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01 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Shows cancelados como o do Chiclete com Banana levantam discussão sobre o papel do produtor cultural

Por JÚLIA PESSÔA

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Na semana passada, centenas de juiz-foranos encostaram o abadá após o cancelamento do show da banda Chiclete com Banana no Parque de Exposições, que marcaria a despedida do vocalista Bell Marques. O evento foi interditado pelo Corpo de Bombeiros, que, após avaliação, considerou a estrutura montada para a apresentação em desacordo com a lei de prevenção contra incêndio e pânico. Desde então, o público que já havia adquirido os ingressos aguarda uma nova data para ver o grupo ou a devolução do dinheiro. "As informações estão desencontradas, já vi algumas postagens no Facebook, mas não há nada oficial", afirma o balconista Welton Henrique, que assistiria ao show no camarote com seus amigos.

A Tribuna procurou a organização, mas não obteve resposta. Na página do evento, uma nota em nome da organização postada por Marcelo Guedes Raimundo informa que "em conversa com empresários da banda, ficou pré-agendada a data do dia 9 de fevereiro, domingo, para ser realizada a apresentação do grupo na cidade de Juiz de Fora, faltando apenas alguns detalhes com a produção." Não há orientação a respeito da devolução do valor pago pelas entradas. Como muitos, Welton aguarda a confirmação do que vem sendo divulgado, para decidir se irá ou não ao show, caso ele seja realizado em outra data. "Se for em um domingo mesmo, não poderei ir, então vou pedir o ressarcimento, mas estou esperando uma posição oficial", diz o balconista. De acordo com a assessoria do Procon, os organizadores tiveram uma reunião com o órgão na última segunda-feira e se comprometeram a buscar uma resposta até ontem. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve novidade.

Juiz de Fora já teve outros episódios similares e notórios em que a produção do evento, de alguma forma, pôs em jogo a realização ou a qualidade do evento. Em dezembro passado, Wanessa (ex-Camargo, filha do Zezé) cancelou uma apresentação prevista no La Rocca, e até hoje fãs alegam não terem sido ressarcidos. Também no ano passado, o vocalista Tico Santa Cruz esbravejou sobre a qualidade do som e a produção local de um show dos Detonautas no campus da UFJF. Em 2007, Gal Costa voltou para o Rio de táxi após o cancelamento de uma apresentação agendada no Cine-Theatro Central, que não aconteceu porque a cantora não recebeu, como estava acordado, 50% do cachê adiantado. Em 2006, roqueiros ficaram órfãos após o show do Sepultura no Tupi ser embargado pela então Secretaria de Políticas Urbanas, devido à falta de adequação acústica do espaço para receber shows de grande porte.

Diante destes casos e de situações que ocorrem em âmbito local, a Tribuna procurou produtores culturais e artistas para debater os impactos da produção - e eventuais problemas relacionados à atividade - sobre o fazer artístico e a difusão da cultura. Para Sérgio Evangelista, que atua na área há mais de 20 anos e no ano passado trouxe shows de artistas como Ney Matogrosso, Djavan e Milton Nascimento à cidade, é imprescindível estar atento a todas as demandas técnicas, de segurança e de logística que uma atração exige, com o máximo de antecedência possível. "Principalmente nos dias de hoje, em que há um rigor muito maior, sobretudo em relação à segurança, com o incidente na Boate Kiss em Santa Maria (RS). Ninguém libera evento se não estiver de acordo com cada detalhe especificado nas normas, isso está certo. Por isso, é sempre prudente fazer isso o quanto antes, para dar tempo de realizar qualquer adequação que seja necessária, sem prejuízos para o público e para o próprio produtor.

 

 

'Gato por lebre'

Nívea Siqueira, que já foi produtora do Cultural Bar e hoje trabalha com a banda ZonaBlue, acrescenta que é essencial haver diálogo entre a produção da atração, que "vende" o show, apresentação ou evento, e a produção local, isto é, quem "traz" a atração. "Quem vai realizar um show, por exemplo, tem que garantir toda a estrutura técnica, de segurança, infraestrutura, enfim, garantir que ele aconteça da melhor forma possível. E isso tem que estar previsto em contrato antes mesmo que o espetáculo aconteça. Por outro lado, a produção da banda ou atração precisa exigir documentos que atestem tudo isso, para ter certeza de que há condições para seus clientes se apresentarem como esperam. Claro que, mesmo tendo estes cuidados, muitas vezes acabam vendendo 'gato por lebre' dos dois lados - tanto as atrações quanto os espaços de eventos -, mesmo havendo cuidado, mas isso só reforça a necessidade de respaldo legal para cada etapa do trabalho", ressalta ela, que já chegou com a banda a uma cidade em que a produção havia garantido hospedagem, mas havia apenas um cômodo de fundos na casa de show para ela e os integrantes, entre várias outras "roubadas".

