequenta museus? Porque não lê um livro? Porque não vai ao teatro? E é aí que o gestor precisa atuar, criando as condições para que as pessoas possam e queiram ir", aponta, ressaltando questões como a mobilidade urbana e os custos reais que envolvem o consumo de arte, fatores que podem, de alguma forma, influenciar no baixo interesse.

Perguntados sobre a frequência com que assistem a filmes nacionais, os abordados pela investigação "Públicos da cultura" revelam um cenário bastante alarmante. Enquanto apenas 22% dizem ver produções brasileiras, outros 64% afirmam assistir de vez em quando, e 14% responderam nunca ter visto. Em relação à leitura, 58% dos entrevistados dizem não ter lido livro algum nos últimos seis meses, em oposição a 12% com apenas uma leitura, 11%, com dois títulos lidos, e o restante (19%), variando de três a mais de oito livros. Já no campo das artes visuais, o cenário é também assustador, já que uma fração de 26% dos pesquisados aponta não gostar de visitar exposição, e outros 26% dizem não saber ou não frequentar. "Em um primeiro momento, numa relação direta, a escola é a responsável por nossa educação formal. Mas acho importante que, nesse momento em que estamos formando cidadãos, formemos e incentivemos consumidores de arte. E isso é feito desde cedo, de maneira natural. As artes fazem parte do dia a dia das pessoas mais do que elas imaginam", indica o arte-educador do Museu de Arte Murilo Mendes Vinicius Steinbach.


Fruir não é complexo

Ao contrário do que se tornou senso comum, os profissionais da arte reivindicam a simplicidade do ato de fruir a cultura. Da mesma forma, recusam atenção demasiada e apontam que, para a criação, o público não deve estar em primeiro plano. "Consumo está ligado a mercado. O artista que não pensa em mercado deseja se expressar. Então, no momento criativo, ele não se importa se aquilo é agradável ou desagradável, se vende ou não, se é bonito ou feio. O verdadeiro criador está distante disso. Inclusive, na arte contemporânea, existe muita coisa que não há como comprar, já que é uma ideia, uma circunstância, uma sensação, uma situação, que não passa pelo valor, é uma provocação, uma coisa que espeta e quer dizer algo", defende Cristiano Rodrigues.

"Nem tudo precisa ser atingido, o ciclo da fruição não precisa ser completado para definir o que é arte. Muitos trabalhos que são considerados arte não foram criados com esse propósito, como as obras de Arthur Bispo do Rosário. 'Estetizaram-no', mas, no fundo, a intencionalidade dele não era de que sua obra se tornasse objeto de arte, mas, de repente, objeto de devoção, como a pintura rupestre era, e hoje é considerada arte", avalia Vinicius Steinbach. "Penso no público, mas nem sempre ele está interessado no que penso. Isso não é um elemento definitivo. Não é o mais importante. Se a gente trabalha querendo corresponder a uma expectativa, que é a massa - e ela sempre quer ser correspondida -, não saímos do lugar. Isso não me interessa, não me seduz e nem me estimula a continuar realizando. A adequação do que estou me propondo com a forma é o que mais me compele a seguir no ato criativo", complementa Karla Holanda.

Segundo a pesquisadora Maria Helena Cunha, pensar no público é prioridade em uma sociedade que persegue a cidadania plena de seus habitantes, mas tal cuidado deve ser responsabilidade dos gestores. "A partir do momento em que você se propõe a fazer algo diferente, inovador, corre riscos, o que é próprio das pessoas de vanguarda. Somos regidos pelo mercado, então existem artistas vanguardistas, que nos tiram do lugar, e outros que sucumbem à lógica", diz. "A questão do público, de fato, não deve ser a coisa mais importante. O que define o público, o gosto, a vontade, é uma indicação que não cabe às artes. A história política e social do país bem como a educação de maneira geral irão definir isso. As artes devem se preocupar com a descoberta que cada obra impõe", define Karla Holanda.

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