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02 de Março de 2014 - 06:00

Tribuna conversa com cinéfilos, diretores e críticos, que fazem suas apostas para as principais categorias do Oscar hoje à noite

Por JÚLIA PESSÔA

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'Gravidade' pode ser eleito melhor filme
Elenco de
Elenco de 'Trapaça', também com dez indicações, disputa em todas as categorias de atuação

Para muitos dos aficionados pela sétima arte, hoje é dia de aposentar a fantasia e os confetes e acompanhar a premiação mais famosa do cinema, o Oscar. Entregue anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, fundada em Los Angeles, a estatueta do homem careca e dourado premia a excelência de profissionais da indústria cinematográfica, como diretores, atores e roteiristas, e a glamorosa cerimônia oficial é uma das mais esperadas e comentadas do ano, ainda que muitos cinéfilos critiquem a euforia em torno da premiação e não a vejam como a mais importante do cinema. "As temporadas trazem filmes cada vez mais medíocres, e também acho meio exagerada a cobertura midiática em torno disso", opina o crítico Marcelo Miranda.

Apesar de haver críticas, a entrega do Oscar deverá, como de costume, levar muitos espectadores para a frente das telinhas hoje, às 21h30, quando começa a cerimônia. No Brasil, diferentemente das edições de outros anos, a Globo não exibirá a premiação, que coincidirá com o primeiro dia de desfile de escolas de samba na Sapucaí, no Rio. A transmissão ao vivo ficará restrita aos que possuem TV paga, no Canal TNT, a partir das 20h30. Apesar disso, a Globo exibirá um compacto gravado - como faz com as agremiações carnavalescas - com os melhores momentos da cerimônia apresentados pela queridinha da emissora, Fernanda Lima, logo após a "Sessão da tarde" de segunda, 3. Para quem possui acesso à internet de alta velocidade, vale buscar algum link com a transmissão da festa em tempo real.

A Tribuna conversou com cinéfilos, diretores e críticos, que deram seus palpites sobre os possíveis ganhadores das principais categorias desta edição do Oscar, e obteve opiniões bem variadas. Para Pedro Nogueira, integrante do Luzes da Cidade - Grupo de cinéfilos e produtores culturais, a categoria melhor filme, uma das mais aguardadas desta noite, deve ficar com o denso "12 anos de escravidão", de Steve McQueen, que retrata a escravidão americana após a Guerra Civil e é baseada na história real de Solomon Northup, um homem livre enganado e vendido como escravo em plantações da Louisiana. "O filme trata de um tema delicado de forma crua e com excelentes atores, e sua trajetória em outras premiações também é um bom termômetro", diz ele, lembrando que o longa foi considerado a melhor produção no Bafta - apelidado de o Oscar britânico -, levou o Globo de Ouro de melhor drama e empatou com "Gravidade", de Alfonso Cuarón, como melhor filme na visão do Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos (PGA Awards). Nos últimos seis anos, ganhador do PGA

 

'Gravidade' tem apelo visual e referências palatáveis

"Gravidade" deve levar a estatueta na visão do crítico de cinema Dimas Tadeu. "Desde 2001: uma odisseia no espaço", o cinema não contava com um filme que usasse a própria linguagem e o próprio gênero (no caso, a ficção científica) para atingir dimensões filosóficas. Verdadeira reflexão sobre a origem da vida e sua capacidade de renascimento, o filme deve ser lembrado em alguns anos como um marco na história do cinema." A cineasta Flávia Vilela também acredita que a ficção seja a grande vencedora. "É um filme que tem mais apelo visual e referências mais palatáveis ao grande público, o que costuma contar nessa premiação, além da enorme bilheteria desse filme em 2013. Aposto nele, embora torça para Ela', de Spike Jonze", diz a diretora.

Estrelado por Joaquin Phoenix - que foi, inclusive, esnobado pela Academia nas indicações para melhor ator -, "Ela", é uma crônica agridoce do mundo conectado, em que um homem solitário apaixona-se pela voz de um programa de computador. "O diretor usa, com maestria, um futuro imaginado para refletir sobre os problemas do presente. Eu sei que esse recurso já é bastante utilizado como nas obras de Aldous Huxley ou por Kubrik, em '2001; uma odisseia no espaço'. Mas ela se diferencia por não ser um futuro tão distante, e isso faz com que eu tenha me aproximado mais desse filme e de seu personagem. Também fala da solidão que é amenizada pela tecnologia e até que ponto isso é real. É um filme tocante e questionador", opina Flávia Vilela.

Outro forte concorrente na disputa é "Trapaça", de David Russel, que teve dez indicações ao Oscar e recebeu três prêmios no Globo de Ouro - melhor filme de comédia ou musical, melhor atriz (Amy Adams) e melhor atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence). "O filme se tornou um queridinho da temporada, levando vários outros prêmios. Além de emular as produções de Martin Scorsese que já agradaram tanto a Academia no passado, tem um elenco repleto de nomes ou que já ganharam o Oscar ou que eventualmente vão ganhar e representar o tipo de trajetória que Hollywood adora reconhecer", comenta o crítico Marcelo Miranda. Além dos mencionados, também concorrem nesta categoria "Capitão Phillips" (Paul Greengrass), "Clube de compras Dallas" (Jean-Marc Vallée), "O lobo de Wall Street" (Martin Scorsese), "Nebraska" (Alexander Payne) e "Philomena" (Stephen Frears).

