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16 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Trabalhos artísticos e referências culturais extrapolam apreciação contemplativa, aparecendo em roupas, móveis e outras peças do cotidiano

Por JÚLIA PESSÔA

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Tecido usado na saia criada por Olívia Aragão foi estampado pela artista plástica Regyna Tortoriello
Tecido usado na saia criada por Olívia Aragão foi estampado pela artista plástica Regyna Tortoriello

"A arte tem que sair do pedestal, perder essa aura de intocável." Defendendo esta ideia, a artista plástica Regyna Tortoriello argumenta que a arte deve fazer parte da vida das pessoas, e é exatamente esta premissa que a parceria dela com a estilista Olívia Aragão procura cumprir. Regyna é a primeira artista da cidade a estampar tecidos que virarão peças assinadas por Olívia, que pretende estender o convite a outros nomes locais. "É mais uma forma de consumir arte. Meu processo de criação de roupas já é um trabalho artístico, exclusivo, e ter tecidos estampados com obras de arte é uma maneira de ampliar o acesso das pessoas a estes bens culturais de uma maneira usual", observa Olívia.

Para Regyna, além de levar trabalhos artísticos a pessoas que talvez nem se interessassem por eles se estivessem restritos às galerias, a iniciativa também permite uma ressignificação das obras. "A mistura da pintura com as texturas de tecidos, rendas e outras combinações dá outra concepção ao trabalho, mostra o quanto a arte, tantas vezes limitada a espaços elitizados, pode ser adaptada à vida, usada."

Tradicionais, os ladrilhos hidráulicos saíram dos pisos e paredes e viraram acessório de moda. A criação é da artesã Alice Linhares, que confeccionou, para sua grife O gato da Alice, colares inspirados nos padrões de desenhos de ladrilhos e porcelanatos. "Sempre observei estes desenhos e guardei na memória a inspiração. Quando encontrei um tecido que trazia em si a padronagem, já imediatamente pensei em desconstruí-lo, buscando misturar os desenhos e criar novas combinações", conta Alice, que adaptou a escala a uma dimensão compatível com os delicados acessórios.

Além dos ladrilhos, Alice já criou peças inspiradas na arquitetura, em estandartes da cultura popular e trabalhos de artistas consagrados, como Frida Kahlo. "É uma forma de trazer para cena esse conteúdo artístico, fazendo com que as pessoas observem tais manifestações de forma diferente, inseridas em outros contextos. A arte, muitas vezes, nos ensina a buscar o belo, mas ensina, também, a buscar novos olhares. Aquilo que parecia não servir mais ou que tinha um uso banal pode se tornar outra coisa. "A fonte", de Duchamp, ou as Campbell's Soups, estampadas em obras de Andy Warhol, já nos indicaram isso anteriormente", diz Alice.

 

Os sócios José Alexandre Abramo e Gilberto Moreira levaram esta concepção para a casa das pessoas, nos móveis e artigos de decoração da Pinóquio- Coisas de Madeira, que trazem referências e imagens da cultura pop, do cinema, da música, além de artes desenvolvidas exclusivamente para a marca por um artista visual. "O mais interessante é poder criar peças e objetos que façam a diferença para quem os usar, utilizar pequenas referências ou temas para compor um quadro, ou sugerir um simples banco como um objeto de destaque em qualquer cômodo ou espaço, e criar 'novas' formas de uso e de sentido", argumenta Gilberto. "É uma nova visão do que é considerado "arte": inserir esses produtos num contexto mais intimista, próximo, útil e não como mais uma peça ou algo que não tenha valor artístico ou cultural", completa José.

Um dos idealizadores da Chico Rei, Bruno Imbrizi conta que todas as camisetas feitas pela marca são um produto do que a equipe de criação absorve culturalmente. Entre os muitos motes de estampas, estão música, cinema, séries, quadrinhos, games, além de personagens e ícones da cultura pop. "É interessantíssimo você transportar qualquer que seja a forma de expressão artística para dentro de uma camiseta. Sabemos exatamente o estilo de pessoa com que estamos dialogando, os produtos que vendemos podem expor as raízes, interesses e pensamentos de quem as veste."

Apesar disso, Bruno não acredita que a profusão de imagens e referências culturais e artísticas seja uma maneira de democratizar o acesso à arte e à cultura propriamente ditas. "É quase sempre necessário que o cliente tenha acesso às referências que incorporamos na mensagem passada e/ou na estética do que estamos vendendo, ou se transforma em algo vazio e sem significado. Realmente fico feliz quando ocorre uma difusão daquele tema, iniciado por nossos produtos, mas isso não é regra para todas as camisetas que saem de nosso estúdio."

Ao aliar arte e cotidiano nas estampas das peças de Olívia Aragão, Regyna Tortoriello conta que já foi questionada sobre o receio de sua arte poder se "desvalorizar". "De forma alguma, e pelo contrário: muitas vezes, a obra ganha um valor que jamais teria se estivesse em uma parede", rebate ela, em discurso reforçado pela artesã Alice Linhares. "Trazer o universo artístico para o cotidiano das pessoas enriquece e inspira. Alguns ainda acreditam que a democratização torna a obra banal e faz com que a arte perca sua 'aura', no entanto, o que é bonito e que nos faz refletir e contemplar deve, sim, ser transportado para o dia a dia. Todos só temos a ganhar."

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