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16 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Pintura assinada por João Carriço é descoberta no Salão Nobre do Colégio Santa Catarina

Por MARISA LOURES

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Restauração revela painéis pintados em 1923
Restauração revela painéis pintados em 1923

Por longos anos, o mesmo Salão Nobre do Colégio Santa Catarina, que abriga obras decorativas de Silvio Aragão, um dos ilustres artistas da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras (SBAAP), guarda um painel com pinturas assinadas pelo juiz-forano João Carriço. O trabalho, descoberto há pouco mais de dois anos, mas divulgado nesta semana, traz à tona mais uma das habilidades do artista que construiu uma carreira de três décadas ininterruptas no cinejornalismo juiz-forano. "Carriço fazia cartazes, mas também pintava. Eu nunca vi telas dele, mas o fato de ele ter passado pelo Rio para aprender cenografia fez com que virasse um homem multifuncional. Pintava, fotografava e tudo o mais. O interessante é que essas atividades não revelam um diletantismo. Ele fazia tudo com muito profissionalismo", reflete Martha Sirimarco, autora de "João Carriço: o amigo do povo", editado em 2005 pela Funalfa. "Era um homem muito democrático, que tinha preocupação social. Também usava o talento para produzir carros alegóricos para Escolas de Samba", enfatiza Martha.

Depois de 90 anos - a obra é de 1923 -, a criação de Carriço foi descoberta por acaso. O restaurador Henrique Lott fazia a recuperação do espaço, em 2011, quando se deparou com as imagens, cobertas por um tecido. A criação oculta revelou a arte de quem havia se aperfeiçoado no ofício de cenógrafo e pintor de tabuletas no Rio de Janeiro. O trabalho é composto por oito painéis, dispostos lado a lado no palco, formando uma espécie de coxia (bastidores da caixa teatral). Visto de longe, passa a ideia de ser uma única tela. Ao que tudo indica, também foi idealizado para servir de cenário para espetáculos teatrais. O cineasta usou tons fortes em verde na confecção de árvores e arranjos. A imagem se completa com cortinas abertas pintadas em vermelho com bordas douradas nas laterais. O verso apresenta uma outra paisagem, a mesma estampada na parede dos fundos, já em cores mais claras. Como neste lado não há assinatura do autor, não se pode afirmar, com tanta certeza, que foi confeccionado por João Carriço.

De acordo com Lott, Carriço lançou mão da têmpera, uma técnica de pintura no qual os pigmentos ou os corantes podem ser misturados com um aglutinante. "Quando peguei para restaurar, não sabia quem era o autor. A assinatura estava coberta. O material estava bem danificado e rasgado", comenta o restaurador, que levou cerca de três meses para retocar a obra em seu ateliê.

Lott conta que o primeiro passo foi retirar a pintura da estrutura, que precisou ser refeita em madeira que não dá cupim, e fixá-la em outro tecido. Em seguida, fez o processo de limpeza e higienização. A principal preocupação era restaurar apenas as partes deterioradas, sendo fiel às características originais. "É difícil chegar aos tons exatos para fazer os retoques. Fiquei muito surpreso com a descoberta. Já tinha visto um esboço feito de figura humana pelo Carriço, mas só conhecia o trabalho dele como cineasta", diz o restaurador. "Já tinha enfrentado desafios bem parecidos, mas cada trabalho é único. A gente sempre se depara com o desconhecido", afirma Lott.

 

Diretor executivo do colégio, Arthur Giovaninni não sabe afirmar em que circunstâncias a obra de Carriço entrou para o acervo da instituição. Acredita-se que o trabalho tenha chegado por meio de doações, pois não há registros. Não está descartada a hipótese de ele ter sido levado por Silvio Aragão, que pintou oito anos após o cineasta ter assinado sua criação. "É um exemplo palpável, que vem somar a outras raridades que temos aqui. É um instrumento educacional que facilitará a aprendizagem do aluno", observa o diretor. Famoso pela imponente arquitetura de tijolinhos coloridos, o Santa Catarina abriga preciosidades, como um piano de 1453, pisos em ladrilhos hidráulicos e vitrais da Casa Conrado. A empresa foi fundada no século XIX, em São Paulo, com a proposta de produzir vitrais como os que iluminavam edifícios da Idade Média. A capela da instituição é um dos marcos do estilo art déco na cidade.

