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30 de Janeiro de 2014 - 07:00

Pesquisadores reafirmam valor da produção periférica, desmitificam o estigma da violência e reivindicam outra representação

Por MAURO MORAIS

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"O Tal poema, que desfilava pela academia, de terno e gravata, proferindo palavras de alto calão para plateias desanimadas, hoje, anda sem camisa, feito moleque pelos terreiros, comendo miudinho na mão da mulherada.Vocês, por acaso, já ouviram falar do tal poema concreto? Pois é, os trabalhadores e desempregados estão construindo bibliotecas com eles, nas favelas. E o lobo mau pode assoprar que não derruba. Apesar da pouca roupa que lhe deram está se sentindo todo importante com sua nova utilidade", escreve Sérgio Vaz, em "Literatura, pão e poesia". Mineiro radicado em São Paulo, morador de Taboão da Serra, na região metropolitana e criador do Sarau da Cooperifa, que acontece semanalmente no Bar do Zé Batidão, na Zona Sul da capital, Vaz é uma das vozes que representa a riqueza criativa das periferias, onde moram 29% da população brasileira segundo o Mosaic Brasil, levantamento realizado pela empresa Serasa Experian.

Respeitado em sua comunidade e fora dela, ele conquistou a academia sem dela fazer parte. De maneira, ainda, silenciosa, estudiosos se voltam cada vez mais para o que está fora do Centro. "Quando a gente pensa em literatura brasileira, vem um conjunto de nomes na cabeça que a escola ajudou a criar, um conjunto de obras canônicas que temos como literárias. A literatura na periferia confronta uma série de questões envolvidas com o que chamamos de cânone, questionando o que consideramos ser essa literatura brasileira", comenta Carolina Barreto, escritora e doutoranda em estudos literários na UFJF. Vencedora, em 2012, do prêmio de segunda melhor dissertação de mestrado em letras do Brasil, concedido pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll), com o trabalho "Narrativas da 'frátria imaginada': Ferréz, Sérgio Vaz, Dugueto Shabazz, Allan da Rosa", Carolina defende a originalidade e o valor de escritos que não se bastam na crítica social e refletem a própria vivência na sociedade de uma maneira geral. "É preciso descondicionar o olhar e ver com olhos livres. O próprio Guimarães Rosa fala sobre o sertão, mas não fala só sobre isso", diz.

De acordo com Tiago Rattes, escritor e doutorando em história pela UFJF, a periferia produz cultura há muitos anos, mas, "pelas transformações que o país vive economicamente e pelas mudanças técnicas e tecnológicas, o que já era feito aparece de forma mais reverberizada". E dessa repercussão surgem conexões como as feitas entre o Eco - Performances Poéticas, do qual Rattes é um dos organizadores, e o Encontro de MCs. "O rap faz com que esses meninos tenham que produzir uma métrica constante e rápida. Eles estão se formando poetas pelo rap, que é uma das linguagens de letra de música que mais se aproxima da poesia. O rap não pode se apoiar tanto na canção como acontece com a música popular. O rapper é um intelectual orgânico, porque, através do que faz, ele acaba promovendo ideias que ajudam as pessoas a se identificarem, a compreenderem seu papel, seus direitos, suas vontades", aponta. "Essa turma é autodidata nessas questões de conhecimento e sabedoria, e, através dessa comunhão de saberes, eles instauram uma rede produtiva, não somente de informação. Pensar o intelectual da periferia funciona no sentido mais amplo possível, não apenas no saber crítico sobre a realidade, mas no saber de ação", completa.

 

 

'As estatísticas são fracas'

Traçando percursos de independência e desfrutando da legitimidade das comunidades nas quais estão inseridos, esses intelectuais que se formam na consciência da realidade não carecem do aval da academia, mas têm nela mais uma voz para o coro por outra representação. A periferia que está nas pesquisas universitárias ainda não integra o imaginário popular. E isso, segundo André Moysés Gaio, cientista social e coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre Violência e Política de Controle Social da UFJF, se deve à distorção desses lugares na coletividade. "As taxas mais altas de criminalidade estão no Centro, São Mateus e Alto dos Passos. O trecho central que vai da Rua Benjamin Constant até a Avenida Itamar Franco concentra 60% dos crimes. As estatísticas são muito fracas, e não aparece nelas, por exemplo, de onde saem os responsáveis por esses crimes. Presume-se, então, que é o pobre da periferia", analisa.

