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15 de Março de 2014 - 06:00

Entrevista MARCELINO FREIRE, escritor

Por MAURO MORAIS

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Com vários contos lançados, Marcelino Freire estreia no romance: "Foi um desejo natural de me reinventar"
Com vários contos lançados, Marcelino Freire estreia no romance: "Foi um desejo natural de me reinventar"

A cantiga de domínio público que diz "o meu boi morreu,/o que será de mim?/manda buscar outro,/ó maninha, lá no Piauí" serviu ao escritor Marcelino Freire como epígrafe e, de alguma forma, como mote de seu primeiro romance, "Nossos ossos"(Record, 121 páginas), recém-lançado no Brasil e já com uma edição na Argentina e em Paris. Na trama, Heleno de Gusmão é um dramaturgo nordestino que se muda para São Paulo e se envolve amorosamente com um michê. Após saber da morte do garoto, o protagonista e narrador segue em busca de informações sobre o antigo amante, procurando meios de enterrá-lo perto dos pais, também nordestinos. "O meu boy morreu" é o que está no livro do escritor conhecido por suas narrativas curtas e pela oralidade de seus textos, confirmando o interesse de Marcelino pelo discurso político e poético por trás das raízes.

"O boy tentou fechar a boca, cobrindo com as mãos o poço do peito, esse coração sem dono, seguiu gingando e xingando, até cair, de vez, no meio da praça", descreve a narrativa, fazendo da morte um balé. A história, a cada parágrafo, mergulha um pouco mais na intimidade de seus personagens. De ignorados em uma cidade grande, eles constroem um espaço de respeito e dignidade, redimindo-se ao longo do livro. Com seu forte sotaque pernambucano, o escritor conversou, por telefone, com a Tribuna e falou do atual trabalho e da literatura do presente. Considerado um dos maiores nomes da nova geração, tendo vencido o prêmio Jabuti com seu "Contos negreiros", de 2005, obra adotada em vestibulares (já foi sugerida como suporte para os professores no ensino da literatura contemporânea brasileira para o vestibular da UFJF), e, cada vez mais alvo de análises, Marcelino se diz um militante. "Escrevo por que sou muito covarde, porque não tenho coragem de tocar fogo nas minhas vestes e sair correndo pelas ruas, feito aqueles homens que se incendeiam para protestar contra alguma coisa."

Tribuna - Em "Nossos ossos" há algo de sua biografia. Até que ponto você está nessa narrativa?

Marcelino Freire - Tive que pedir socorro a várias frentes para não abandonar esse romance como abandonei outros. Primeiro, cerquei-me do teatro. Comecei escrevendo para teatro, fiz teatro durante muito tempo, e o fato de Heleno de Gusmão ser um homem do palco, diretor, ator, autor, dramaturgo, me deixou um pouco mais seguro de que eu poderia avançar em um terreno que conhecia, que gosto bastante e acompanho. Também pedi socorro às histórias policiais, porque um grande problema que tenho é que, quando escrevo um conto, nunca sei a história que vou contar. Descubro escrevendo a maioria dos contos. Pensei em uma trama para começar a escrever e li bastante. Outra das frentes era minha história. Assim como Heleno de Gusmão, vim para São Paulo, sou de uma família de nove filhos, o caçula. Sertânia é onde nasci. Vim apaixonado também e me fodi. Claro, não é autobiográfico, apenas pedi socorro a alguns aspectos biográficos meus para poder, mais uma vez, enfrentar esse desafio. Têm muitas histórias de amigos meus. Morei no Centro de São Paulo, conheço bem e sei das ruas que estou contando.

- Na dedicatória a seu pai e no início do livro há um forte aspecto afetivo. Esse primeiro romance é caro a você?

- Em meus contos, a figura da minha mãe é muito presente, muito forte. Ela me inspirou muito. As mulheres que criei nos outros livros, como a Da Paz, a Totonha, a Darluz, beberam muito na fonte da fala da minha mãe, uma mulher nordestina, uma sertaneja muito lutadora, muito guerreira. A presença do meu pai está no silêncio dos meus contos, porque ele era um homem muito quieto, muito preciso no que falava. Quando estava escrevendo o romance, mais uma vez para me distanciar dos contos, recorri à fala masculina, ao grande pai.

- E por que esse romance não merecia ser abandonado como os outros projetos?

- Creio que esse livro é sobre solidariedade, amizade, cumplicidade, cada um pode fazer uma parte para que esse país de fato se erga como um corpo único. Esse corpo que está sendo levado de volta à sua origem é como um país que encontra seu caminho como nação, sobretudo após essas manifestações todas. Queria muito começar o livro com a palavra o próximo. "O próximo, o próximo, por favor, e o próximo sou eu, assim me chamou o caixa do banco" (recita trecho do livro). Não é só o próximo da fila, é o outro. Esse livro tem esse aspecto da irmandade, da parcela de culpa de cada um para que esse país, de fato, vá para frente. Eu era muito impulsionado por esse desejo de erguer um livro que tivesse essa espécie de guia afetivo, humano.

- Nesse caminho, o retorno para as raízes nordestinas funciona como redenção. Esse é um argumento político?