Acumulando más experiências com produtores de suas apresentações, o humorista Gustavo Mendes fundou a produtora GMendes, que agencia, além de sua carreira, a de outros artistas, como Gueminho Bernardes e Sandra Portella, além de talentos de outras cidades. "Depois de um certo tempo de estrada, você constrói redes de parceiros: produtores locais, fornecedores e todos os profissionais envolvidos na realização do show que são de confiança, muito competentes. Muitas vezes, já passei por situações que faltou transporte, hospedagem e, não raro, água no camarim. Nunca cancelei show porque prezo muito pelo público que quer me ver, prestigiar meu trabalho. Muitas vezes, problemas na produção, que envolvem até a falta de pagamento, levam ao cancelamento, e o artista é quem sai mal na história."

Segundo o músico Fred Fonseca, presidente da Cooperativa da Música de Minas (Comum), esta "invisibilidade" do produtor faz com que o artista, muitas vezes alheio aos procedimentos de produção, "fique com a conta" quando alguma coisa dá errado. "Acho que a produção está muito desumanizada, industrial. De forma geral, não há preocupação com público, artista, conforto, qualidade do som... Há, sim, uma grande priorização na divulgação, na mídia, como se o objetivo fosse só conseguir o próximo evento."

Para Emerson Laender, que já produziu, em Juiz de Fora, shows de Ana Carolina, Seu Jorge e edições do Music Fest com shows duplos de Nando Reis e Frejat e Capital Inicial e Biquini Cavadão, mesmo com todos os cuidados, eventos culturais - sobretudo os de grande porte - estão sujeitos a imprevistos que podem comprometer sua qualidade ou mesmo sua realização, e neste momento o produtor também precisa estar preparado para agir. "Se o cancelamento for inevitável, a primeira preocupação tem que ser comunicar o público, evitar que as pessoas se dirijam ao local. Nessa hora, é preciso ter contatos com a mídia para anunciar, imediatamente, o que aconteceu, as razões, e uma solução para a devolução do dinheiro ou reagendamento da atração."

 

 

Experiência, bom senso e formação profissional

Para os dois lados envolvidos diretamente em algum extremo da produção cultural, a experiência profissional é imprescindível para que haja, de farto, acesso às atividades. Para Sérgio Evangelista, os anos de profissão ajudam até mesmo a questionar informações e documentos. "Uma vez ia fazer um show de Sandy e Jr. no Sport, e me informaram que a capacidade da arquibancada era de 15 mil pessoas. Por experiência, achei muito e pedi um laudo técnico. O profissional me garantiu que eu não poderia vender mais de três mil ingressos. Se tivesse me baseado só em documentos, poderia ter arriscado a segurança das pessoas. Ter bom senso é essencial."

Nívea Siqueira destaca que paciência e diálogo são qualidades fundamentais. "É preciso que a produção do artista deixe claro todas as exigências necessárias para que o show aconteça, para que a produção local, ciente delas, possa negociar o que pode atender ou não." Emerson Laender destaca que é interessante para iniciantes estar associado a profissionais com mais tempo de carreira. "Isso, além de ser um aprendizado, ajuda a dividir as funções, evitando a sobrecarga. É também uma forma de minimizar prejuízos, caso algo não dê certo. Eu mesmo faço isso em grandes shows, para ter mais segurança."

Fred Fonseca acrescenta que, além de bagagem, os produtores precisam investir em formação profissional. "Existem faculdades de produção cultural, além de inúmeros cursos e séries de livros sobre o assunto. Juiz de Fora precisa profissionalizar as etapas da promoção da cultura, e a produção é uma delas, o cenário está melhorando, mas ainda está muito longe do ideal. Por isso, há tantos músicos que produzem outros artistas ou a si próprios (como eu), porque possuem conhecimento do meio e sentem na pele os problemas."

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