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22 de Maio de 2014 - 06:00

ENTREVISTA/Martha Medeiros, escritora

Por MAURO MORAIS

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A colunista falou, ontem em Juiz de Fora, sobre sua carreira e processo criativo
A colunista falou, ontem em Juiz de Fora, sobre sua carreira e processo criativo

Algumas leituras se configuram em ato cerimonioso, outras se expressam como bate-papo, conversa entre autor e leitor. Aparentemente simples, essa escrita que se deseja menos formal, refletindo o cotidiano sem resvalar em banalidades, é exercício de linguagem complexo, já que a palavra, ao ganhar o papel, se afasta, de alguma forma, da espontaneidade. Tendo iniciado sua carreira em 1985, com o livro de poesias "Strip-tease", Martha Medeiros faz de seu leitor um cúmplice de seu ofício, repartindo com ele a reflexão dos dias. Como em uma conversa sem espaço para rigidez, a escritora, gaúcha de Porto Alegre, consolidou-se na literatura como importante voz da crônica, com estilo eminentemente feminino. De sua pena, surgiu Mercedes, uma quarentona casada e com filhos, cuja vida é revirada após iniciar uma terapia. Personificada pela atriz Lília Cabral, "Divã" foi transposto para o palco e para as telas, confirmando a destreza de Martha para com a vida comum. Outras obras da escritora também conheceram a cena viva através do trabalho de interpretação de atores reconhecidos no Brasil, como Ana Beatriz Nogueira e Cissa Guimarães.

Somando mais de 20 títulos publicados, a colunista dos jornais "Zero Hora" e "O Globo", é expoente da nova geração de cronistas brasileiros, da linhagem de Lya Luft, também exímia romancista e poeta. Do domínio da linguagem à sensibilidade com as rotinas que passam ligeiras a muitos olhares, Martha fala de amor, família, viagens e outras amenidades, de maneira descomplicada, mas indiscutivelmente sincera. A escritora esteve ontem em Juiz de Fora, integrando o projeto "Sesc Literatura" e abordou sobre sua carreira e processo criativo. De olhos e ouvidos atentos, para ela, cada segundo pode representar um texto, ainda que muito já tenha sido dito.

Tribuna - De onde vem sua inspiração? O cotidiano é a fonte maior?

Martha Medeiros - Sim, tenho um radar permanentemente ligado, mas isso não torna minha vida estressante, é da minha natureza ser atenta, interessada, faz parte do meu jeito de ser. As ideias surgem de onde menos se espera: de uma cena de rua, de um papo com uma amiga, de uma frase de um livro... ou de dentro de mim mesma.

- Sua escrita parece, por muitas vezes, falar ao ouvido do leitor. Isso é intencional? Como lida com isso?

- Nada que faço é intencional, tudo é intuitivo. Acredito que essa minha facilidade de comunicação tenha algo a ver com meus anos de publicitária. A propaganda é um exercício de sedução, então, certamente devo ter herdado isso daqueles primeiros anos como redatora de agência. Nunca esperei que minhas crônicas alcançassem o leitor dessa forma tão íntima, mas fico feliz que aconteça. O trabalho compensa quando fazemos diferença na vida dos outros.

- Em tempos de escassos espaços para a crônica, como é falar dos dias que correm? Qual a relevância da crônica na sua trajetória e na sua vida?

- Olha, esse ano completo 20 anos de crônica, e, em vez de ficar mais fácil, está cada dia mais difícil. A impressão que tenho é que já abordei todos os assuntos, afinal, a vida não é tão original assim. Corrupção, Copa do Mundo, desastres ambientais, entregas do Oscar, guerras, eleições, modismos, é tudo mais do mesmo, o que muda é nosso ponto de vista sobre o mundo, e é nele que foco: no jeito de ver as coisas. Apesar de todo esse tempo de ofício transcorrido, escrever continua desafiador porque me ajuda a me reconhecer, a documentar a fase em que estou, o que perdi e o que ganhei durante essa trajetória. Não é fácil como parece, mas é uma profissão estimulante.

- Qual o limite entre ficção e realidade? Como uma dialoga com a outra em seu processo criativo?

- A crônica sou eu opinando, é o meu modo de ver as coisas, tudo muito realista. Já na ficção, geralmente parto de um questionamento interno, meu, para em seguida "seguir viagem" dando asas à imaginação. É só na decolagem que embarco junto, depois me libero totalmente para a criação ficcional.

- Ainda hoje existe, no Brasil, um grande preconceito contra livros que agradam o público, os best-sellers. Como encara as críticas?

- A gente percebe quando a crítica é séria e quando é conversa de ressentido. Claro que nenhum autor gosta de ser criticado, eu também não, mas isso aconteceu tão pouco na minha vida literária que me queixar seria um abuso. Eu sou muito bem tratada por todos, sinto que as pessoas me respeitam, mesmo que algumas não gostem do que faço. Os leitores, então, nem se fala, são afetuosos demais. De certa forma, acho importante não ser uma unanimidade, isso faz com que desconfiemos de nós mesmos o tempo todo. Cada texto que escrevo é como se fosse o primeiro, para mim não existe jogo ganho.

- Seus livros conquistaram o teatro. Você consegue compreender essa aceitação nos palcos?

- Nem todas as peças encenadas foram um sucesso retumbante, mas em termos gerais também não tenho do que reclamar. Nunca participei de um roteiro, de um ensaio, de nada, apenas autorizo a adaptação e me desapego. Entendo que o teatro é um trabalho de equipe, e que inúmeras novas leituras da obra serão feitas: entrará a visão do diretor, do adaptador, do elenco... É a sintonia entre todas essas pessoas que vai determinar se a peça funcionará ou não. Mas creio que o fato de eu escrever muito sobre as relações humanas facilita a aceitação do público, que se reconhece no palco.

- "Selma e Sinatra", de 2005, adianta a polêmica questão das biografias, o que mostra seu olhar atento. As histórias precedem a história?

- Pois é, foi uma coincidência, nunca pensei que as biografias ganhariam o protagonismo que ganharam em 2013. O que me interessa nesse livro é a discussão sobre o que torna uma vida interessante, até onde nossos "escândalos" são mais importantes que nossas realizações cotidianas. Afinal, quem consegue manter uma vida permanentemente exótica? Na maior parte do tempo, somos feitos de nossos amores, desamores, conquistas, frustrações e das miudezas que acontecem entre quatro paredes. Qualquer rotina simples pode dar um livro, desde que haja um olhar poético e sensível sobre o que nos cerca.

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