Publicidade

03 de Junho de 2014 - 06:00

Claudia Nina lança segundo romance, 'Paisagem de porcelana', no qual conta a traumática história de brasileira em viagem à Holanda

Por MAURO MORAIS

Compartilhar
 
Claudia Nina: "Tudo é ficção. Tirei de mim o sentimento de não pertencimento, de me sentir um peixe fora d
Claudia Nina: "Tudo é ficção. Tirei de mim o sentimento de não pertencimento, de me sentir um peixe fora d'água naqueles canais de Amsterdã. Transfigurei tudo e criei"

"Em um país sem montanhas, as quedas são metafísicas. Uma pessoa pode afundar e ninguém vê o desaparecimento. Ninguém consegue despencar de colinas ou ladeiras; a queda é do chão para o chão", confidencia a narradora logo no início de "Paisagem de porcelana" (Rocco, 158 páginas), novo livro da escritora Claudia Nina. No segundo romance da autora, uma jovem brasileira conta sobre os momentos passados em Amsterdã, na Holanda, lugar para o qual se mudou aos 25 anos, no final da década de 1990, com a intenção de estudar. Para uma mulher que saiu de cores, sabores, calores e morros e mais morros, tudo se configurava em choque. Isolada em lugar que não lhe pertence e refém dos silêncios, a narradora se apaixona, mas logo se vê diante de um homem que não reconhece. "Percebi em pouco tempo que o barulho de gente me fazia falta porque, afinal, eu também sendo gente, gostava de ouvir o burburinho dos meus iguais", diz a personagem, cujo nome só é descoberto passado o meio do livro.

Tudo é frágil demais aos olhos de uma narradora densa e tensa. Tudo é delicado como a porcelana, não apenas a paisagem. As emoções que a sufocam fazem com que sua identidade seja definida, então, pelos próprios sentimentos, pela narração quase ofegante de uma mulher distante de seu alicerce. A compreensão e o acalanto estão em um amigo da universidade e em uma ex-vizinha, cuja mudez lhe serve de conforto. Em Yasuko, uma esposa dedicada e sofrida, mora o primeiro blefe de um livro que se faz nos desencontros próprios da memória: a obra de Claudia é dedicada à japonesa, amiga da protagonista, cujo marido não lhe dá qualquer atenção. "Isso faz parte do jogo da ficção. Tudo é ficção. O que é real é a argamassa que junta os tijolos das invencionices, ou seja, a emoção. Eu trabalho muito assim. Tirei de mim o sentimento de não pertencimento, de me sentir um peixe fora d'água naqueles canais de Amsterdã. Transfigurei tudo e criei", adianta Claudia Nina.

"Como e por que fui me meter naquela situação é o mistério que eu tento descobrir enquanto conto (parte de) tudo o que aconteceu ao final", diz a narradora, que, em outro momento, conta sobre o encontro com o homem por quem se apaixonou, e logo em seguida desmente. "Coisa de doido isso", brinca a personagem. No jogo proposto por Claudia, as histórias lembradas por uma mulher e contaminada por todos os sentimentos de solidão e dor que permearam sua passagem por uma terra fria corroboram a boa descrição da obra, que a caracteriza como um "road book" às avessas. "Pensei em escrever em terceira pessoa (meu próximo romance será assim), mas não consegui. A personagem precisava falar em primeira pessoa, e eu deixei. Achei que soaria mais forte e mais verdadeiro se ela contasse sobre as quedas do ponto de vista da sua perspectiva: o chão", argumenta a autora.

Diferente das porcelanas do título, a segunda incursão de Claudia Nina pela ficção adulta é forte e sólida. Como já anunciado em sua estreia com "Esquecer-te de mim", de 2012, a escritora se insere no grupo das vigorosas vozes da nova geração da literatura brasileira. Semelhante às porcelanas do título, encontradas em uma Holanda que também conjuga belezas, mesmo que fugazes, a narrativa desperta para um encantamento, ainda que medido por discursos dolorosos e amargos. Embora na história ressoe o olhar sentimental para a trivialidade - já que a narradora domina somente a si mesma, em um turbilhão de emoções e sensações -, característica bastante presente na obra de Clarice Lispector, Claudia não se diz influenciada, na composição de "Paisagem de porcelana", pela autora que percorre o não pertencimento. "A Clarice dialoga com tudo o que eu penso e escrevo, mas não acho que seja de uma forma direta. Penso nela como uma referência importante, uma voz, uma pulsação latente, mas nada que ressoe muito alto na minha ficção. Se fosse assim, eu me sentiria engessada pelas minhas próprias leituras", avalia.