Conforme indica o especialista, é preciso se pensar em outra imagem, que atenda a realidade dos dias de hoje. "Em função de uma melhor distribuição de renda, a circulação das pessoas pelo espaço transformou o que se chama de periferia. Não temos um retrato de Juiz de Fora muito benfeito. Mesmo nesses bairros mais afastados, já não há uma ideia muito fixa de comunidade. E se esses bairros modificaram, também mudou a forma de se pensar nesses espaços", pontua.

Para Aline Maia, professora e coordenadora dos cursos de jornalismo e de publicidade e propaganda da Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora e doutoranda em comunicação na PUC-Rio, a periferia de hoje é mesmo outra. "Até um certo momento, esses cidadãos não apareciam. A partir da década de 1990, principalmente em função de produtos como o programa 'Aqui agora', um jornalismo mais sensacionalista, a periferia passa a ser o foco, e, consequentemente, seus moradores. Desde os anos 2000, quando observamos uma ascensão do poder aquisitivo dessa nova classe média - e algumas pesquisas da Serasa apontam que a maioria dessa classe média mora na periferia e é formada por jovens -, eles passam a ter uma nova representação na mídia. A questão é: ele passa a ser cidadão e a ser representado não só pelo viés da violência quando se torna consumidor?", questiona.

De acordo com a pesquisadora, que se debruça no contexto dos jovens da periferia e suas representações, pelo fato de a sociedade não assumir, muitas vezes, o gosto pela cultura periférica, algumas censuras são feitas. "Existe uma higienização de lugares, pessoas e palavras, limpando mesmo, para que algo possa ser consumido por todas as camadas da sociedade", comenta, dando como exemplo Naldo, que, após conquistar o sucesso, tem sido classificado como cantor popular, ao invés de funkeiro, gênero que de fato representa.

Afora resistências, que reproduzem um imaginário coletivo enraizado e criado por anos a fio, Aline ressalta o valor dessas identidades formadas nas bordas. "Muitos ativistas e alguns pesquisadores usam a expressão 'mobilidade subjetiva', para dizer do desejo dessa periferia de se sentir aceita, incluída por essa sociedade, que de alguma forma vai reconhecê-la pela arte que produz. Como se dissessem: 'Não quero sair do meu morro e morar no Centro de Juiz de Fora. Não é essa a minha pretensão. Necessariamente eu também não quero o carro do ano, o tênis da moda, o boné mais caro do momento. Quero apenas ser incluído'", explica.

 

O que há por mudar

Desafiados cotidianamente em suas investigações sobre uma periferia produtiva, esses pesquisadores precisam recusar a postura do colonizador e os preconceitos para conhecer e reconhecer o lugar do igual. Ainda assim, enfrentam dificuldades. Segundo Carolina Barreto, pesquisar a periferia na universidade é um ato de resistência. "Há um posicionamento político do crítico literário diante dos colegas, porque até hoje tem muitos que ainda não consideram ser literatura a produção desses autores. Não é literatura por conta da origem social desses autores? Porque eles não usam uma linguagem padrão? Quando você leva essas questões para a academia é possível ver o quanto há de problemas e olhares condicionados dentro da universidade", diz.

Conforme Aline Maia, como formadora de opinião, a academia pode identificar o que há por lapidar, para, assim, outra imagem do que está fora do Centro poder ser formatada. "A universidade tem um compromisso com a cidade, mas esses trabalhos que saem dela não ganham visibilidade. É bem possível que a periferia não tenha conhecimento de nossa produção. Falta uma mediação", reivindica André Moysés Gaio.

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