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31 de Janeiro de 2014 - 07:00

Novela 'Amor à vida' chega ao último capítulo, esquentando o debate sobre a representação da homossexualidade na TV brasileira

Por MARISA LOURES

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Thiago Fragoso e Mateus Solano conquistam o posto de protagonistas na trama de Walcyr Carrasco
Thiago Fragoso e Mateus Solano conquistam o posto de protagonistas na trama de Walcyr Carrasco

Félix (Mateus Solano) sempre rejeitou a irmã, Paloma (Paola Oliveira). Tentou, a qualquer custo, afastá-la da família, tramou contra o pai, (Antônio Fagundes), roubou o hospital, chamava a secretária de cadela, fez de tudo para matar Gentil/Atílio (Luiz Melo) e ainda jogou a própria sobrinha (Klara Castanho) em uma caçamba ao nascer. Mas isso tudo não foi nada perto do carisma do ator. De vilão cruel, ele se transformou na figura mais querida da novela "Amor à vida", de Walcyr Carrasco. Em uma cena exibida na semana passada, o personagem arrancou gargalhadas do espectador, ao perguntar para a menina se ela gostava de queijo, já que, quando pequena, era apelidada por ele de Ratinha.

Oito meses depois da estreia (maio de 2013), após muitos erros e acertos, conforme aponta a crítica, o folhetim chega ao último dia esquentando o debate acerca da representação da homossexualidade na TV brasileira. O casal vivido por Félix e Niko (Thiago Fragoso) tomou as rédeas do jogo e ganhou a torcida da maioria dos espectadores. Embora o final feliz já tenha sido divulgado, ficou para os últimos momentos a possibilidade do tão esperado beijo gay no horário nobre da Rede Globo.

"Félix era um vilão totalmente do mal, mas engraçado. Fizeram uma redenção para ele. Curioso que, no Brasil, parece que basta você virar pobre que já é uma punição suficiente. A maneira como o Mateus construiu o papel fez com que não se conseguisse ter ódio total dele. Também achei essa reta final muito bem dirigida, porque tiveram muito cuidado para fazer a transição do envolvimento dele com o Niko", opina Tony Goes, colunista da Uol e da revista "Women's Health". Ele foi um dos responsáveis por comentar o "Big brother Brasil 11" na Folha.com.

Um festival de polêmicas. Em cima desta máxima, "Amor à vida" foi sendo pautada. Discutiu, ou melhor, tentou discutir assuntos, como aborto, sexo na terceira idade, Aids, religião, alcoolismo, câncer de mama, barriga de aluguel, corrida pela fama e até a cura gay, imposta por César (Antônio Fagundes) ao filho. Este último tema deu o que falar ao associar a opção sexual de Félix a seu mau-caratismo. A discussão foi aquecida, no ano passado, pelo projeto de lei apresentado pelo deputado Marco Feliciano.

"A justificativa é que ele se sentia rejeitado pelo pai. Não é a homossexualidade que o fazia ser assim. Tanto que os outros gays não são malvados. Acho que foi um grande avanço ter um vilão gay. Lembro que, anos atrás, quando Milton Gonçalves fazia um senador corrupto na novela "A favorita", muitos disseram que não podia ter um vilão negro. Ele se revoltou dizendo: 'Sou ator, posso fazer qualquer coisa. Quem disse que vilão não pode ser negro?'", ressalta Tony. "Ainda há gays sendo barbaramente assassinados e espancados. Precisamos nos educar para isso. A homofobia ainda é uma realidade", afirma Marco Trajano, presidente do Movimento Gay de Minas Gerais. "Antes de tudo, Félix é um ser humano, que pode se regenerar, sendo gay ou não", assevera Vivian Masutti, colunista do jornal "Agora S.Paulo."

 

 

Representação simbólica

A prova de que o enredo tem atraído a atenção do público se comprova pelo Ibope. Na última segunda-feira, a descoberta da traição de Aline (Vanessa Giácomo) e sua tentativa de fuga alcançou a marca dos 50 pontos de audiência. O número ficou somente um ponto abaixo do desfecho de "Avenida Brasil", em 2012. A declaração de Félix a Niko, na terça-feira, fez "Amor à vida" manter a média de 48 pontos. Dados semelhantes foram registrados em novembro, quando Paloma deu uma surra no irmão por causa do sequestro de Paulinha.

