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21 de Março de 2014 - 06:00

Com mais de 17 milhões de acessos no YouTube com 'Beijinho no ombro', Valesca Popozuda, a protagonista da nova cena do funk, faz show hoje em Juiz de Fora

Por MAURO MORAIS

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Há alguns anos fortaleceu-se um lugar na música brasileira ocupado pela voz dos morros. Antes amplificado pelo samba, esse espaço hoje é ocupado, também, e com maior repercussão, pelo funk. Na linha de frente estão canções que, a despeito de alguns preconceitos, não evocam a violência, mas um domínio de afirmação. A opressão ganha ritmo em batidas eletrônicas, cantadas em clima de protesto. Representante de uma nova cena no funk nacional, Valesca Popozuda usa seu microfone para falar de uma mulher independente e consciente de seu poder - seja de sedução, seja de participação social. Somando mais de 17 milhões de acessos no YouTube, o clipe "Beijinho no ombro", mais recente sucesso da funkeira, é uma das músicas que estarão no repertório que ela executa hoje à noite na Mansão, em Juiz de Fora.

"Acredito em Deus e faço ele de escudo,/ Late mais alto que daqui eu não te escuto./ Do camarote quase não dá pra te ver,/ Tá rachando a cara, tá querendo aparecer", canta Valesca no hit em que rebate a inveja, mostrando-se combativa e potente. Gravado no Castelo de Itaipava, na região serrana do Rio de Janeiro, o clipe, lançado há menos de três meses, custou quase R$ 500 mil e lhe rendeu o status de diva. "Acredito que a produção do clipe foi muito importante. A música já era boa, com um clipe bom, o resultado foi esse, um sucesso nacional", diz.

Porém, a carreira da cantora de 35 anos, nascida em Irajá, bairro de classe média carioca, não começou agora. A então frentista de um posto de gasolina na Avenida Maracanã iniciou-se no funk integrando o grupo Gaiola das Popozudas, no início dos anos 2000. O primeiro grande sucesso, de 2005, "Beijando o seu marido", já carregava a polêmica que marca as letras de Valesca. "Vem Cristiano, ajoelha e faz biquinho. Me beija, me morde, me trate com carinho. Se você é casado, eu quero que se dane", canta. Em seguida vieram outros sucessos, entre eles "Late que eu tô passando" e "Agora eu tô solteira", ambas de 2007, e "My pussy é o poder", de 2010.

 

A feminista

Convidada, no ano passado, para ser a patronesse de uma turma de graduação em estudos da mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a cantora, que carrega 970 ml de silicone nos seios e 1.100 ml nas nádegas, ganhou a academia e serve de objeto de análise para dissertação de mestrado. Em "Mypussy é o poder - A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural", a pesquisadora Mariana Gomes Caetano defende as músicas da funkeira como um dos gritos do feminismo.

De acordo com o projeto de dissertação, há um desejo de subversão da lógica social nas produções musicais das funkeiras da nova geração, como Tati Quebra Barraco, Deise Tigrona e a própria Valesca. "Não há como falarmos sobre funk sem falar sobre erotismo. Quando ele entra em pauta, a mulher está mais presente do que nunca no funk, e esta é uma questão central para entendermos qual é a estratégia - embora muitas vezes inconsciente - da mulher para ganhar seu espaço neste meio tão masculinizado", defende o trabalho de Mariana, pontuando que é na presença e na postura dessas artistas que está a força feminina.

"Me considero feminista. Não sou muito ativa como gostaria de ser, mas defendo e continuo defendendo a liberdade sexual das mulheres, dentre outras coisas", comenta Valesca, recordando um passado bastante diferente: "Antes eu era daquelas que abaixava a cabeça para homem. Quando engravidei do meu filho e levei um 'par de chifres' pude perceber como a sociedade é machista. Daí em diante comecei a me expressar, emitindo minha opinião".

 

O discurso incisivo e, por vezes, chocante conquistou tanto as classes mais baixas quanto a elite, que abre as portas das mais famosas boates do país para receber Valesca. "Em qualquer palco me sinto a vontade. Pode parecer clichê, mas é a mais pura verdade. Ao subir no palco não penso se estou cantando para ricos ou pobres", afirma. Porém, a fama e o respeito não representam um deslocamento da funkeira em relação ao gênero musical pelo qual ganhou fama. "O funk me representa 100% em tudo. Minha origem e minha vida. Ele me deu voz para ser quem sou hoje. Acabei me encontrando nos palcos, com liberdade para falar o que a sociedade tentava calar", reflete, certa da relevância de seu papel.

Questionada sobre do que mais se orgulha ao revisar toda sua trajetória de ascensão, ela é enfática: "Me orgulho de nunca ter perdido minha raiz, ou seja, nunca ter largado o funk". Com muito fôlego para travar novas batalhas - disposta a disparar muitos beijinhos no ombro -, ela é militante e, como boa militante, não pensa em hastear a bandeira. "Espero, apenas, não parar por aqui, mas não fico imaginando aonde quero chegar."

 

VALESCA POPOZUDA

 

Hoje, às 23h, na Mansão (Av. Pref. Mello Reis 201 - Aeroporto)

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