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19 de Março de 2014 - 06:00

Grupos, atores e realizadores discutem o alcance e as limitações da formação de atores teatrais em Juiz de Fora

Por JÚLIA PESSÔA

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O ator juiz-forano Pablo Sanábio e Thaís Belchior em cena na peça "Fonchito e a lua"
O ator juiz-forano Pablo Sanábio e Thaís Belchior em cena na peça "Fonchito e a lua"

"Juiz de Fora sempre teve uma formação baseada no teatro amador, mas fragmentada e de curto prazo. Acho que estamos começando a engatinhar para algo que possa culminar em iniciativas profissionalizantes." É com olhar otimista que Marcos Marinho, um dos mais atuantes realizadores de teatro em Juiz de Fora, avalia o cenário local da formação de atores. Para ele, idealizador de iniciativas importantes para a classe, como a Caravana Mezcla de Palhaços e o Teatro Lido, uma das grandes lacunas é a falta de um curso universitário. "A cidade tem demanda para isso. É só ver quantas pessoas estão fazendo e já fizeram teatro e que não precisariam ter saído daqui para obter um diploma. Além disso, é preciso pensar em Juiz de Fora como uma cidade-polo, que atrai pessoas de dezenas de outros municípios. Isso, certamente, aconteceria com as artes cênicas", opina.

Também defendendo a existência de uma graduação para atores, Márcia Falabella, diretora do Forum da Cultura, que abriga o Grupo Divulgação (do qual é integrante), aponta que esta é uma luta antiga da classe teatral local. "O José Luiz (Ribeiro) durante muito tempo sonhou com a possibilidade de instituir este curso, chegamos a fazer estudos de grades curriculares para dar entrada no processo formal, mas isto requer muitas medidas burocráticas. A realização de concursos diversos para o corpo docente é a mais difícil delas. Consideramos, inicialmente, tentar montar o curso unindo a mão de obra já existente: usando professores da educação física para disciplinas ligadas ao corpo e de artes e letras para outras matérias afins, mas não seria a condição ideal", pondera Márcia.

Para Ronan Lobo, coordenador da Escola de Teatro da Academia e professor da Faculdade Machado Sobrinho, a abertura do curso de produção cênica (de nível tecnológico) nesta última instituição representa um passo importante em direção à formação superior em artes cênicas no município. "Acredito muito neste curso, ele traz a esperança de que nossos melhores atores e produtores possam, talvez em um futuro próximo, ficar na cidade, além de poder atrair outras pessoas para cá para obter este tipo de formação. Hoje em dia, quem quer se profissionalizar precisa sair daqui e, com isso, a arte local acaba perdendo", opina.

É o que também argumenta o presidente da Associação de Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac/JF), Cristiano Fernandes, apontando que a dispersão de grandes talentos locais se deve muito pela impossibilidade de completar a formação em Juiz de Fora. "E mesmo as pessoas que saem e se profissionalizam não conseguem voltar e contribuir para a cena local, porque não há campo. É um contrassenso: a cidade não dá acesso à formação e não absorve o trabalho de quem tem."

 

 

'Grupos deveriam ser centros de formação'

Apesar de reconhecerem que não há continuidade de formação na cidade, gestores, atores e realizadores de teatro da cidade apontam que as iniciativas existentes atualmente - e muitas há décadas - permitem um conhecimento amplo sobre a arte e o ofício dos atores. "O Grupo Divulgação fomenta o exercício teatral por meio de cursos de extensão universitária voltados a crianças, adolescentes e idosos. Muitas pessoas passam por aqui e montam grupos, se profissionalizam. Mas também trabalhamos com a difusão, dando acesso ao teatro para alunos da rede pública municipal e estadual. Isso faz com que muitos voltem para suas escolas e queiram montar espetáculos, se engajar no teatro", pondera Márcia Falabella.

Para Marcos Marinho, investir em projetos que possam ter alguma longevidade é um passo importante para a consolidação da formação dos artistas. "Quando começamos a caravana de Palhaços do Mezcla, em 2007, mal se falava em palhaçaria na cidade, e hoje vejo que a atividade cresceu bastante, não só com nosso grupo, mas fora dele. Já o projeto Teatro Lido, realizado desde 2003, é um espaço que permite não apenas o acesso a textos importantes, mas a circulação dos atores por uma iniciativa diferente." Para Marinho, os grupos deveriam ser um importante espaço de formação dos artistas, permitindo o estudo conjunto e a criação de repertórios e estilos. "Isso não acontece aqui porque há muita rotatividade nos grupos, devido a vários fatores. Um deles é a facilidade de entrar e sair neles. O outro seria a operacionalização da atividade artística, de se reunir apenas em torno de montar um espetáculo, sem um aprofundamento na arte em si. E, por fim, a falta de patrocínio na cidade", opina o ator e diretor.