Guilherme Fernandes, doutorando em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que o debate em torno do romance gay não é novidade na televisão brasileira. "A próxima vítima" (1995), "Fina estampa" (2011), "Rebu" (1974) e "Torre de Babel" (1998) são apenas algumas das novelas que já abordaram a temática. O que chama atenção agora é que, diferentemente do que aconteceu com "Torre de Babel", quando o autor Sílvio de Abreu matou as personagens de Silvia Pfeiffer e Christiane Torloni, Carrasco elevou o casal gay ao posto de protagonista. Paloma e Malvino Salvador acabaram ficando esquecidos na trama.

"Desde que a TV surgiu, algumas questões viraram polêmica por chocar a sociedade. Sempre falam que ela, por entrar no seio das famílias, não pode mostrar certos tipos de coisa", observa Fernandes, ressaltando a necessidade de se alargar o debate para romper um tabu ainda existente. "A questão da homofobia foi muito bem retratada em "Insensato coração", quando mostrou o espancamento de um rapaz em Copacabana. Essa ampliação do leque é mais importante que o beijo gay", afirma. "O beijo não é inédito, mas é simbólico, porque muita gente acredita que o gay é promíscuo e só se realiza na prática sexual. Por isso, o movimento homossexual pede tanto o beijo. Eu gostaria de ver", destaca o pesquisador.

 

A troca de olhares de Niko e Félix foi acompanhada segundo a segundo nas redes sociais. O espectador tem feito coro a favor do tão esperado beijo entre os pombinhos com a hashtag #beijalogo. Nem Paula Braun, mulher de Solano e intérprete da personagem Rebeca, conseguiu ficar fora dessa. Segunda-feira, ela desabafou em seu Twitter: "Aff cena linda! #BeijaFelix". "Os dois conseguiram passar que existe afeto entre pessoas do mesmo sexo", destaca Trajano. "Foi um avanço, apesar de achar que o autor ainda retratou o homossexual como aquele cara que tira a roupa no aeroporto", completa o presidente do MGM. Assim como acontece com Mateus Solano, Marcelo Serrado também arrebatou os corações com Crô em "Fina estampa". Os dois atores guardam semelhanças na construção de gays engraçados e estereotipados.

No caso de Solano, já no primeiro capítulo, ele bradou aos quatro cantos, para quem quisesse ouvir, seu famoso bordão: "Será que eu salguei a Santa Ceia?". De lá para cá, foi uma enxurrada de frases venenosas, porém, cheias de humor: "Pelas contas do rosário", "Será que eu dancei pole dance na Santa Cruz para sofrer tudo isso?", "Vou trocar minha aura por um esplendor de purpurina!", "Será que eu fiz um churrasco com a última vaca da Arca de Noé?".

Como todo bom roteiro, "Amor à vida" não deixou de falar de traições, seja ela entre casais de sexos opostos ou entre homossexuais. E, nesta hora, o espectador não perdoa. Ao trair o companheiro Niko com Amarilys (Danielle Winits), que acabou virando uma das grandes vilãs do folhetim, Eron (Marcelo Antony) engrossou a fila dos rejeitados. De quebra, seu ex-namorado, que já era bom moço, deu exemplos de como deve ser um bom pai. "Ele pisou muito na bola. É interessante notar como o amor não perdoa deslealdade. Trair uma pessoa não é crime, é algo menos grave do que jogar um bebê na caçamba. Só em telenovela mesmo", ironiza Tony.

O presidente do MGM ainda ressalta que, mais chocante que mostrar o casal se beijando na novela, é exibir uma cena em que Ninho (Juliano Cazarré) foi esfaqueado por Aline. Segundo ele, a violência apresentada deveria causar mais comoção do que o romance entre homossexuais. "Esta concepção de valores da sociedade é muito louca. Estou torcendo para o dia em que o beijo será apenas um beijo", destaca Trajano, sendo endossado por Tony. "Não acho o beijo gay necessário, mas adoraria que tivesse para acabar o assunto. Gente, o mundo não acabou. Isso é uma coisa normal. Não sei se vai rolar, porém o mais importante já foi feito."

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