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25 de Junho de 2014 - 06:00

ENTREVISTA / JOSÉ MARIA MAYRINK, jornalista

Por MAURO MORAIS

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O jornalista lança em livro a série de reportagens "Solidão", publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" na década de 1980
O jornalista lança em livro a série de reportagens "Solidão", publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" na década de 1980

Nada é estanque. O ponto pode ser apenas um ponto e não o final. Nas faculdades de jornalismo, é ensinado que para algo ser notícia precisa atender aos critérios de noticiabilidade, que diz respeito a relevância, frequência, negatividade, imprevisão e alcance da informação. Para que seja reportagem, é imprescindível que não se distancie da notícia, que seja, no jargão da profissão, quente. Para estar em um jornal, segundo as teorias do jornalismo, é preciso que haja barulho. Porém, nem tudo é definitivo. Em 1982, o jornalista José Maria Mayrink subverteu as elucubrações das teorias e trouxe à prática os silêncios. A série de reportagens "Solidão" (Geração Editorial, 189 páginas), publicada na época no jornal "O Estado de S. Paulo", agora ganha as páginas de um livro, com a revisão de três décadas que se seguiram, e confirma a atemporalidade e, principalmente, a urgência de um tema que serve tanto à poesia quanto às mais objetivas estatísticas.

Povoam o livro pessoas comuns, como a nordestina Ana Maria, que convive com a angústia de ter de esconder dos vizinhos, amigos e familiares sua sujeição ao striptease. Ou Cida e sua cama vazia após a perda do marido. Também há espaço para o preso Joel e sua cela fria, para a madre Maria Aparecida Giannocaro em sua clausura devotada, para Maria Carvalho e as marcas profundas de sua hanseníase, para Sérgio e seu trabalho noturno e soturno, e para muitos outros, trabalhadores ou não, anônimos ou nem tanto. "Comecei a encarar São Paulo e sua gente, até agora tão distante, com olhos diferentes", conta Mayrink em determinada passagem da obra, que mostra o quanto a cidade mais populosa do Brasil pode se parecer com o menor município do país, tamanha a universalidade do sentimento de isolamento.

"É com assombro que eu leio esta reportagem, comovendo-me com sua capacidade de sentir, com seus personagens, a dor da miséria e da tragédia, a mágoa, o desencanto diante da morte, mas também a esperança, quando tudo falha, numa luz que se acende - débil, mas de qualquer forma luz - no fim da estrada", comenta Luiz Fernando Emediato, editor da Geração Editorial, em introdução da obra. Premiado jornalista, aos 75 anos, Mayrink coleciona importantes prêmios, como o Esso de Jornalismo e o Rondon de Reportagem, e já publicou "Filhos do divórcio", "Anjos de barro", entre outros. Natural de Jequeri, na Zona da Mata mineira, o jornalista nunca se distanciou de sua origem, mas se habituou à imensa São Paulo, de olho no barulho e nos silêncios da metrópole. "Você está notando algum sotaque paulista na minha conversa? Nenhum, não é mesmo? Estou em São Paulo desde 1968, mais tempo aqui que em Minas. Vou a Jequeri todo ano. Descendo em Belo Horizonte ou passando a fronteira de carro, sinto como se nunca tivesse saído. Sinto-me mineiro novamente. Isso está arraigado em mim", conta em entrevista, por telefone, à Tribuna.

 

Tribuna - Como foi retomar esse tema depois de mais de 30 anos?

José Maria Mayrink - Decidi publicar o livro depois de retornar às histórias e aos personagens. A primeira parte não perdeu a sua atualidade, embora as pessoas tenham 30 anos a mais ou morreram ou sumiram do mapa. A solidão continua muito parecida, e às vezes, agravada. Ao voltar, quase não procurei novos personagens, encontrei os mesmos, que confirmaram aquela situação de três décadas atrás. A sensação foi mais ou menos igual, me emocionei muito na época, e agora também. Entrevistei, para esse livro, por exemplo, a filha de um casal de personagens que já morreram. Casado com Dora, Tomás ficou viúvo e falou sobre o que é a solidão de um casal que se amava e de repente um deles vai embora. A filha, Dulce, fala, agora, dos pais. A emoção também voltou para ela.