- Esse regresso é uma espécie de conserto, de mea-culpa, de sentir que São Paulo foi muito importante, mas algo ficou para trás. Ele não escolheu vir para São Paulo. De alguma forma, eu também posso dizer que não escolhi. Evidentemente, fiz minha trajetória aqui, amo essa cidade e não conseguiria viver longe de São Paulo, mas fica essa culpa de não ter ficado em minha terra. Esse livro é muito migratório, não só em relação ao corpo do Heleno de Gusmão, que veio para São Paulo tentar a sorte, uma vida amorosa, fazendo da cidade seu destino possível, mas também sobre o corpo do menino que veio com o desejo do progresso e acaba se prostituindo, e ainda o corpo que se preocupa com o corpo morto, para que seja enterrado dignamente. Quando olho para o Brasil, percebo que, enquanto não erguermos esse corpo, não juntarmos os ossos mais verdadeiros dessa nação, a gente não consegue caminhar. Cada um tem uma parcela desses ossos para juntar.

- Quando você diz de sua escolha por São Paulo, essa é uma decisão rotineira, em que optar pela literatura está aliado a mudar-se para São Paulo ou Rio de Janeiro. Que lugar é esse?

- No livro tem um momento em que o Heleno diz que na arte só se constrói exatamente porque houve algum falecimento, alguma ruptura, alguém sofreu e foi abandonado, e o escritor nasce desses abandonos, dessas negações. A literatura que a gente levanta aqui também nasce dessas rupturas, porque tudo é muito difícil de levar em um país no qual se lê muito pouco. Por isso, teimosamente, faço um evento como a Balada Literária há nove anos, reunindo escritores nacionais e internacionais. Sinto que, de alguma forma, estou devolvendo um pouco de tudo que São Paulo me deu. Faço, teimosamente, como teimosamente minha mãe saiu do sertão com nove filhos, como teimosamente cheguei a essa cidade sem nada, zerado de tudo. A literatura está nesse campo da teimosia constante. Esse grupo que se encontrou em algum momento em São Paulo - eu, Ivana Arruda Leite, Joca Reiners Terron, Luiz Brás, Andréa Del Fuego, entre outros -, fez isso para juntar forças. Todos começaram por editoras pequenas, com muita garra para sacudir a poeira e sair da mesmice reinante. Cada um, à sua maneira, conseguiu seu espaço, publica seus livros, ganha prêmios, mas isso é fruto de muita luta. Sempre confiei nisso. Publico livros pela editora Record, mas tenho um selo chamado Edith e estou sempre provocando uma cena literária, conhecendo novos escritores e exercendo meu lado amador também. Muitos falam: "Você ganhou o Jabuti, pode ficar quieto no seu canto, já publica pela Record e é convidado para eventos nacionais e internacionais". De maneira nenhuma. Minha militância é constante. Somos um bando de teimosos.

- Como você lida com a adoção de seus livros por algumas universidades, com as pesquisas que são feitas sobre eles, com esse espaço muito próximo do cânone?

- Por enquanto, estou é entrando pelo cânone (risos). Fico muito feliz quando descubro um leitor, quando alguém me procura para fazer um trabalho, quando um professor divulga minha obra. A literatura que costumo fazer não é de concessão, então, quando sou procurado fico muito contente. Quando algum grupo de teatro me procura, querendo levar meus contos para o palco, fico muito feliz. Escrevo pensando em teatro. Estar próximo de algum cânone me dá medo, porque João Cabral de Mello Neto, Clarice Lispector, Murilo Mendes é que são escritores.

- Uma das marcas da sua literatura é a oralidade. Qual o peso dela no que faz?

- É meu guia. Costumo dizer que rezo meus textos. Quando escrevi o primeiro capítulo de "Nossos ossos", li em voz alta para ver se aquilo me convencia como reza, ladainha. Isso é muito importante para seguir em frente. Em algum momento da escrita, descobri que só precisaria de vírgulas na unidade do parágrafo. Isso porque o livro, o tempo inteiro, está montando o corpo do romance. As vírgulas deixam montar o que é pergunta e o que é resposta. E me dá mais ladainha, mais oralidade, me aproxima do sertão. Além disso, ela parece, como um ganchinho, cavar a página, fazendo um trabalho de arqueologia. Tudo isso me levava a não desistir do romance. Minha linguagem dos contos está ali, com um pouco mais de fôlego. Quando terminei parecia ter cruzado a nado o Canal da Mancha.

- Muitos contistas desejam escrever romances. É uma máxima?

- Muitos editores e amigos me perguntavam isso. Existe uma pergunta no mercado. O romance é mais aceito fora, tem, segundo alguns, mais prestígio e vende mais. Mas não pensei nisso. Escrevi meus contos no tempo em que eles tinham que ser escritos, precisava gritar o que gritei durante eles. Os romances que abandonei não eram para ser escritos naquela época. No momento em que escrevi "Nossos ossos", já estava cansado de gritar, queria algo que me desse mais fôlego, mais tesão no desafio. Chamo de "prosa longa"- como não chamo meus contos de contos, mas ladainhas, cantos -, porque é grande e faço uma referência com o cinema. Eu pensava nas cenas. Foi um desejo natural de me reinventar.

- Qual é o prestígio da literatura contemporânea brasileira?

- Acredito que a figura do autor, como tivemos em outra época - o "autor" João Cabral de Mello Neto, o "autor" Vinícius de Moraes -, não temos mais. Temos várias frentes de batalha de uma mesma literatura. Vejo o momento com muito otimismo. No movimento da periferia de São Paulo, dos saraus, os escritores estão se autofomentando, sem esperar as grandes editoras e os grandes jornais. São eles quem divulgam os livros, editam, se encontram para discutir, realizam eventos. Os saraus da periferia são eletrizantes. Sempre vou, participo e acompanho. Me anima muito. É uma literatura muito viva. Há muito tempo não via um movimento tão vigoroso na literatura. Há vários autores, vários movimentos, vários livros, e esses vários cantos é o grande diferencial da literatura que a gente vive.

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