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23 de Maio de 2014 - 06:00

Entrevista / David Linhares, bailarino e produtor cultural

Por MARISA LOURES

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Bailarino David Linhares participa do evento
Bailarino David Linhares participa do evento

Um passo significativo para a criação de uma bienal da dança em Juiz de Fora, prevista para o ano que vem, será dado hoje com o Fórum da Dança, cuja programação conta com conversa com integrantes do grupo Como_Clube, de São Paulo, e David Linhares, curador da Bienal Internacional de Dança do Ceará (CE). O encontro acontece a partir das 18h30, no Anfiteatro João Carriço, da Funalfa. "Vamos ajudar a brigar pelo dinheiro, a buscar recursos na Funarte (Fundação Nacional de Arte), no Ministério da Cultura", comenta David, em entrevista à Tribuna por telefone.

Segundo a produtora cultural da Funalfa, Giovana Bellini, a bienal juiz-forana tem sido discutida em reuniões mensais com participação de uma comissão formada pela classe artística da cidade. "Estamos engatinhando. Por isso vai ser importante que o David venha para trazer caminhos", ressalta Giovana. Quando retornou a Fortaleza, sua terra natal, após cursar doutorado na França, para capitanear o evento cearense, o curador se deparou com duas companhias de dança contemporânea. Dezoito anos depois, são dezenas de grupos. A bienal tem patrocinadores de peso e arrebanha um público de cerca de 60 mil pessoas. Além de investir no intercâmbio entre continentes, trazendo para os palcos brasileiros nomes internacionais, como Catherine Diverrès (França) e Louise Vanneste (Bélgica), ela prioriza ações voltadas para pesquisa e experimentação.

"Trabalho com a dança que tem um significado, que faz com que as pessoas reflitam. Você nunca sai de um espetáculo da bienal sem que seja contaminado, sem que questione o que viu. Vamos para o interior do estado, em plena romaria do Padre Cícero, e vemos senhoras de 70, 80 anos falando o que elas sentiram quando viram uma companhia, como a Quasar, por exemplo." O curador é formado em dança pela ensaio Teatro e Dança, de Brasília (DF), com Graziela Figueroa e Ademar Dornelles (Ballet Stagium), e já atuou como bailarino, ator e acrobata em espetáculos comandados por Hugo Rodas, Maura Baiochi, Ari Pararrayos, Sérgio Ulhôa e Maiara Fagundes.

 

 

Tribuna - Qual era o desejo dos produtores culturais de Juiz de Fora quando procuraram você?

David Linhares - Falaram comigo sobre a vontade de ter uma bienal em Juiz de Fora. Eu disse que estava à disposição para ajudar no que puder. Vamos mostrar como a gente é apoiado pela França e pela Bélgica, por exemplo, como se consegue fazer com que as companhias de lá venham para cá. Elas vêm só pelo cachê no Brasil. O resto é tudo pago pelo Governo delas. Explico a realidade em que a gente vive, e elas querem trabalhar com a gente. Quando eu podia pensar que pudesse trazer Trisha Brown Dance Company, o maior nome da dança no mundo para Fortaleza? Nunca. E o coloquei no meio da Praça do Ferreira, onde passam os ônibus, onde o povo está tomando cachaça. Fizemos uma bienal em janeiro só com artistas cearenses e tivemos um público enorme. Quando a dança terminava, as pessoas puxavam o carro para ir embora porque precisavam trabalhar. Isso quer dizer que foram lá para ver dança, para ver a bienal, o que é emocionante. Não tem Governo, não tem prefeitura que não queira ver no meio da sua cidade 800 pessoas assistindo a seus bailarinos dançarem, seus projetos sociais.

 

- De que forma a bienal pode contribuir para o fomento dessa área cultural aqui em Juiz de Fora?