 

 

Entre o conservadorismo e a ousadia

Dentre os diretores que podem ganhar a estatueta, o crítico Dimas Tadeu acredita que Alfonso Cuarón deva levar a melhor por "Gravidade". "Sempre discordo da ideia de que o Oscar de melhor filme possa ir para uma produção diferente daquela que leva melhor diretor. É ele o responsável pelo que vemos na tela, e o controle criativo da obra é dele. Por isso, se 'Gravidade' for o melhor filme, não tem como Alfonso Cuarón não ser também o melhor diretor. E vice-versa." Já Flávia Vilela fica na dúvida, mas também vê a possibilidade de o prêmio ficar com Cuarón. "Aposto em Martin Socorsese, porque ele é o Scorsese! Ganhou um Oscar só, foi muitas vezes indicado e já está velhinho. Mas a Academia pode apostar na juventude com Afonso Cuarón, que começou a carreira no México, seguindo a moda da premiação em prestigiar diretores 'alternativos', que nem são tão alternativos assim, mas o bastante para Hollywood e seu conservadorismo." Além de Alfonso Cuarón, concorrem também Steve McQueen ("12 anos de escravidão"), Alexander Payne ("Nebraska") e David O. Russell ("American hustle).

Entre as atrizes, a maior aposta é em Cate Blanchett, por sua atuação em "Blue Jasmine", de Woody Allen, embora as premiações possam caminhar para outras possibilidades. "Ela é o destaque tanto pela personagem inusitada, diferente da maioria das que já interpretou, como pelos prêmios anteriores da temporada, que a colocam na posição de favorita. No entanto, Judi Dench e até Sandra Bullock - quem diria! - também mereceriam a láurea", defende Dimas. Para Marcelo Miranda, a suposta acusação de que Woody Allen teria, anos atrás, molestado a filha que adotou com Mia Farrow, Dylan Farrow, pode interferir na decisão final da Academia. " Não se pode ignorar que a controvérsia pode ter afetado a votação e prejudicado as categorias nas quais o filme compete. Um segundo palpite seria Amy Adams por 'Trapaça', o que seria coerente com o atual modelo da Academia de premiar jovens e promissoras atrizes em filmes celebrados na temporada." A veterana Meryl Streep também concorre na categoria, por sua atuação em "Álbum de família".

Na premiação principal dos atores, Matthew McConaughey, que passou por uma intensa transformação física para viver um soropositivo em "Clube de compras Dallas", é um dos nomes mais cogitados. "Ele deve levar seu primeiro Oscar pelo papel que é o seu melhor. Os quilos que perdeu para compor o personagem são apenas um aperitivo para a complexidade que o ator coloca em um caubói texano, homofóbico e mal-educado que se descobre soropositivo em plenos anos 1980. Um prêmio merecido, mas que bem poderia ser dividido com Leonardo DiCaprio, cuja a intensidade da performance também transcende o físico em 'O lobo de Wall Street'", opina Dimas. Já Marcelo Miranda acredita que os astros de "Trapaça" e "12 anos de escravidão" possam levar o prêmio para casa. "Aposto alto em Christian Bale, já que 'Trapaça' caiu nas graças de Hollywood, e o ator já ganhou prêmio de coadjuvante num filme do mesmo diretor, então seria uma continuidade. Mas a Academia pode querer arriscar mais e dar para Chiwetel Ejiofor, de '12 anos de escravidão'", pondera.

 

Gafes a acertos

 

Além da premiação da indústria do cinema por si só, outro quesito ganha a atenção do público na cerimônia da Academia: o que as estrelas vestem no tapete vermelho, causando uma comoção com as tendências e gafes de moda na internet. Para a blogueira de moda Camilla Villas, as transparências devem dominar os modelitos da festa, e os famosos bordados e vestidos tomara-que-caia não perderão sua majestade. "Os estilistas vêm apostando mais nas macrotendências, que são referências usadas por mais de uma temporada, até porque esses modelos do tapete vermelho são como uma vitrine para as inspirações das grifes."

A blogueira aposta que a atriz Amy Adams cruze o tapete com um destes exemplares que farão escola nas próximas estações. "Sendo indicada como melhor atriz, com certeza há grandes chances de o look ser glamoroso e cheio de estilo. Ultimamente, ela vem aparecendo com produções belíssimas casadas perfeitamente com penteados e maquiagens incríveis."

Já entre os possíveis deslizes, a blogueira aponta a queridinha de Hollywood, Jennifer Lawrence, como forte candidata. "No Globo de Ouro, seu vestido causou tanta estranheza que acabou virando um meme divertido na web", comenta a fashionista sobre a atriz, que venceu o Oscar de melhor atriz no ano passado e concorre como coadjuvante neste ano. Flávia Vilela completa: "Ela pode esperar mais um pouquinho, já ganhou uma estatueta e ainda está nova, tem tempo para isso", alfineta a diretora.

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