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16 de Julho de 2014 - 07:00

Cravista holandês Jacques Ogg busca a criatividade na interpretação e no estudo de repertórios de música barroca, fazendo concerto hoje e palestra amanhã

Por JÚLIA PESSÔA

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No Festival de Música Antiga, instrumentista toca repertório aberto à improvisação
No Festival de Música Antiga, instrumentista toca repertório aberto à improvisação

Sem que se veja de perto, ele remete a um piano de cauda, com cordas ao longo da caixa de ressonância e sons que parecem fluir diretamente das mãos que tocam as teclas. Mas as notas que quase instantaneamente remetem a outras épocas e uma observação aproximada do cravo, característico da música antiga, permitem mesmo aos mais leigos perceber as diferenças entre os instrumentos, explicadas com toda maestria técnica pelo cravista holandês Jacques Ogg. "O piano tem uma base de percussão, funciona por meio de martelos que batem nas cordas, com a variação de sons atuando também sobre a intensidade deste toque. Quando uma tecla do cravo é pressionada, uma peça correspondente se ergue, e uma pequena e delicada estrutura, menor que uma unha, toca a corda, produzindo o som. É algo extremamente sutil", descreve com precisão o instrumentista e professor, principal atração de hoje no XXV Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, com concerto, às 20h30, na Igreja do Rosário.

Em sua quarta participação no evento, Jacques, especialista em música barroca, também ministrará, na sexta-feira, a Master Class Internacional "Cadências e fantasias livre no Barroco". "No século XVII, os solistas já faziam variações nas peças de música antiga, criavam suas próprias fantasias. Quero explicar e demonstrar, na prática, que é preciso, sim, conhecer e estudar a base das partituras, mas ter uma interpretação criativa delas. Muitos compositores, inclusive, já previam estas variações ao escrever as músicas", observa o cravista, defendendo que o repertório de música antiga é vivo e, por isso mesmo, atemporal. "Há uma pessoa, com sua racionalidade e seus sentimentos, entre o instrumento e a partitura. Há interpretação e não mera reprodução do que foi escrito, e isso deve ser buscado sempre."

Para Jacques, como também defende a maioria dos instrumentistas especializados em música antiga, é determinante para a qualidade sonora que as peças sejam executadas em instrumentos de época. "Você pode até fazer comida chinesa com batatas, mas as receitas pedem que você use o arroz", compara, de forma bem-humorada, o cravista. "A sonoridade é completamente diferente. É claro que é possível utilizar instrumentos modernos, mas só os de época alcançam a musicalidade pretendida por quem compôs as peças. Hoje em dia, é muito mais fácil consegui-los, e há profissionais especializados em réplicas muito precisas", pondera o holandês em um português perfeito, ainda que com sotaque carregado. "Fiz questão de aprender para me comunicar melhor com meus alunos", conta ele, que já lecionou para diferentes gerações de instrumentistas pelo mundo afora.

No repertório desta noite, o cravista apresenta peças de diferentes gerações dos Bach, em menção aos 300 anos de nascimento do primogênito do patriarca consagrado, Johann Sebastian Bach. "Adoro este repertório, porque ele tem um grande potencial de improvisação. Toco dois prelúdios do pai, peças muito clássicas e muito sensíveis, enquanto a parte dedicada aos filhos, também compositores, passa um ar mais aventureiro, mais futurista até", descreve o cravista, que também atua como diretor artístico da Lyra Baroque Orchestra, em Minneapolis (Minnesota, EUA). "Vou para lá pelo menos seis vezes ao ano. É cansativo, mas desenvolvemos um trabalho muito sólido com profissionais de altíssimo nível. Enfrentamos sim, problemas financeiros, mas conseguimos, por meio de um trabalho contínuo, fidelizar um público para a música antiga", observa Jacques, que de Juiz de Fora parte para casa, na Holanda, e de lá para concertos e oficinas na Espanha e, em seguida, em Vancouver (Canadá).

 

 

 

Nos palcos e salas de aula

Sob olhar atento, Jacques também participa do festival acompanhando a evolução dos músicos na oficina de cravo ministrada no Instituto Granbery. Para ele, tocar e orientar outros músicos permitem a experiência de prazeres diferentes. "Quando conduzo, posso ter atenção maior a pequenos detalhes. Tocando, a relação com a música é mais orgânica, mais direta. O cravo é um instrumento interessante porque dá toda a base rítmica e harmônica de uma orquestra, pode direcionar a interpretação dos outros músicos."

Para uma das alunas da oficina, Isabel Kanji, professora da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), participar do festival representa a rara oportunidade de aprender com referências mundiais de diferentes vertentes da música instrumental, como Jacques. "Não podemos rodar o mundo para buscar estes mestres, e o festival vem, ano a ano, ampliando as possibilidades de formação dos músicos do país junto a profissionais de excelência."

Jacques, que esteve no festival pela primeira vez em 1994, também vê o crescimento do evento 20 anos depois, bem como a evolução da música antiga, nascida na Europa, por todo o mundo . "É muito interessante ver que pessoas que 20, 30 anos atrás iam se especializar na Europa estão voltando a seus países e tornando-se importantes agentes de formação do gênero. Daqui a uns anos, não será estranho se músicos da Europa vierem estudar no Brasil", destaca o professor.

Educação, aliás, é um ponto que para Jacques é essencial para uma das maiores barreiras à ampla difusão da música antiga: a formação de público. "As crianças devem ser expostas à diversidade musical, para que possam ter mais opções ao eleger o que lhes interessa. Elas respondem de forma natural e com curiosidade à música. Infelizmente, pelo que vejo na Europa - realidade sobre a qual posso falar -, o ensino de música e a cultura em si são vistos, ainda, como supérfluos", critica Jacques, revelando que o problema não se restringe ao Brasil.

 

JACQUES OGG

 

Hoje, às 20h30

 

Igreja do Rosário

(Rua Santos Dumont 215 - Granbery)

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