- Não existe vantagem de se trabalhar com cultura. Não se pode medir isso. Essa medida me choca. Existem milhões de coisas positivas. Esse é o meu discurso da abertura da bienal. Por que investir o dinheiro que estou recebendo da Petrobras e da Caixa Econômica em cultura? Por que a gente não está investindo em hospital? Porque cultura é tão importante quanto saúde. Sem meu pensamento, estou doente. Numa bienal, temos um tempo maior para pensar, temos um ano de intervalo entre um evento e outro para digerir. A bienal do Ceará precisou de seis edições para entender que precisava ser anual. Hoje a gente tem o "Dança na escola", que atende mais de 25 instituições públicas dentro das cidades da região metropolitana de Fortaleza. Hoje, não existe alguém que toque na dança no Ceará. A gente derruba um secretário de cultura. Já derrubamos dois. Trabalhamos todos juntos, pensando em quem vai ficar na Vila das Artes, em quem vai entrar na prefeitura e no governo do estado. Pensamos no Forum de Dança, conseguimos o curso técnico em dança e agora a graduação. Em toda bienal, apresentamos algo de novo para a cidade e o estado.

 

- A cultura é uma área que, normalmente, não conta com muita verba. É preciso muito dinheiro para se conseguir chegar ao patamar da Bienal do Ceará?

- Não. Você tem a Funarte que apoia, tem as leis de incentivo do estado e do Governo federal. Quanto mais festivais nós tivermos, mais vamos conseguir recursos. Hoje fazemos parte do circuito internacional de festivais brasileiros. Como a Marta Suplicy vai dizer não a 32 festivais brasileiros? Temos um recurso garantido pela Funarte para os festivais internacionais de dança através do Ministério da Cultura. R$ 200 mil possibilitam um festival pequeno. Conseguimos mais R$ 50 mil ali, contrapartida de hotel e de alimentação. Trabalhei durante dez anos da minha vida fazendo isso. Então, acho que é suficiente para começar. Depois, existem milhões de editais, milhões de fatos auxiliadores que apontam para que mudemos essa realidade em que vivemos agora. É difícil. O que estou dizendo é de forma otimista. Eu sofro. Estamos em maio, o recurso da Funarte foi depositado em abril, o festival aconteceu em outubro, e a prefeitura precisa de três meses para os trâmites. Os artistas reclamam de esperar oito meses para receber o dinheiro da Bienal do Ceará. Estou quase doente. Isso é dificílimo, mas a gente não faz se não for otimista.

 

- Como tirar a dança do grupo de pessoas iniciadas?

- O Rio de Janeiro pode se dar ao luxo de fazer um trabalho para 20, 30, 40, cem pessoas. Eu já trouxe Boris Charmatz, um cara importantíssimo da França que fez trabalho para um único espectador, e isso foi questionado. Mas eles conseguiram entender quando expliquei que tinha um outro lado: coloquei três mil pessoas na praça para ver dança. Não posso ter um público, no final da bienal, de quatro mil pessoas, porque não tenho como justificar para o Estado, para os gestores e governantes, que não consigo colocar 40 mil, 60 mil pessoas para ver dança. Isso é importante para obter os patrocínios. A gente tem como alcançar esses números, buscando um espetáculo em que a música é do Roberto Carlos e atrelando-o a lugares inesperados, no meio da praia, por exemplo. Faço loucuras para justamente não criar aquele lugar em que só vai aquele grupinho de amigos, de contemporâneos. A dança que eu acredito é a que contamina cada vez mais pessoas, é uma dança política.

 

- "Eu não suportava ver artista vendendo o seu trabalho, que é a coisa mais deplorável que existe no mundo (...). Então eu quis mudar um pouco esta história", disse você certa vez em uma entrevista. Conseguiu mudar isso 18 anos depois ?

-Para você ver como a dança era elitista na época, eu estava dançando em Brasília com o Hugo Rodas, e tinha que ir para o Lago Sul (região onde se concentra uma grande parte da classe alta de Brasília). Todos os bailarinos tinham carro menos eu. Eu ficava esperando naquelas avenidas enormes, no meio da rua. Ia para aquele ensaio numa casa chiquérrima, cheia de madrinhas, me sentindo pior. Voltei deprimido para casa e disse: "Meu Deus, sou do Ceará, minha casa não é essa, sou magrinho". Foi neste momento que, depois de um braço quebrado, sem apoio, sem saúde, que disse: "Quero estar do outro lado". Você já imaginou uma realidade em que o coitado do pintor pega o seu quadro e sai no meio da rua vendendo sua arte? Isso é uma realidade aqui no Ceará. O coquetel de arte que madames realizam pagaria o aluguel da casa do artista o ano inteiro, daria para ele viver pintando. São essas questões que eu levanto. Isso é papel meu agora, de um diretor de festival, papel de produtores, de proponentes, de instituições, de defender nossos artistas antes que eles acabem.

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