 

- O que você sente quando se depara com essa solidão que é comum e, ao mesmo tempo, um tabu?

- É um tabu que as pessoas tentam driblar de alguma maneira, mas tem, também, a solidão que é boa, procurada, opcional. Entrevistei uma freira idosa, do Carmelo de Santa Teresa, em São Paulo, e, agora, entrevistei outra, também idosa. O testemunho é muito parecido. Outras pessoas gostam da solidão quando ela vem em alguns momentos e soa como uma pausa para relaxar no meio da vida agitada. Embora não seja contínua, quando vem ela dói. É um livro de reportagem, entrevisto pessoas, e por isso varia o sentimento da solidão ao longo do livro. São testemunhos.

 

- E como é presenciar esses discursos?

- Existe uma espécie de compaixão, no sentido de sofrer junto, experimentar junto. A reportagem, na época, me tocou muito pelo que as pessoas falavam e sentiam. Sou repórter há 52 anos e aguentei muitos trancos difíceis ao longo desses anos. Sou duro, no sentido de aguentar para fazer a reportagem, mas isso não me impede de desabar em emoção depois. Em 1972, vi o incêndio do Edifício Andraus, em São Paulo, de perto, há dois quarteirões de distância. Vi as pessoas pularem lá de cima, acompanhei tudo ao longo da tarde até a noite, escrevi e quando fui para a casa senti tudo e chorei, desabei por tudo que tinha presenciado. Fazendo "Solidão", senti junto, sofri com os personagens. Uma das situações que mais me emocionaram foi a visita que fiz na época, e voltei agora, no hospital de hansenianos. Aquela é uma solidão não somente de as pessoas se sentirem isoladas, mas de um grande abandono da família. Tanto que quando elas são liberadas para voltar para a casa, muitas não conseguem. Voltam para o hospital por não ter ambiente, amor, acolhida em casa.

 

- O livro também mostra uma transformação no jornalismo. O que vê de mudança?

- Hoje é muito difícil ver uma série assim com um assunto desses, "solidão", que parece algo abstrato. Pela evolução do jornalismo e pelas dificuldades econômicas, isso se torna mais complexo, mas também não é impossível. Quando a reportagem é boa, o jornal abre espaço. Como exemplo, cito a experiência de uma colega minha no "Estado de S. Paulo", a repórter Adriana Carranca, que tem conseguido isso trabalhando no Afeganistão. Não perco minhas esperanças.

 

- Essas transformações também estão em uma das histórias, da personagem Lúcia, a "mineira solitária", que fez um anúncio no jornal contando de sua angústia. Era comum ver no jornal esse tipo de comunicação...

- Ao invés de publicar no jornal, ela pediria o mesmo socorro pela internet, com certos riscos, mais de uma forma mais comum nos dias de hoje.

 

- No livro, você mostra que o rádio preenchia um espaço vazio. Hoje, percebe que a internet é um espaço de solidão?

- Começa por isolar os internautas. Pessoas passam horas na frente do computador procurando contatos, mas tudo de uma forma solitária. O rádio trazia uma companhia, e a internet é o lugar de busca, com riscos, como o de se equivocar.

 

- Esse tema ainda chama atenção em seu cotidiano?

- Não é uma preocupação. O repórter vai evoluindo de matéria em matéria. Nunca tive particular preocupação com a solidão. Muitos me perguntaram se fiz o livro por ser solitário. Não. Assim, como me perguntaram se eu era divorciado quando fiz "Filhos do divórcio". Também não.

 

- Logo na capa do livro, há uma inscrição sobre a mudança da vida de milhares de pessoas. Como é alcançar isso com seu ofício?

- Isso foi uma constatação a partir da reação à reportagem. Quando a personagem Lúcia escreveu um anúncio no jornal, ela conta ter recebido mais de 400 cartas de pessoas se solidarizando, prometendo apoio ou, até mesmo, a censurando. Publicada a reportagem, continuou, também, uma enxurrada de cartas para o jornal, para mim e para os personagens. Fico satisfeito de ver uma repercussão assim. Isso me dá muita alegria, é uma compensação para minha vida de repórter.

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