A escolha do restaurador para sanar problemas ocasionados no Salão Nobre pelas ações do tempo, segundo Giovaninni, seguiu critérios bastante rigorosos. Além da capela do Colégio Academia, Lott já acumulava no currículo trabalhos como a restauração de igrejas na serra de Petrópolis. "Não queríamos descaracterizar nada. Por isso, fizemos uma busca antes de contratá-lo", completa o diretor, destacando que a Congregação das Irmãs de Santa Catarina sempre se preocupou em interagir com a comunidade de Juiz de Fora. "Tudo que tem aqui representa a preocupação em preservar a história da cidade."

 

Financiador de artistas

Chamado pelo cantor Silvio Caldas de "pai dos artistas", conforme ressalta Martha Sirimarco, Carriço atuou como mecenas, comprando quadros de amigos. Há quem diga que Dona Santinha, esposa do cineasta, não era muito a favor dessa inclinação do marido. Seu nome figura entre os associados do Núcleo Antônio Parreiras. "O fascínio pela pintura faz com que ele mantenha, no Cine Popular, um atelier/pinacoteca, onde sempre havia lugar reservado para exposições de artistas e amigos apoiados por ele. Infelizmente, nenhum dos quadros apresentados por ele nesse espaço foi preservado", escreve Adriano Medeiros em "Cinejornalismo brasileiro - uma visão através das lentes da Carriço Film", lançado em 2008 com apoio da Lei Murilo Mendes.

"Carriço também abre um atelier de pintura à rua Santa Rita Número 8. No novo ambiente, ele sempre deixa um espaço reservado para exposições de artistas locais e amigos. Pela rapidez com que desenhava cartazes de propaganda, ele passa a ser conhecido como o Pintor Faísca - mesmo pseudônimo com que assina seus quadros. Um dos primeiros trabalhos de destaque de Carriço, como pintor e cenógrafo, na cidade, é a peça 'Juiz de Fora em flagrantes', de Mário Mattos", ressalta Medeiros.

Martha comenta que parte do acervo da produção do cineasta, cerca de 400 filmes, foi encaminhada para recuperação na Cinemateca de São Paulo. Esse número pode ser muito maior, de acordo com ela. Contudo, a estudiosa desconhece o destino do trabalho cenográfico. "Acho que este material se perdeu. Sei que ele e o Stehling (Renato) eram amigos e estavam sempre juntos. Carriço era muito organizado. Fotografava e fazia questão de envelopar os filmes com as datas em que foram tiradas as fotos. Com o tempo, percebi que o legado dele é muito maior do que imaginava. Ele era um mineiro liberal. Como a Dona Santinha gostava de música, fez questão que ela aprendesse a dançar, contratando um professor. Infelizmente, não se acha nada pessoal que ele tenha escrito", diz a pesquisadora.

Em depoimento a Adriano Medeiros em 2006, o jornalista Décio Lopes, já falecido, sintetiza o perfil do amigo. "João Carriço era sociável, alegre, liberal. Não há entre os veteranos da cidade e de seu meio teatral e cinematográfico de Minas Gerais e do Rio de Janeiro quem não se lembra daquela figura de estatura mediana, roupas claras e alinhadas, chapéu de palha à Belle Époque, grande entusiasta das causas juiz-foranas, de sua terra natal, familiar e profissional."

 

Restauração de obras de Silvio Aragão

Fundado em 1909 e tombado como patrimônio municipal em 1987, o Colégio Santa Catarina ganhou o salão nobre em 1931, já decorado pelo pintor Silvio Aragão. O espaço comporta cerca de 160 pessoas. Conforme Lott , Aragão demonstra certa influência do mestre Angelo Bigi, de quem era auxiliar, mas deixou registrado um trabalho original. As paisagens e os florais foram confeccionados usando óleo. À beleza das criações de João Carriço e Silvio Aragão, soma-se um palco emoldurado em madeira, material também utilizado no piso, portas e janelas. Para facilitar a visibilidade, o tablado é levemente inclinado. O teto é sustentado por colunas arredondadas, também cobertas pelas mãos de Aragão.

"Os barrados com florais e outros motivos de Silvio Aragão estavam bem conservados. Já a parte de baixo estava bem danificada, com reboco soltando. Ali, tive que fazer uma intervenção mais profunda." Nesta etapa, Lott precisou de seis meses para terminar o trabalho. "Tivemos que fixar a pintura para depois retocar. Algumas partes precisaram ser reconstituídas", diz o restaurador, contando que o artista pintou em molde vazado.

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