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06 de Maio de 2014 - 06:00

Uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea brasileira, Carola Saavedra debate a origem das palavras e dos encontros em novo romance

Por MAURO MORAIS

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"A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção", finaliza o narrador na primeira parte de "O inventário das coisas ausentes" (122 páginas, Companhia das Letras), obra recém-lançada de Carola Saavedra. Em "Caderno de anotações", a primeira seção do livro, há um escritor diante das pistas do que pode ser sua próxima criação. Vestígios de uma literatura que trafega entre os restos da vida real. Mas, afinal, onde moram as palavras, senão no campo da realidade?

Nesse espaço, tão curioso aos olhos do leitor, se desenvolve uma narrativa preocupada em investigar o nascedouro do processo criativo e a influência que sofre do reino das coisas palpáveis. Diante dos 17 diários deixados por uma paixão da adolescência, o narrador é confrontado com sua própria rotina e com suas questões mais íntimas, como a relação familiar e os encontros e desencontros vividos. Nina, a mulher com que se envolveu nos tempos da faculdade, tinha apenas 23 anos, uma história traçada, mas um futuro inevitavelmente incerto, que o narrador se esforça para projetar na medida em que retoma sentimentos pretéritos.

"Volto a sentar no computador. Abro o arquivo. Escrevo: nina quebrou a coluna em três lugares. Nina não se sustenta em si mesma, precisa de ossos, uma estrutura que lhe dê concretude. Sem essa estrutura ela é apenas o espaço vazio, essa constante incerteza. Escrevo. Escrevo para Nina uma medula, escrevo também um fígado, e um estômago. Escrevo vísceras, sim, muitas vísceras", observa um narrador que momentos antes disse da impossibilidade de falar do outro sem falar de si. Ora, então, enquanto desenvolve a personagem, e sua ficção, o escritor em processo também cria a si mesmo.

Daí surge o segundo capítulo de "O inventário das coisas ausentes", intitulado "Ficções". Do reencontro entre um pai no leito da morte e seu filho - que viveram por 23 anos afastados devido a uma ditadura na qual o homem se viu obrigado a se desgarrar da família -, o escritor dá vida ao romance que anteriormente tentava esboçar. Menos fragmentada e fluida, e repleta de discursos duros, comuns aos esfacelamentos de família, a segunda parte reserva os dramas de duas vidas, uma já escrita (a do pai) e outra por concluir (a do filho), ambas concebidas em momentos diferentes. "É necessário coragem para possuir as coisas, o homem velho diz, porque coragem não é só sair por aí vociferando meia dúzia de ideais, coragem é ser capaz das coisas mais prosaicas, como ter coisas que te prendam a um lugar, que te amarrem, coisas que pesem sobre teus ombros", defende o narrador, na crueza da certeza plena de que alguns rompimentos são decisivos.

Considerada uma das principais autoras da literatura contemporânea brasileira, a chilena radicada no Brasil Carola Saavedra fala da literatura sem lançar mão de tom professoral ou hermético. Sua sensibilidade no trato com as palavras faz com que "O inventário das coisas ausentes" seja um delicado tratado sobre o encontro entre o leitor e o escritor. No tempo em que a obra é alicerçada, sobra espaço para que o leitor, de tijolo em tijolo, participe da empreitada, preenchendo os vãos de uma obra que não se pretende completa.

Se a primeira parte, "Caderno de anotações", deseja-se menos formal e inacabada, "Ficções", a segunda, contém a mesma medida de imaginação, já que em ambas se faz o romance. O que a escritora, uma das selecionadas para a antologia da revista "Granta" intitulada "Os melhores jovens escritores brasileiros", alcança é a aproximação com o desvelar do ato da leitura. Quarta obra de sua carreira - já publicou "Do lado de fora", (2005), "Toda terça" (2007), "Flores azuis" (2008) e "Paisagem com dromedário" (2010) - o recente livro confirma a vitalidade da nova cena literária nacional, já que lança mão de uma linguagem original e de certa forma inovadora.

De maneira inteligente, Carola tece uma narrativa que parece concordar com o narrador em certa passagem, que afirma ser o leitor sempre um outro escritor. "A história acaba quando o tempo se esgota e o corpo que a escreve se esgota, a história acaba quando somos obrigados a nos livrar dela, para que outro a compreenda, e coloque em seu texto uma vírgula ou um ponto final. A história acaba, não, a história não acaba nunca."

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