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09 de Janeiro de 2014 - 07:00

Relato de escritor uruguaio sobre Segunda Guerra Mundial e ditadura militar ganha tradução pelas mãos da gaúcha Leticia Wierzchowski

Por MAURO MORAIS

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Uruguaio Mauricio Rosencof, de 80 anos, já teve sua obra traduzida para vários idiomas como holandês, alemão, turco, inglês e francês
Uruguaio Mauricio Rosencof, de 80 anos, já teve sua obra traduzida para vários idiomas como holandês, alemão, turco, inglês e francês

Mauricio era um garoto muito pequeno que gostava de se divertir com o amigo Fito pelas ruas de Florida, no Uruguai. O lado de fora da casa sempre lhe pareceu um universo de diversões. Já a parte de dentro reunia uma esfera diferente. As saudades que os pais sentiam da Polônia, onde nasceram, pesavam o ar. E o menino nada entendia. Não percebia o desespero de Isaac, o pai, ao ver passar os dias e nenhuma notícia da família chegar. Em plena caça aos judeus pelos nazistas, toda ausência trazia o amargo gosto da morte. Em "As cartas que não chegaram" (Editora Record, 128 páginas), a singeleza com a qual o autor Mauricio Rosencof manipula as palavras encanta mais que choca. O que poderia ser apenas uma lamúria transcende o simples registro e mostra a força da literatura memorialística construída com os recursos de uma narrativa fragmentada e com vozes diversas.

Traduzida pela escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, a obra desembarca em terras brasileiras com uma fluidez capaz de fazer passar despercebido o fato de essa ser a primeira tradução da autora de "A casa das sete mulheres". "'As cartas que não chegaram' é um romance sobre a esperança e sobre a união, sobre uma espécie de amor que vence todas as barreiras físicas para se fazer presente, uma espécie de amor que supera e, mais do que isso, é capaz de enfeitiçar o maior de todos os obstáculos - o tempo", aponta Leticia na orelha da edição.

Utilizando-se da própria biografia, Rosencof escreve as cartas errantes, reescrevendo um capítulo ainda bastante obscuro na história recente. Como em outras obras fundamentais, o autor lança mão de um retrato sentimental, único mecanismo capaz de confirmar as crueldades cometidas durante o nazismo. "A narrativa cálida e ágil, a maneira como ele envolve o leitor na roda-viva de histórias familiares, as muitas vozes, a solidão da cela e dos áridos anos do seu cativeiro, a inesquecível comida de Rosa, sua mãe, os silêncios de Isaac, seu pai, o adorado irmão mais velho, Ramón, o amigo Fito e tantas outras figuras de uma Montevidéu perdida nos anos", enumera a tradutora, apresentando o que, ao fim da leitura, parece configurar-se como pagamento de uma dívida emocional.


'Uma forma de estar contigo'

Na primeira parte do livro, apresentam-se relatos diferentes sobre o cotidiano durante a Segunda Guerra Mundial. Fugidos de seu país, os pais de Mauricio mudaram-se para o Uruguai por conta da perseguição, deixando para trás os pais e os irmãos, avós e tios do então garoto. Do outro lado do oceano, aguardaram ansiosos por um sinal de alerta, esperança que aos poucos foi se transformando em certeza dolorosa. Ao mesmo tempo, a narrativa reúne as vozes dos que ficaram e conheceram os campos de concentração, onde muitos eram levados na expectativa de tratar-se de um endereço melhor e mais confortável. Das roupas arrancadas aos cabelos raspados, o autor recompõe uma dura trajetória, marcada por ingenuidades e resignação.

"Estas cartas nunca hão de chegar até ti, Isaac. Ou chegarão quando já não estivermos, e então será para nós uma forma de estar contigo. // Talvez outros escrevam estas cartas. Que Moishe saiba que também são nossas, para que entenda o que aconteceu com seus tios, seus primos, seus avós. Queremos formar parte da memória dele, Isaac", escreve uma das personagens que restou em território invadido pela Alemanha de Hitler.

Em outro momento do livro, Mauricio assume voz própria e narra suas angústias atrás das grades, cerceado da liberdade como seus parentes poloneses. Dirigente do Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros), ele foi preso pelo regime ditatorial em 1972 e, a partir de 1973, permaneceu recluso por mais de 11 anos, sem nenhuma possibilidade de se comunicar. Da experiência, surge o mesmo pretexto para encurtar as distâncias através das palavras. A maioria das cartas é dirigida aos pais e acaba por servir como autorreflexão. "A casa, na memória, não é tão grande. Nenhuma casa cabe na memória. Se reduzem. Mas não se reduzem na escala correta, a memória não transforma a casa numa maquete pequeníssima", diz, certo das distorções de suas recordações e também de sua lucidez. A memória, dessa forma, não é mais a dos outros, mas a dele mesmo. E o que ativa esse espaço das lembranças é a palavra saudade, central em toda a sua vida.

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