Indiscutível, no entanto, é a inserção e o contato da jornalista cultural, que encontrou sua voz em meio aos romances, na escrita contemporânea. Mesmo se atendo a um conteúdo abordado por autoras como Tatiana Salém Levy, Carola Saavedra e outras jovens escritoras, Claudia manuseia a solidão de forma singular. Sua linguagem, sua forma resultam em matéria elaborada com requinte e sem gratuidades. "Vivo o meu tempo e preciso falar da forma como me sinto neste mundo. Eu jamais conseguiria escrever um romance à la Balzac, por exemplo", comenta a autora, formada em Comunicação Social pela UFJF.

Claudia estreitou seus laços com os livros ao longo da vida. Reuniu passagens pelo Caderno Dois da Tribuna, como repórter; pelo caderno Ideias & Livros do "Jornal do Brasil", como editora; pela revista "EntreLivros" e pelo caderno Prosa & Verso do jornal "O Globo", como colaboradora; além de ter mediado diversos encontros literários, dentre eles "Encontros de interrogação", promovido pelo Itaú Cultural, do qual foi, também, curadora, ao lado de Thiago Rosenberg.

 

 

Caminho natural

Hoje colunista da revista "Seleções Reader's Digest", a escritora concluiu seu doutorado em letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda - "Tudo é ficção", já disse -, trabalho que lhe rendeu a publicação de "A palavra usurpada", de 2003, sobre a obra de Clarice Lispector. Como pesquisadora, também lançou "A literatura nos jornais: A crítica literária dos rodapés às resenhas", de 2007. "A virada ocorreu quando saí de vez do 'Jornal do Brasil' e, também, quando parei de dar aulas. Naquele momento, eu precisava entender o que queria fazer da vida. O caminho que me ocorreu como o mais natural e feliz foi o de ouvir as histórias que eu mesma tinha para contar", diz ela, que já publicou dois títulos infantis, "A barca dos feiosos", de 2010, e "Nina e a lamparina", de 2013.

"Existem ótimos autores que estão construindo a literatura contemporânea e que, sim, me ajudam a entender aonde eu quero chegar, quais estradas quero percorrer. Gosto especialmente das mulheres escritoras. Dois livros recentes me impressionaram muito: 'Os Malaquias', de Andrea Del Fuego, e 'A vendedora de fósforos', de Adriana Lunardi. Acho que conhecer a produção ajuda muito na criação. Gosto de pertencer a meu tempo, de escrever literatura contemporânea, e os livros de que gosto servem de referência a todo instante, bem como as reflexões que nascem da crítica em movimento", pontua.

Em seu primeiro romance, "Esquecer-te de mim", três personagens femininas (uma viúva, uma gorda e uma mulher recém-separada) lutam para reverter a subjugação, o abandono. "Gosto de tocar neste tema porque é o que mais me amedronta. E mexer nos medos profundos, acho, é uma forma de experimentar o limite", diz.

Lançado pela versão brasileira da editora portuguesa Babel, que sem fôlego fechou seu escritório no país no início do ano passado, o primeiro trabalho de ficção adulta de Claudia demonstra a força e a originalidade de uma escritora consciente de seu território. As três vozes que se enredavam na escrita de um argumento único, o da solidão, tinham força poética singulares e protagonizavam cenas potentes. "O romance ficou esquecido, sem o perdão do trocadilho. Ficamos todos os autores envolvidos no meio do caminho. Mas faz parte. São escolhas. Se eu não tivesse apostado na Babel, isso não teria acontecido. De qualquer forma, não penso em ficar remoendo esta situação. Até porque o romance foi uma estreia feliz, acho que as pessoas gostaram, recebi boas críticas e, de certa forma, foi um passaporte para uma nova fase", pondera.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você é a favor de fechamento de pista em trecho da Avenida Rio Branco para ciclovia nos fins de semana?