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09 de Julho de 2014 - 06:00

Com performances pautadas pela experimentação, encontro de de-composição sonora busca romper com padrões de apreciação musical

Por JÚLIA PESSÔA

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Músicos propõem criação e percepção musical livre de predeterminações
Músicos propõem criação e percepção musical livre de predeterminações

"Se não há experimentação, não há como fazer música", afirma, categoricamente, o pesquisador e compositor sonoro e musical Paulo Motta, um dos organizadores do Encontro de De-composição Sonora, que busca explorar sons e formas musicais pouco familiares, para deslocar o público de suas "zonas de conforto" auditivas e perceptivas. "Grande parte das músicas que chega ao conhecimento do público não tem uma preocupação experimental, mas se adéqua a um padrão perceptivo ao qual as pessoas estão acostumadas, porque é o amplamente difundido pela mídia", completa Paulo, destacando que o evento procura romper com esta conformidade presente na relação entre a música (e diversas expressões sonoras) e o público.

Além de Paulo, também farão performances no evento o grupo 4zero4 e dois convidados: o professor do bacharelado em música da UFJF Luiz Castelões e Tiago Rubini, pesquisador de som, arte e tecnologia.

Para Fred Fonseca, integrante do 4zero4 e também organizador da iniciativa, perde-se muito da apreciação musical quando há a padronização do que se ouve. "A música vira mero entretenimento, pano de fundo, e perde o poder de tocar as pessoas, inerente à arte. Existe uma concepção errada de que a música deve sempre agradar. A música da noite, de barzinho, tem esse papel, mas música é também frequência, e, por si só, provoca sensações. Por que não explorar esse lado orgânico, com propostas estéticas tão diferentes?", indaga Fred. "A intenção é decompor o que é predeterminado para que surjam composições que sejam novas de fato", completa ele.

Segundo Paulo Motta, performances como as desta noite exigem do público um outro tipo de relação com os artistas e com a arte apresentada. "O público tem que ter certa disponibilidade para se incomodar. Como fruição estética, o incômodo é mais saudável que a conformidade, porque é uma reação intensa a algo que você nunca havia visto, conseguiu tocar. Quem é convidado a participar destas performances vai presenciar uma surpresa, algo que nem os artistas costumam saber como vai soar, uma especulação de percepção do som", destaca o pesquisador.

Fred Fonseca aponta que outro objetivo do encontro é tirar a experimentação musical das inalcançáveis torres de marfim a que ela está sujeita, como ocorre com tantas outras linguagens da arte contemporânea. "Historicamente, há uma falta de crença no público em relação à arte contemporânea e desta em relação ao público. Isso faz com que os artistas acabem sendo seu próprio público, em um universo limitado a leis de incentivo. Queremos não apenas ajudar a construir uma cena contemporânea para a música na cidade e para o maior público possível, mas também mostrar aos artistas que existem outras formas de trabalhar, entender e viver a música", defende ele.


Abrindo novos caminhos

"Desejo muito que estes encontros se tornem sistemáticos. Grande parte do desinteresse do público é por falta de frequentar este tipo de evento, e porque a produção circula em núcleos restritos. O 4zero4 retomou, nesta geração, o caminho para a inversão desse processo", observa Paulo Motta. De fato, poucas iniciativas privilegiaram a experimentação sonora e musical em Juiz de Fora ao longo dos anos, entre eles, "Música Eletrônica" (organizado por Paulo Motta, 1985); quatro edições da MIMEJF - Mostra Internacional de Música Eletroacústica (Paulo Motta, décadas de 1990 e 2000); quatro edições do Eimas - Encontro Internacional de Música e Artes Sonoras (IAD-UFJF, 2010 a 2013); e, neste ano, o 4zero4 (formado, além de Fred, por Robert Anthony, Stanley Palmeira, Yago Franco e Marcelo Cameron) surgiu com suas performances experimentais acústico-eletrônicas para dar novo gás na cena local.

Para o professor Luiz Castelões, um dos convidados do encontro, a iniciativa representa uma virada histórica na experimentação musical e sonora em Juiz de Fora. "Esta geração representada pelo 4zero4 está tomando as rédeas da produção musical contemporânea na cidade. Não que sejam os pioneiros, o Paulo Motta produz há décadas, e o Eimas também tem muita importância. Mas agora a iniciativa parte daqui, a produção é local, e isso vem inspirando mais pessoas, o que vejo com entusiasmo absoluto", comemora o professor, que vê no bacharelado em composição musical da UFJF uma possibilidade de aproximação entre a instituição e a produção local a longo prazo. "Seria a consolidação da música autoral na cidade."

Fred Fonseca acredita, ainda, que a consolidação de propostas como o encontro pode contribuir para ampliar e melhorar a formação da mão de obra musical local. "Todas as linguagens que são exploradas no que se convencionou chamar música experimental acabam sendo subutilizadas no mainstream sob o rótulo de 'efeitos sonoros', mas as técnicas requerem muito estudo de áudio. Se a cidade se tornar referência dessa música experimental, isso pode colaborar muito com a produção de discos mais ricos, que não se prendem a padrões sonoros predeterminados", opina o músico.

ENCONTRO DE DE-COMPOSIÇÃO SONORA

Hoje, às 20h

Livraria Liberdade

(Rua Benjamin Constant 801- Centro)

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