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16 de Maio de 2014 - 06:00

Como um inventário sobre a saudade, cantor pernambucano Gonzaga Leal exalta o texto em novo disco, 'De mim'

Por MAURO MORAIS

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"É só uma voz/ a minha voz/ sem coral", canta Gonzaga Leal em "Show", de Luiz Tatit e Fabio Tagliaferri, lançada na voz de Ná Ozetti em interpretação solar e enérgica. É só uma voz, pernambucana, brejeira e absolutamente emocionada. É a voz de um intérprete preciso. A artesania complexa, calculada e intensa. Em "De mim", produção independente, o tempo impera como discurso em uma sonoridade singela, marcada por instrumentos regionais, como a viola. "Sou um homem do interior com sotaques de urbanidade. Nasci em uma cidade chamada Serra Talhada, a 500km de Recife, e logo muito cedo vim estudar na capital. Essas coisas estão tatuadas na minha pele, em minha alma", comenta, corroborando o título do oitavo álbum, reflexo de seu retorno ao Brasil e aos estúdios, após "E o que mais aflore", de 2009.

"Esse tempo é interessante/ Ante tudo o que acontece/ Segue assim como uma prece/ Nos desejos desse instante/ Traz consigo uma armadilha/ Esse barco, um navegante/ E a saudade.../ E a saudade como trilha." Composta pelo recifense Publius, a canção "Da saudade" surgiu como um convite para que Gonzaga retornasse. "Quando ouvi a canção, fiquei muito embriagado, não só pela melodia, mas pelo texto, pela letra. Sou um artista refém da palavra. O texto me tocou bastante, e, sobretudo, porque, naquele momento, eu me encontrava fora de Recife, com vontade de voltar, e com saudade de mim", conta. "Através desse projeto eu advirto a mim mesmo: o tempo, agora, é outro."

A maturidade de uma carreira iniciada na década de 1970 é sentida, segundo o cantor, pelo fino trato com cada um dos elementos do disco, da identidade visual que remete ao tempo - todo em preto e branco -, às letras, tudo em sintonia e coerência. "Sou um homem de teatro. Todo meu itinerário artístico teve, sempre, um olhar muito profundo para o teatro. Não é à toa que tenho duas grandes atrizes participando desse disco, a Cida Moreira e a Marília Medalha. O texto, por mais simples que seja, tem que me dizer alguma coisa. A palavra tem que vir na frente. Não concebo fazer um trabalho sem que ele passe por uma dimensão dramatúrgica. Quando penso na palavra, antecipo a cena", reflete Leal.


A contramão é a direção sincera

Cantora dos festivais e atriz de espetáculos musicais como "Opinião", de 1974, Marília Medalha reforça, no disco de Gonzaga, a reverência à interpretação, capaz de dar força cênica aos sons. "Marília é uma mulher muito interessante, que sabe das coisas. O que mais me encanta nela é a coisa de a atriz chegar primeiro. Marília faz parte das minhas reminiscências musicais", comenta o pernambucano, que também recebeu Cida Moreira, cantora que já gravou Brecht e o Chico Buarque do teatro. Ao se referir diretamente ao tempo, seja na postura, seja na presença, Gonzaga se porta num lugar distante do provisório. "De mim" dialoga com o permanente. Dessa forma, se estabelece longe do estabelecido, mas na segurança das raízes.

"Quando eu decidi pela temática da saudade, logo em seguida defini a sonoridade do disco. Sou muito apaixonado pela viola brasileira, por tudo de misterioso e enigmático que ela traz. Meu diretor musical é um violeiro, e a minha ideia era trazer outros violeiros, a exemplo de Pereira da Viola e Chico Lobo. Por essa razão, o disco tem esse tom regional, mais brejeiro, agreste. Gosto de cantar o Brasil", afirma ele, cujas referências em Cauby Peixoto, Angela Maria, Nora Ney, Agostinho dos Santos, Dalva de Oliveira e Marlene estão presentes na afinação e na consciência de cada termo cantado. "Verdadeiramente eu, como outros artistas, estamos na contramão. Mas se eu for me preocupar com essa questão ficarei amarrado a uma subjetividade covarde. Por ser artista, tenho uma subjetividade que me impele a criar. Sou um emissário, um refém do meu fazer. Esse tipo de preocupação não nos permite criar. O artista faz arte por necessidade, essa coisa de a arte ser a seiva é fundamental, senão morreremos, e, então, estar na contramão do mercado é o preço. Para isso, temos que nos imbuir de uma ousadia e de uma teimosia absurdas."

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