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04 de Abril de 2014 - 06:00

Encontro de MCs completa três anos com festival que reúne artistas mineiros e cariocas, além de batalhas, mostras e oficinas

Por MAURO MORAIS

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Organizadores se reúnem na CasAbsurda, que vai acolher alguns dos participantes do festival
Organizadores se reúnem na CasAbsurda, que vai acolher alguns dos participantes do festival

 

Organizar pessoas em torno de uma mesma ideia sempre é um desafio, mas jovens do hip hop de Juiz de Fora conseguiram se estruturar e estabelecer um evento que há três anos tem feito surgir uma cena expressiva e cada vez mais abrangente na região. De hoje até domingo, o Encontro de MCs comemora aniversário, ocupando espaços públicos, difundindo conhecimento e abrindo espaço para o entretenimento. Das letras às ações de protesto, plenas em consciência da realidade, MCs, grafiteiros e b-boys demarcam seus espaços, apresentando um modelo profissional e independente de fomento à música. De 26 de fevereiro de 2011, quando o evento começou na Praça Antônio Carlos, ainda de maneira bastante amadora, às edições mais recentes, na Praça da Estação, a periferia da cidade se encontra e confirma presença na construção de um cenário que tem ganhado destaque em todo o país.

"Antes do Encontro de MCs, eram poucos os improvisadores. Depois apareceram novos MCs, garotos com a cabeça aberta, dispostos a fazer a cena mudar e crescer na cidade. Eles apareceram com uma consciência muito grande de fazer um trabalho sério. A cena se fortaleceu, porque não deixou os b-boys pararem, e incentiva os grafiteiros. Três anos depois, o movimento do hip hop está muito mais forte", declara Aice, MC e um dos pioneiros do rap em Juiz de Fora e organizador do evento.

Um dos fundadores do encontro, MC Oldi se entusiasma ao rememorar a evolução do gênero na cidade. "Eu já era MC, já rimava há um tempo e participava do movimento, mas a cena de rima de improviso era bastante fraca. Na época, os b-boys tinham um trabalho crescente, intenso, como o pessoal do grafite. Rolavam apenas alguns shows para os MCs. No começo de 2011 fiz algumas festas chamadas 'Meu black é assim' e, a partir daí, comecei a ter experiência em evento. Criamos um flyer, chamamos uma galera com antecipação, um grafiteiro e fizemos uma roda de freestyle", conta.

DJ oficial do evento, Fabim começou colaborando na organização e se tornou o responsável pela pickup, tendo visto toda a transformação e aprimoramento das rimas e dos ritmos. "Vemos que há uma evolução dos MCs desde o início. A cada evento o pessoal vai ficando melhor, não existe um que seja o melhor, porque a cada encontro há uma boa surpresa", defende. Inicialmente e essencialmente itinerante, o encontro teve sua primeira edição no início de 2011 e só voltou a acontecer em outubro do mesmo ano, quando reuniu um número considerável de participantes e acabou engatando. "Já tinha no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, e em outras cidades, o que dava uma base, servia de espelho, para fazermos por aqui", conta Oldi, dizendo já ter feito o evento na Praça da Baleia, no Bairu, no Parque Halfeld, no Centro, e em outros espaços públicos em bairros como Vitorino Braga, Manoel Honório, Alto dos Passos e Cascatinha. "Em cada praça uma galera nova ia chegando. O público foi criado a partir daí. A grande transição veio com um formato elétrico, com microfone e tudo mais", comenta.

"Não há um público uniforme. Tem gente de tudo quanto é tribo. O hip hop é muito abrangente", explica a artista visual Fernanda Toledo, que utiliza o grafite como uma de suas expressões, sempre assinando como Pekena Gigante. "Juiz de Fora tem poucos eventos de ocupação da rua, com essa coisa barata, de não precisar pagar para ter uma qualidade", diz Fernanda, apontando para a profissionalização que o evento foi criando à medida que as edições eram feitas. "Temos uma equipe de mídia, e esse trabalho nos deu uma visibilidade muito grande. Hoje nós temos um alcance de quase um milhão de pessoas na página do Facebook. O evento cresce junto com o crescimento da mídia", pontua Isabella Campos, fotógrafa e uma das organizadoras. O Festival 3 Anos Encontro de MCs é uma prova de que essas pessoas entre 15 e 30 anos, em sua maioria, fazem trabalho de gente muito experiente.

 

 

'Conhecemos todo o processo'

Ao longo dos três dias do festival, que nessa sexta acontece na Praça da Estação; amanhã, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas; e no domingo, na Praça Antônio Carlos, haverá espaço para diversas linguagens artísticas. Do sarau às artes circenses, passando por mostras de vídeos, oficinas, grafite ao vivo, apresentação de b-boys, artes circenses e, logicamente, batalha de MCs e shows com rappers do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Volta Redonda, Pouso Alegre, Santa Rita do Sapucaí e Juiz de Fora. "Ano passado, com a comemoração dos dois anos, conseguimos comprar parte de um equipamento de som para fazermos eventos maiores. Pensamos que a comemoração dos três anos teria que ser maior do que a de dois", comenta Marcos Carvalho Abreu, um dos organizadores.

Segundo outra organizadora, Brenda Andrade, o tempo foi primordial para que o encontro tomasse um caráter mais profissional, além das muitas exigências que um evento de rua necessita. "Depois desses três anos produzindo e, com tanta burocracia para cada edição, chega uma hora em que já conhecemos todo o processo", afirma. E esse conhecimento, para Aice, beneficia muito mais do que a própria cidade. "Quando essa cena aquece em Juiz de Fora, aquece toda a Zona da Mata e acabamos fazendo esse intercâmbio com cidades próximas como Matias Barbosa, Ubá, Barbacena, São João del-Rei e muitas outras", diz o veterano.

O momento atual, efervescente, também reflete outros cantos e, principalmente, o sucesso de nomes como Emicida, rapper que conquistou as rádios, a televisão e um público nacional e internacional. "Na maioria dos casos, chega primeiro o Criolo, o Emicida e o Racionais MCs. Quando a pessoa se interessa, acaba procurando uma cena por perto. As batalhas de improvisação ficaram muito populares no Brasil, e cada galera foi levando para sua cidade", destaca MC Oldi, apontando para Belo Horizonte como um desses lugares de inspiração. Realizado semanalmente no Viaduto de Santa Tereza, no Centro da capital, o Duelo de MCs resiste desde 2007, apresentando uma geração de rappers para o país. Um deles é Vinicin MC, que faz show nesta sexta-feira no festival.

Criado na Zona Norte da cidade mais populosa de Minas Gerais, o jovem rapper despontou nas batalhas há quatro anos e se prepara para lançar seu primeiro disco. "A cena de Belo Horizonte é muito forte. A cidade se tornou uma referência em termos de batalha no Brasil, estamos dentro do mapa dos duelos de freestyle no país", diz. "A mensagem de otimismo não veio de mim. Eu sempre duvidei muito do que eu poderia fazer. Essa mensagem veio das pessoas que vinham falar comigo após as batalhas. Eu sempre fui muito cético. Nunca me liguei muito em política. Depois que me aprofundei na cultura hip hop me interessei mais no assunto. O hip hop potencializa bastante o interesse das pessoas em buscar o conhecimento e os direitos que elas têm", completa o autor de "Acredite", rap que diz: "Todo mundo mente nem que seja em um segundo/ Então é necessário que se mude esse mundo/ Por uma eternidade que multiplique a verdade/ E contamine com caráter essa sociedade".

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