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11 de Junho de 2014 - 06:00

Juiz de Fora recebe exposição da ilustradora botânica Margaret Mee

Por MAURO MORAIS

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Mostra reúne obras de diferentes coleções e objetos pessoais da artista
Mostra reúne obras de diferentes coleções e objetos pessoais da artista

Para abrir mão da liberdade criativa em nome da ciência é preciso ter muita generosidade. De estatura baixa, a aparentemente frágil senhora de cabelos louros e fartos, voz doce e gestos curtos, Margaret Mee fez de sua arte a representação da beleza natural, na exatidão que as flores brasileiras mereciam. Em 1952, ao lado de seu segundo marido, a artista deixou sua Inglaterra natal para visitar uma irmã em São Paulo e decidiu fincar raízes. Em "Margaret Mee - 100 anos de vida e obra", exposição que abre para visitação nesta quarta, no Espaço Cultural Correios, estão os trabalhos que conferiram à inglesa o título de uma das pioneiras e mais marcantes ilustradoras botânicas da flora do Brasil. Estão, também, as marcas de uma trajetória devotada, de um encantamento muitas vezes renegado no movimento ágil e sem foco dos dias que correm. "Ela tinha uma qualidade muito inglesa: era muito curiosa, de um grande espírito aventureiro e bastante preocupada em fazer seus diários escritos com suas experiências de viagens. Ela anotava, em campo, todos os detalhes das espécies que ia encontrando para, depois, no seu ateliê, fazer as pranchas. Era uma pessoa metódica. Uma artista voltada e dedicada a sua arte", comenta a curadora Sylvia de Botton Brautigam.

Na montagem da mostra, feita com bastante apuro, as paredes coloridas com um amarelo mais vivo e outro mais claro exibem a coleção de 52 ilustrações das espécies do gênero bromélia, pertencentes à coleção do paulistano Instituto de Botânica, responsável pela primeira incursão de Margaret na arte de retratar plantas. Como em um jardim suspenso, as flores se apresentam em duas fileiras, harmônicas e sem a interferência de molduras (foi utilizado apenas vidro e pequenos ganchos em acrílico transparente). Menor em número, mas grandiosa nas flores que apresenta, parte da coleção da Academia Brasileira de Ciências do Rio de Janeiro revela a incursão da artista pela caatinga nacional. A última viagem, à Sobrália, também está representada através de uma obra pertencente à coleção particular. Além das obras executadas em guache e aquarela sobre papel, podem ser vistos alguns dos pincéis, o estojo que carregava pelas florestas e a paleta de uma mulher que, mesmo nascida em terras europeias conseguiu se entregar aos trópicos e estabelecer diálogo com tribos indígenas.

Em uma caixa, localizada ao centro da galeria, é possível ver a admiração e o respeito de Margaret com os índios, os quais encontrou por 15 vezes, em investigações Amazônia adentro, ao longo das três décadas em que morou no Brasil. Chocalhos, brincos, colares e outros adereços de tribos diversas estão ao lado de duas ilustrações nas quais a artista retrata sua surpresa emocionada diante de uma agigantada árvore. Rara, a obra demonstra uma faceta menos compromissada com a precisão técnica e mais livre a uma poesia talvez difícil de agrupar em palavras. Sentimentos relatados em uma entrevista concedida à TV britânica também estão presentes na mostra, ao lado de um dos mapas que ela guardava e de sua bússola, companheira de suas muitas aventuras. Dona de um olhar atento e de uma sensibilidade singular, Margaret enxergou a flora brasileira em sua imponência estética. "Havia toda uma parte científica, pelo rigor da interpretação, mas havia também um interesse artístico de mostrar a beleza. Ela queria chamar atenção das pessoas para que se interessassem, vissem, reconhecessem as plantas bastante comezinhas, que estão por perto, e são belas. Ela queria mostrar como é importante conhecer para preservar", analisa a curadora. "O trabalho dela é um elemento de beleza, uma flor que não é perecível."

 

Um olho nas flores e o outro nas margens

A mulher cujas cinzas estão espalhadas no Rio Negro, maior afluente da margem esquerda do Rio Amazonas, na Amazônia, eternizou com seus pincéis o que desejava sem fim. Das flores extraiu suas cores e formas e também sua responsabilidade cidadã em mantê-las. "Margaret Mee morava no mesmo bairro em que moro, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Sempre me interessei por arte e sempre tentei conhecer o artista por trás da obra. Eu já sabia do trabalho dela e tinha muita curiosidade de conhecê-la. Amigas comuns, nos anos 1970, nos apresentaram. A partir de então, nos encontramos inúmeras vezes. Ela viajava e sempre que voltava contava o que havia observado. Falava com ela de fazermos um trabalho que a tornasse mais conhecida", conta a curadora Sylvia de Botton Brautigam. "Quando foi lançar o livro com os diários dela na Inglaterra, nos preparamos, eu e algumas amigas, para fazermos um lançamento no Brasil. Depois de ter caído em rio de piranhas, ter sido esquecida por 40 dias em uma tribo indígena, ter contraído malária, enfim, vivido aventuras incríveis na selva brasileira, morreu em um acidente automobilístico", completa, referindo-se a um adeus dado em 1988, em Londres.

No ano seguinte da morte da ilustradora, os amigos resolveram criar a Fundação Botânica Margaret Mee, afim de divulgar o trabalho da artista, lutar pela preservação da natureza e incentivar a formação de novos profissionais da ilustração científica e da botânica (mais de 200 bolsas foram oferecidas, durante os 20 anos de atividade da fundação). Atualmente a instituição se chama Fundação Flora de Apoio à Botânica e funciona no Jardim Botânico carioca.

"Naquele tempo em que ninguém falava em meio ambiente, ninguém se preocupava, já que o planeta era infindável, ela dizia: 'não é possível, alguma coisa tem que ser feita. A cada viagem que faço, vejo árvores enormes sendo cortadas. Está havendo uma devastação'", aponta Sylvia. "Enquanto desenhava, desejei que chegasse um polinizador, que os especialistas acreditam ser uma mariposa ou talvez um morcego. Nossa vigília durou toda a noite, e cheguei à conclusão de que nossa intromissão acabou por importunar o equilíbrio desenvolvido durante dezenas de milhões de anos. Esse distúrbio, no entanto, era muito pequeno em comparação com o que havia visto nos cursos do Amazonas, pois a floresta havia mudado consideravelmente, e as plantas adoráveis que eu pintava ao longo do Rio Negro haviam desaparecido. Lembrava-me do entusiasmo de minha primeira viagem à região, entre as enormes árvores nas margens. A mudança havia sido desastrosa, e a destruição e a queimada da floresta provocam incertezas para o futuro do nosso planeta", escreveu Margaret em um de seus diários, publicados no livro "Margaret Mee: vida e legado".

 

'MARGARET MEE - 100 ANOS DE VIDA E OBRA'

 

De segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h. Até 9 de agosto

 

Espaço Cultural Correios

(Rua Marechal Deodoro 470)

 

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