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19 de Dezembro de 2013 - 07:00

Em plena era digital, artistas investem em gravação de discos de vinil, e colecionadores aquecem as vendas

Por JÚLIA PESSÔA

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Eli Alves tem coleção com mais de 300 exemplares, com algumas raridades
Eli Alves tem coleção com mais de 300 exemplares, com algumas raridades
Coletivo Vinil é Arte, precursor da cultura dos bolachões na cidade, foi contemplado com edital nacional
Coletivo Vinil é Arte, precursor da cultura dos bolachões na cidade, foi contemplado com edital nacional

Embora alguns tenham profetizado seu fim décadas atrás, os discos de vinil não apenas permaneceram no mercado - ainda que tenham enfrentado períodos de vacas magras -, mas estão de volta às lojas, às mãos de colecionadores e amantes de música e aos planos de muitos artistas. Prova da retomada dos bolachões foi o patrocínio do novo projeto do coletivo Vinil é Arte por um dos mais importantes editais de apoio à música brasileira, o Natura Musical, que contemplará mais de 200 iniciativas em 2014.

Segundo o juiz-forano Pedro Paiva, um dos idealizadores do Vinil é Arte, o disco "Vinil é arte remixes" terá foco na música mineira, com composições de artistas independentes. "A proposta é fazer este LP circular entre DJs profissionais que trabalham com discos no Brasil e no exterior, mas ainda assim se manter um disco coerente e conceitual para que possa estar presente nas estantes de velhos e novos colecionadores", explica ele, que, junto a outros integrantes do coletivo, ficará responsável pela curadoria do repertório, o acompanhamento técnico e os lançamentos em Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio e São Paulo.

Para Pedro, é uma honra poder lançar o trabalho em Juiz de Fora, onde o coletivo começou, embora esteja espalhado em quatro cidades e três estados. "Foi aqui que descobrimos que os discos poderiam ir muito além de nossas prateleiras ou de nosso círculo de amigos. Neste disco que vai ser lançado em 2014, certamente vão figurar alguns artistas de Juiz de Fora. Além disso, o projeto dos remixes foi pensado a partir da cena musical da cidade, com uma proposta de fazer quatro volumes. O primeiro seria com artistas locais e abriria a coleção, mas como não conseguimos o recurso ainda, vamos iniciar a série com este volume de âmbito estadual", explica ele, que planeja lançamentos juiz-foranos mesmo para os produtos com foco nacional e internacional.

No ano passado, o contrabaixista Dudu Lima também se rendeu ao bolachão, lançando o álbum "Dudu Lima Trio ao vivo no Cine Theatro Central" neste formato, além de CD e DVD. "Acabou sendo uma grande celebração do meu trabalho, junto a este retorno ao vinil que o Brasil vem vivendo. Acho que eles têm um som mais orgânico, sem aquela pureza artificialmente fabricada dos CDs, além de terem informações de ficha técnica mais valorizadas", opina ele, que possui uma coleção com cerca de 300 exemplares em seu acervo pessoal. "Fui adquirindo ao longo da vida", completa o músico. Entre os LPs, alguns contam com participação de Dudu, convidado por outros artistas entre os anos 1980 e 1990.

 

Heróis da resistência

Com 25 anos de mercado, o lojista João Roberto de Moreira, dono do Museu do Disco, viveu o apogeu dos bolachões, nos anos 1980, as ameaças de extinção, ao longo dos 1990, e a retomada, a partir dos anos 2000. "Houve uma valorização muito grande de dez anos para cá. Alguns anos atrás, discos muitos raros eram vendidos a R$ 5 ou menos, porque não havia procura", diz ele, comemorando o aquecimento nas vendas na loja, que recebe novos lotes de discos semanalmente. "São tantos anos de loja que já sei qual cliente vai se interessar por qual remessa, dependendo do estilo musical."

Se o lote for de MPB, certamente alguns vinis terão destino: a coleção do aposentado Marcus Vinicius Dadalti, que tem mais de 30 mil exemplares, todos etiquetados e devidamente catalogados no computador. Depois que parou de trabalhar, Marcus passa diariamente pelo museu: "Todo dia é pelo menos uma sacolinha!", brinca ele, para quem "garimpar" novas aquisições é a parte mais prazerosa de ser colecionador. "Não vejo graça em comprá-los pela internet, gosto de ir às lojas, 'sujar o dedão', e, principalmente, ver as capas, que são um atrativo a mais."

Para o chef de cozinha Eli Alves, "rato" de sebos, feiras, lojas e de sites que vendem bolachões, as capas proporcionam um tipo diferente de consumo cultural, deixado um tanto de lado nos CDs e totalmente perdido nos formatos digitais. "É uma relação mais completa. Você ouve, vê, manuseia... Além disso, acho que o vinil permite uma aproximação maior com a música, é preciso criar um momento para ouvi-lo, virar o disco, posicionar a agulha: é mais táctil, mais atento, mais íntimo", avalia ele, que tem entre seus trunfos o fato de ter conseguido comprar um raríssimo "Tim Maia Racional" por R$ 3,50, de um vendedor na rua.

"Ele não sabia o que estava vendendo, mas eu certamente sabia o que estava conseguindo comprar", diverte-se ele, acrescentando que golpes de sorte como este estão cada vez mais raros. "Atualmente, as pessoas estão mais informadas sobre os vinis, sobre seu valor, o que é ruim por um lado, porque faz os preços subirem, mas, por outro, torna a grande maioria dos álbuns 'encontráveis'", pondera.

 

Além do valor estético e musical, os bolachões também estão ligados à afetividade, seja por nostalgia a uma determinada época ou por apego à forma como foram adquiridos. No caso do baterista Victor "Frango" Fonseca, a coleção que hoje tem "500 discos que não vende ou troca" foi iniciada com exemplares de seus pais - ou quase isso. "Dois discos que foram o início de tudo, o 'Sabbath Bloody Sabbath', do Black Sabbath, e o 'Please please me', dos Beatles, se não me engano meu pai pegou emprestado de alguém e nunca mais devolveu. Mas minha mãe também teve participação na história. Ela tinha alguns discos da Rita Lee , dentre eles o 'Babilônia', e alguns do Roberto Carlos na sua fase Jovem Guarda. Foi um começo bem digno, acredito eu."

Entre viagens ao exterior e visitas a lojas físicas e sites como o Ebay (ebay.com), onde tem acesso a discos que ainda nem foram lançados no Brasil, Frango vem engordando a coleção com alguns achados. "Me lembro com muito carinho do 'Exile on Main Street', dos Rolling Stones. Sempre fui apaixonado pelo disco e achei um novinho, com encarte e tudo, perdido em um sebo por R$ 30. Depois disso, vi que se metesse as caras podia achar muita coisa boa."

Na casa de Cláudia e Mariana Pannisset, disco também é herança de família. O acervo iniciado pelo pai de Cláudia vai de Pena Branca e Xavantinho a Noel Rosa, além de vários exemplares de Elis Regina, Caetano Veloso e Chico Buarque. "Os deles dois são meus preferidos, porque sou uma grande fã e fui a alguns shows, então os discos me remetem a muitas lembranças." Já Mariana, se tiver que "roubar" algum da coleção, ficará com "Saudades do Brasil", de Elis. "Ela era a artista preferida do meu avô, então criei uma relação especial com sua música e este disco em especial."

 

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