 

Aprofundamento no estudo da arte

Segundo o diretor do CCBM, Zezinho Mancini, o curso oferecido pela instituição, que tem inscrições abertas até a próxima sexta-feira, é um avanço na possibilidade de formação de uma nova geração de artistas na cidade. A iniciativa é voltada a pessoas com mais de 16 anos que possuam ou não histórico no teatro. "Normalmente, os alunos, que têm entre 18 e 22 anos, passam a ter uma relação diferenciada a partir desse contato. Temos um foco muito bem definido, não é algo voltado para quem busca um hobby ou uma atividade terapêutica. Buscamos um aprofundamento na arte, que só conseguimos atingir porque trabalhamos com pessoas com mais maturidade. Fazemos, por exemplo, oficinas que mexem muito com a intimidade, os sentimentos dos alunos, algo muito rico para ser usado em cena e que seria mais difícil com crianças ou adolescentes muito jovens", explica Zezinho, que já foi docente em duas edições da iniciativa, que está em seu sétimo ano. Após a análise das inscrições, será divulgada, no dia 28, uma lista com 40 selecionados para participar de uma vivência teatral em grupo, entre 31 de março e 3 de abril. Desse encontro, serão escolhidos 20 alunos para integrar a turma de 2014, cujo resultado será divulgado no dia 4 de abril.

Aluno de duas edições anteriores do curso, Felipe Moratori agora atua como professor. Ele ainda participa da oficina de teatro do Gente em Primeiro Lugar, da Funalfa. "Acho que os dois programas são pontapés iniciais muito importantes para a formação de atores na cidade. Nenhum deles tem o objetivo de profissionalizar o aluno, mas ambos dão diretrizes para que os participantes que vislumbram essa possibilidade possam buscá-la. O curso do CCBM pode, inclusive, ser o embrião de um trabalho neste sentido, já que dura sete meses e trata de questões aprofundadas com profissionais qualificados e um plano pedagógico bem estruturado. Este formato pode, de repente, apontar para a criação de um curso técnico."

 

'O mercado está cheio de intérpretes'

Mesmo com as limitações que a cidade possui atualmente, artistas profissionais que tiveram o início de sua formação em Juiz de Fora afirmam que o contato com o teatro enquanto viviam na cidade foi fundamental tanto para a decisão em seguirem carreira artística, quanto para o fato de terem preparo para tal.

É o caso de Pablo Sanábio, que se profissionalizou na Casa de Artes Laranjeiras (CAL), no Rio, e foi apresentado às artes cênicas na Escola de Teatro da Academia. "Sou muito grato a este momento. Estávamos sempre em cena, que é algo importante, e em contato com grandes autores: Shakespeare, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, entre tantos outros. Quando vim para o Rio, aos 18 anos, já tinha feito muitas coisas importantes, e isso, certamente, foi um diferencial", conta o ator, que está em turnê com o espetáculo "Funchito e a lua" (que deve chegar a Juiz de Fora no segundo semestre); estreia em abril a série "Assunto de família", de Sérgio Rezende, no GNT; entrará em cartaz com o longa "O incêndio"- que tem ninguém menos que Fernanda Montenegro no elenco-, terá a peça "O menino que vendia palavras" adaptada para a TV no canal Gloob e - pasmem- está começando a ensaiar o espetáculo "Adorável garoto", no segundo semestre.

Para Pablo, outro ensinamento que trouxe conquistas importantes no Rio foi o contato com a produção teatral. "É uma realidade no Brasil. Grandes estrelas como Marco Nanini e Marieta Severo se produzem, o ator tem que estar preparado para isso", pondera ele.

Segundo Nilza James, que foi professora de Pablo na Academia e hoje está à frente das iniciativas de formação da Estação Palco, este é uma de suas grandes preocupações quando ministra oficinas e cursos. "Desde os alunos menores aqui da Estação, procuro mostrar a importância da inserção do ator em diversas etapas do espetáculo: vender ingresso, ajudar a montar cenário e figurino... Ser ator não é só subir no palco", opina ela, que, além de atores, ajudou a formar importantes profissionais dos bastidores, como a figurinista Labibe Simão, que atua na rede Globo.

Para Breno Motta, cria do Grupo Divulgação, que, como Pablo, se formou pela CAL, o maior legado que obteve em seus tempos de Forum da Cultura foi a formação intelectual como ator, algo que, para ele, é cada vez mais raro de se encontrar, mesmo em centros como o Rio. "Foi a época em que mais li autores, textos e os debati sob o ponto de vista da dramaturgia, da estética e da filosofia. O mercado está cheio de intérpretes e esvaziado de artistas, de seres pensantes preocupados e engajados com o mundo em que vivem. Esse conhecimento é fundamental até para decidir sua linha de trabalho, seu estilo, seus autores prediletos, e se sei disso é por causa, em grande parte, dos meus anos de Divulgação", afirma Breno, que se prepara para atuar em mais uma temporada de "Amor e sexo, da Rede Globo, e para ensaiar, "Cartas de amor ao próximo", extensão de escritos seus, encenado em 2011 no Festival de Cenas Curtas. Além disso, Breno está em fase de leitura de "London, London" (nome temporário), um espetáculo de César Augusto e Marcelo Valle, baseado em textos de José Vicente e Antônio Bivar.

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